No Zimbábue, Grace quer a presidência

Trata-se da mulher do presidente Robert Mugabe, 40 anos mais nova que ele, em uma campanha para ocupar o cargo

THE CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2014 | 02h01

A mulher do presidente Robert Mugabe, Grace Mugabe, começou sua campanha com agilidade e determinação para suceder o marido como líder do Zimbábue. Nos últimos dois meses, ela tem usado recursos, jatos e helicópteros do marido para viajar pelo país numa "ofensiva de charme" para conquistar mais apoio.

Grace Mugabe, 40 anos mais nova que o marido, quer se posicionar como "vice-presidente paralela" do Zimbábue - pronta para assumir o controle se o presidente Mugabe, que completará 91 anos em breve, renunciar ou morrer.

Mugabe está no cargo há quase três décadas, mas a primeira-dama enfrenta forte resistência por parte dos quadros que foram colegas do presidente na luta pela libertação, figuras que há anos se acotovelam na disputa pelo poder - especialmente o atual vice-presidente, Joice Mujuru, principal nome na sucessão.

Dois meses atrás, Grace foi nomeada diretora da ala feminina da União Nacional Africana do Zimbábue - Frente Patriótica (Zanu-PF, na sigla em inglês). Desde então, ela tem usado o cargo para cortejar líderes religiosos, chefes tradicionais e jovens - com frequência oferecendo a eles festas opulentas em Mazowe, pequena cidade ao norte da capital, Harare.

Mugabe está com a saúde debilitada e já viajou para uma série de consultas médicas no exterior. Há rumores de que ele poderia renunciar antes de 2018, quando termina seu mandato. Ele indicou que pode se afastar da liderança do partido Zanu-PF, embora tenha aceitado a nomeação para liderar o congresso da legenda em dezembro.

De acordo com a nova Constituição do Zimbábue, é nesse congresso que Grace Mugabe precisará se converter para o marido na segunda pessoas em comando e, em seguida, ficar com a presidência. Grace se mostrou disposta a adotar a mesma abordagem política pela qual o marido é conhecido. Ela disse recentemente que estava pronta para "derramar sangue" em defesa do vasto império tomado dos agricultores brancos durante a caótica reforma agrária que teve início em 2000.

Mas ela faz comentários dramáticos e assustadores a respeito de uma série de pessoas e temas. Certa vez, ela deu a entender que teria participado do suposto suicídio de uma jornalista chamada Heidi Holland, que escreveu um livro a respeito de Mugabe.

Dividindo o partido? Até recentemente, a mais acirrada disputa política no Zimbábue era entre o atual vice-presidente Mujuru e o ministro da Justiça, Emmerson Mnangagwa. Ambos são veteranos das guerras de guerrilha que derrubaram o regime colonial do ex-primeiro-ministro Ian Douglas Smith em 1980.

Essa rivalidade, no entanto, mudou com a chegada de Grace, que diz almejar um "cargo mais alto".

Numa movimentada agenda de viagens e reuniões com o eleitorado desde meados deste ano, coberta de maneira ampla e pouco crítica pela imprensa, Grace pediu que Mujuru abra caminho, descrevendo o vice-presidente como invejoso e desonesto. Ela disse que Muruju está apenas "aproveitando o conforto, enquanto Mugabe trabalha por vocês (o povo)".

Grace parece usar a retórica para agredir a todos, sem preferência: fez ataques velados ao antigo aliado de Mugabe e secretário administrativo do Zanu-PF, Didymus Mutasa, próximo de Mujuru na matriz de sucessão de Mugabe.

No entanto, há críticos que falam abertamente contra ela. Numa coluna intitulada "Perdoe-me, Grace", no jornal local Masvingo Mirror, o veterano de guerra e militar Kudzai Mbudzi escreveu: "A primeira-dama… parece-me demasiadamente individualista, imatura… e puramente oportunista… Queremos uma liderança que impulsione o país para a órbita da concorrência sustentável e da prosperidade econômica após períodos de decadência econômica".

O ativista político Blessing Vava diz que Grace é um joguete e está sendo usada para provocar divisões entre os candidatos à sucessão. "Acho que Grace não representa necessariamente seus próprios interesses, mas ela será um fator muito importante em razão de sua proximidade ao presidente Mugabe. Ela está sendo usada para destruir Mujuru. O vice-presidente não vai reagir aos ataques enquanto Mugabe estiver vivo, a não ser que ela queira dividir o partido". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

O CHRISTIAN SCIENCE MONITOR OMITIU A AUTORIA DO ARTIGO POR QUESTÕES DE SEGURANÇA

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