AFP PHOTO / Zinyange AUNTONY
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No Zimbábue, 'Crocodilo' Emmerson Mnangagwa assume a presidência

Mnangagwa será jurado nesta, que toma posse nessa sexta-feira como presidente, é conhecido pela brutalidade e por tirar os adversários do caminho

O Estado de S.Paulo

24 Novembro 2017 | 05h00

 A era de tirania no Zimbábue pode estar longe do fim. Emmerson Mnangagwa, que assume nesta sexta-feira a presidência do país, é um dos mais sanguinários aliados do ex-ditador Robert Mugabe, apeado do poder por um golpe militar no dia 15. Seu nome de guerra é “Crocodilo”. “Um crocodilo nunca sai da água para procurar comida”, disse ele sobre si mesmo recentemente. “Em vez disso, espera que suas presas se aproximem e dá o bote no momento apropriado.” 

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De fato, Mnangagwa esperou para dar o bote. Ele cultuou e apoiou Mugabe. Em troca, recebeu cargos de prestígio e chegou à vice-presidência. Quando Mugabe deu sinais de que colocaria sua mulher, Grace, como sucessora, Mnangagwa saiu da água. O ataque, em princípio, parecia precipitado. Ele foi destituído do cargo e exilou-se. 

Dias depois, o Exército zimbabuano interveio, derrubou Mugabe e Mnangagwa assumiu. O apoio tem motivo: em seus anos de ministro e vice-presidente, ele garantiu bons contratos comerciais para os militares. 

A “nova democracia” do Zimbábue, anunciada por Mnangagwa, com “paz e prosperidade”, promete ser apenas uma repaginação da versão antiga – talvez ainda mais brutal. Sua temível reputação vem da época da guerra civil, um confronto entre seu partido, o Zanu-PF, e o rival Zapu, que ganhou contornos de luta étnica. 

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Como ministro da Segurança Nacional, Mnangagwa orquestrou uma limpeza da oposição no país. Cerca de 20 mil pessoas morreram, quase todas da minoria étnica ndebele. A operação ficou conhecida como Gukurahundi, ou “a chuva precoce que lava a palha antes da primavera”. 

A repressão foi brutal. Os militares zimbabuanos, treinados na Coreia do Norte, obrigavam crianças a matarem seus pais, abriam o ventre de mulheres grávidas e obrigavam parentes a amassar os fetos em um pilão. Os homens eram obrigados a cavar os próprios túmulos.

Em um relatório divulgado em 2001, o Departamento de Estado americano afirmava que Mnangagwa era “amplamente temido e desprezado em todo o país” e “poderia ser um líder mais repressivo” do que o próprio Mugabe. 

Rivalidade. “Ele é um homem muito cruel, muito cruel”, afirmou à BBC Blessing Chebundo, candidato da oposição que derrotou Mnangagwa na campanha parlamentar de 2000. Em uma campanha violenta, Chebundo escapou da morte após ser sequestrado por jovens do Zanu-PF. 

Os matadores jogaram gasolina no rival, mas não conseguiram acender o fósforo. “Você acha que Mugabe é ruim, mas já parou para pensar que quem virá depois dele pode ser ainda pior?”, disse Chebundo.

Vida de Rei. Robert Mugabe foi forçado a deixar o poder, mas manterá uma vida de rei na mansão que mandou construir em Harare, em 2003. Conhecida como “Mansão do Teto Azul”, a propriedade tem 25 quartos luxuosos, 2 lagos em um amplo terreno e é protegida por um sistema de radar multimilionário.

Mugabe contratou uma empresa sérvia para construir a mansão, avaliada em US$ 10 milhões, ignorando o fato de que milhões de pessoas em seu país passam fome. Fotos do jornal The Zimbabwean mostram salas com piso de mármore, colunas romanas e lustres de cristal. Mugabe acumulou uma fortuna em seus 37 anos de poder e é acusado de ter tratado o erário como se fosse propriedade familiar. /AP, AFP, REUTERS e WP

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