No Vaticano, o 'papa' Putin se reúne com o papa Francisco

No Vaticano, o 'papa' Putin se reúne com o papa Francisco

Para sociólogo, presidente russo representa Cristandade de antes do Iluminismo e o pontífice, a visão mais progressista e moderna

Jason Horowitz, The New York Times, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2019 | 21h29

ROMA — O presidente russo, Vladimir Putin, encontrou-se nesta quinta-feira com líderes italianos e seu velho amigo Silvio Berlusconi. Mas sua reunião mais atentamente observada foi com o papa Francisco.

O pontífice é considerado pelos liberais europeus a maior voz moral contra a ressurgência do populismo e a demonização dos imigrantes. Mas para muitos políticos nacionalistas e contrários à imigração, o líder russo é o seu papa alternativo, o guia espiritual do seu movimento.

“Posso estar dizendo uma heresia, mas o presidente Putin me parece mais um papa,  pela maneira que vive o cristianismo, em comparação com aquele que para todos os efeitos deve ser o papa”, afirmou Gianmatteo Ferrari, secretário de uma associação pró-Rússia chamada  Lombardy Russia. Seu presidente, Gianluca Savoini, é um aliado e o elo não oficial entre a Rússia e o nacionalista Matteo Salvini, ministro do Interior da Itália.

“O maior, mais imponente e mais enérgico defensor dos nossos valores cristãos é o presidente Putin”, disse Ferrari.

Este terceiro encontro entre os porta-bandeiras de duas opiniões rivais de Cristandade no continente, ocorreu na biblioteca privada do Vaticano e em meio a uma polarização ideológica entre nacionalistas e liberais que divide o Ocidente.

“Putin representa uma Cristandade medieval, pré-Iluminismo ou no mínimo uma visão da Cristandade pré-Vaticano II”, afirmou Massimo Introvigne, sociólogo italiano, referindo-se ao Concílio Vaticano II que adotou reformas para modernizar a Igreja.

Segundo Introvigne, Putin deixou claro que acredita que os valores ocidentais, como a crença nos direitos humanos e a liberdade religiosa, não são direitos universais e não se aplicam necessariamente à Rússia. Por outro lado, disse Introvigne, “o papa Francisco representa uma visão mais progressista e moderna da Cristandade que aceitou e promulgou a concepção ocidental dos direitos humanos”.

Para Putin, o encontro foi uma maneira de polir sua reputação de líder global e mostrar que está pronto para se reunir com um suposto adversário espiritual. E o papa Francisco acredita que a cooperação de Putin é essencial para a proteção dos cristãos no Oriente Médio, onde a Rússia é ativa. O papa também vem buscando a unidade, ou pelo menos manter melhores relações, com a Igreja Ortodoxa Russa.

Falando por meio de um intérprete, Putin disse ao papa: “Meus agradecimentos pelo tempo que o senhor me concedeu. Foi uma discussão muito interessante e substancial”.

Em 2016, o papa Francisco se encontrou com o Patriarca Kirill de Moscou, chefe da Igreja Ortodoxa Russa - o primeiro encontro de líderes das duas Igrejas em 400 anos. Mas Francisco sabe que sem o apoio de Putin esses esforços não terão nenhum resultado. Fundamental nesse caso é a Ucrânia, um campo de batalha pela identidade política e religiosa.

Em janeiro, a Ucrânia rompeu com a Igreja Ortodoxa Russa à qual esteve ligada por mais de quatro séculos e fundou a própria igreja ortodoxa independente. Contra a oposição russa, o patriarca ecumênico de Constantinopla, ao qual a Ucrânia prestou lealdade até 1686, reconheceu a igreja ucraniana.

Reagindo a isso, a Igreja Ortodoxa Russa, que perdeu uma parte significativa de paroquianos, declarou que não mais reconhecerá o patriarca com sede em Istambul. Putin compartilha da oposição da Igreja Ortodoxa Russa e do patriarca de Moscou, Kirill I ao rompimento da igreja ucraniana.

A reunião no Vaticano foi realizada num momento em que Putin tem se dirigido diretamente aos católicos europeus, muitos deles atraídos para os políticos nacionalistas. Em entrevista recente ao Financial Times, na qual  declarou o fim do liberalismo ocidental, Putin foi questionado se a religião terá um papel maior na cultura e coesão nacionais.

“É exatamente por isso que direi algumas palavras sobre os católicos”, declarou, fazendo o que pareceu uma defesa das tradições da Igreja Católica. “Às vezes tenho a impressão de que estes círculos liberais estão começando a usar determinados elementos e problemas da Igreja Católica como instrumentos para destruir a própria Igreja. O que eu considero incorreto e perigoso”, afirmou.

Isso chegou como música aos ouvidos dos tradicionalistas e nacionalistas de extrema-direita,  convencidos de que o papa Francisco – que tem pregado a inclusão dos gays e dos imigrantes muçulmanos – é esse elemento destrutivo.

Putin tem muitos fãs na Itália, incluindo Salvini, que professa publicamente sua admiração pelo líder russo. Ele viajou para participar de eventos políticos de Putin na Rússia e usou uma camiseta com o rosto do presidente russo impresso nela no Kremlin.

Em entrevista ao Corriere dela Sera, antes da reunião com o papa, Putin afirmou que Salvini e seu partido têm oferecido um apoio ativo à restauração da “plena cooperação entre Itália e Rússia”.

E acrescentou: “Eles vêm pressionando por uma rápida abolição das sanções decretadas contra a Rússia pela União Europeia e Estados Unidos. Neste tema, nossos pontos de vista coincidem. Salvini tem uma atitude acolhedora com relação a nosso país”.

Alguns dos aliados mais próximos de Salvini afirmam que Putin suplantou Francisco como o maior defensor na Europa dos valores cristãos tradicionais. Os membros mais devotos do culto a Putin falam do líder russo em termos místicos, comparando-o a Katechon, termo grego que se refere a uma força que mantém o Anticristo à distância. 

E também fazem referências à Terceira Roma, uma ideia do século 15 do destino manifesto da Igreja Ortodoxa, em que Moscou se tornaria centro espiritual da verdadeira igreja depois de Roma e Constantinopla.

Diante deste cenário, o papa Francisco tem sido cuidadoso para não antagonizar com a Rússia,  tomando partido no conflito da Ucrânia ou na disputa entre as igrejas ortodoxas ucranianas. Para o sociólogo Massimo Introvigne, a aparente oposição de Putin à liberdade religiosa na Rússia “pode eventualmente colocar em perigo a minoria católica”./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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