No Vietnã, o resgate da autoestima

Mulher de 49 anos recebe vítimas do tráfico humano rejeitadas por aldeia e lhes dá meios de recomeçar

Julie Cohn, do The New York Times, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

Raros visitantes da Hop Tien percebem ao olhar os territórios asperamente belos do norte do Vietnã o ostracismo de muitas mulheres dessa região e a determinação empreendedora de uma mulher que começou a combater essa situação. Mais de uma década atrás, traficantes de pessoas chegaram neste rincão aparentemente esquecido para capturar mulheres e crianças e vendê-las na China, a menos de sete quilômetros de distância.

Os primeiros predadores chegaram em Hop Tien em 2003, oferecendo-se para comprar sapatos novos para algumas jovens. Depois disso, as mulheres com idades entre 16 e 22 anos desapareceram e foram vendidas como noivas, trabalhadoras forçadas ou sexuais.

Elas são vítimas de um problema relativamente disseminado no Vietnã que inclui o sequestro e tráfico de crianças de até 6 anos, segundo Matthew Friedman, diretor regional do Projeto Interagências da ONU sobre o Tráfico de Pessoas. Entre 2001 e 2005, a polícia chinesa resgatou mais de 1.800 vítimas desse tráfico na fronteira vietnamita, segundo relatório do Departamento de Estado americano.

Desde então, particularmente nos três últimos anos, o Vietnã "realizou uma campanha significativa e bem-sucedida contra o tráfico", disse Friedman. Mas o país ainda enfrenta desafios e o tráfico de pessoas continua sendo um problema.

Também importante é o estigma que recai sobre as vítimas depois que foram resgatadas. Após aldeões daqui reportarem os sequestros, as autoridades vietnamitas colaboraram com autoridades chinesas para achar as mulheres e trazê-las para casa.

A euforia dos moradores transformou-se em horror quando perceberam que duas das mulheres estavam grávidas e outras tinham sido transformadas em trabalhadoras sexuais. Temendo que elas pudessem lançar vergonha sobre toda a família, diversos lares repudiaram suas filhas sequestradas. Algumas garotas construíram tendas improvisadas, pontos azuis que ainda podem ser vistos no alto das encostas a grande distância da cidade. Elas viviam como párias, sem comida, renda ou esperança.

Ajuda. Foi aí que Vang Thi Mai, uma mulher pequena com mãos ásperas pelo trabalho e um rosto redondo, as acolheu e mudou as vidas delas e o destino de toda a aldeia. Segundo Mai, ao menos sete mulheres foram sequestradas e, após serem evitadas ao voltar, ela as convidou para sua casa e as incluiu numa pequena cooperativa têxtil fundada por ela e o marido. Mai ensinou-as a separar talos de cânhamo em fibras, fiar as fibras, tecer os fios e tingir o tecido para roupas e outros itens.

"Quando comecei a trabalhar com as vítimas, a cidade me isolou e me criticou por estar associada às mulheres", relatou Mai, de 49 anos. "Eles diziam que as mulheres eram impuras e eu não devia fazer amizade com elas. Disse a eles que o que havia ocorrido não fora por culpa delas, pois foram vítimas de crimes alheios."

Mai, que já trabalhou como enfermeira e foi presidente da Associação de Mulheres do distrito, disse às sequestradas que ignorassem o desprezo. "Disse-lhes que quando conseguissem ganhar dinheiro, viver por contra própria e cuidar de outros com o dinheiro que ganharam, a cidade mudaria sua maneira de pensar", disse ela.

De fato, as outras mulheres da aldeia começaram a notar os lucros da cooperativa e foram ficando ansiosas para entrar no negócio. Hoje, a cooperativa tem 110 mulheres, e trabalhar lá pode multiplicar por quatro a renda familiar. Até alguns homens começaram a ajudar com trabalhos mais pesados. Com o passar dos anos, disse Mai, ela também trouxe vítimas de violência doméstica para a cooperativa.

Quando uma peça é vendida, explicou Mai, a renda é distribuída por igual entre as mulheres que ajudaram a produzi-la. Ela retém 3 mil dongs vietnamitas, ou menos de US$ 0,15, sobre cada item para um "fundo para tempos difíceis" para ajudar as mulheres.

A cooperativa vende seus produtos para um número crescente de turistas que a visitam. Outros clientes incluem a embaixada francesa, uma companhia de turismo, um dono de hotel e uma companhia exportadora de Hanói que despacha os artigos a vários países. A aldeia, que faz parte da comuna de Lung Tam, ainda é pobre, mas ganha mais do que antes e está, de várias maneiras, melhor que muitas outras na Província de Ha Giang, uma das regiões mais pobres do Vietnã. Mais de 90% de seus habitantes são de minorias étnicas, a maioria dos quais mal consegue ganhar para viver - menos de US$ 250 por ano em média - cultivando entre as cadeias montanhosas de Huang Lien e Can Ty.

A cooperativa de Mai conseguiu preservar as tradições de sua etnia minoritária hmong enquanto melhora a economia da região e capacita suas mulheres, uma experiência que lhe rendeu o apoio de figuras políticas e de organizações não governamentais. Mai foi visitada pelo presidente Tran Duc Luong do Vietnã e viajou à Franca para representar sua cultura numa feira internacional de artesanato. A Batik Internacional, com base em Paris, envolveu-se com a cooperativa em 2007, seguida depois pela Oxfam e a Caritas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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