Nobel a opositor chinês foi a escolha correta

Comitê norueguês foi corajoso ao conceder o Prêmio da Paz ao dissidente Liu Xiaobo, mas o ato simbólico atinge o ponto mais sensível de Pequim e certamente terá resposta

Timothy Garton Ash / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2010 | 00h00

O comitê do Nobel na Noruega agiu corretamente ao conceder o Prêmio da Paz a Liu Xiaobo. A furiosa reação do Estado chinês mostra como pode ser complicado fazer a coisa certa, na medida em que avançamos cada vez mais para um mundo "pós-Ocidental". Liu é exatamente o tipo de pessoa que merece este prêmio, juntamente com Andrei Sakharov, Aung Suu Kyi e Nelson Mandela.

Por mais de 20 anos, ele lutou consistentemente por mudanças não violentas na China, sempre na direção de um maior respeito aos direitos humanos, de um estado de direito e da democracia. Por sua defesa pacífica, pagou com anos de prisão e perseguição. Ao contrário do vencedor do ano passado, o presidente Barack Obama, agraciado com o Nobel da Paz pelo que prometeu fazer, Liu recebeu o prêmio este ano pelo que realmente fez.

As autoridades chinesas tentaram ao máximo impedir que ele receba o prêmio. Ameaçaram diretamente o comitê do Nobel de consequências negativas para as relações entre China e Noruega. Qualificaram o prêmio como "obscenidade", proibindo qualquer menção a ele na mídia chinesa sob censura, colocaram a mulher de Liu em prisão domiciliar, detiveram outros intelectuais críticos do governo, cancelaram conversações marcadas sobre exportações de pescado da Noruega para a China.

E agora, sem dúvida estão discutindo, no mais alto escalão, o que fazer. Por exemplo, devem permitir que a mulher dele, Liu Xia, viaje a Oslo para receber o prêmio em nome do marido preso?

Enquanto isso, nas capitais ocidentais, muitos perguntam se essa foi realmente uma boa decisão. Essas questões são importantes e precisam ser resolvidas, mas existe um argumento hipócrita e enganador que tem de ser destruído: que não será bom, até mesmo para os dissidentes, se o principal contestador do regime receber o prêmio Nobel da Paz.

Argumento similar foi usado por políticos ocidentais ao se recusarem a receber Sakharov, Lech Walesa ou Vaclav Havel. Comentando sobre a visita de um velho estadista americano a Moscou, um escritor russo confiou-me: "Ele disse que não seria bom para Sakharov se eles se encontrassem. Mas, na verdade, o que ele quis dizer é que um encontro com Sakharov não seria bom para ele." Cabe aos dissidentes decidirem o que é bom para eles. Até agora, todas as evidências indicam que os opositores chineses vibraram com a premiação, mesmo que ela signifique - o que é previsível - novas medidas repressivas contra eles.

Isso não quer dizer que o Partido Comunista chinês os estivesse tratando gentilmente. Liu foi enviado à prisão há 11 anos, apesar de toda a "diplomacia silenciosa" de políticos ocidentais. Segundo relato de sua mulher, ele ficou profundamente comovido ao receber a notícia do prêmio, na prisão, e o dedicou "às almas penadas" da Praça da Paz Celestial (Tiananmen). Não nos cabe dizer a esses corajosos defensores dos direitos humanos o que é bom para eles.

Isso seria tratá-los como os regimes autoritários e totalitários tratam seu próprio povo: como crianças.

No momento, Liu e seus colegas formam uma minúscula minoria de cidadãos chineses. Muitos dos seus compatriotas aceitaram o acordo proposto pelo Partido Comunista desde o final dos anos 70, e mais particularmente a partir de 1989: uma liberdade econômica extraordinária e uma liberdade social, cultural e mesmo intelectual considerável, desde que não sejam contestados os pilares políticos fundamentais do Estado de um só partido. Nesse sentido, Liu não pode ser comparado a Nelson Mandela ou Suu Kyi, líderes de movimentos de massa oprimidos.

É preciso reconhecer, como o fez o comitê do Nobel em sua citação, que essa versão híbrida sem precedentes, de um capitalismo autoritário, adotada pela China, tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza e está atendendo às necessidades de muitos sob vários aspectos. Ao contrário de Mianmar ou da África do Sul sob o Apartheid, o Estado chinês tem um forte apoio da população. O teste será, naturalmente, quando o crescimento econômico desacelerar.

Não podemos saber como os compatriotas de Liu pensarão dele daqui a 20 anos. Parece inimaginável que as coisas mudem radicalmente no país como ocorreu na antiga Checoslováquia, a ponto de um dissidente isolado, como Vaclav Havel, repentinamente se tornar presidente eleito do país.

Minoritários. Presidente Liu? Certamente não. O que podemos conceber é Liu tornar-se o exemplo fundamental de coragem para um líder reformador. Como o telefonema de Mikhail Gorbachev para Andrei Sakharov, suspendendo a sentença que o tinha banido do país quando o dissidente recebeu o Nobel, foi um momento decisivo na história da URSS, poderia um telefonema para Liu, digamos, do próximo líder chinês, marcar uma nova etapa da modernização política da China? A publicação, na terça-feira, de uma carta aberta de ex-autoridades destacadas do Partido Comunista, exigindo mais liberdade de expressão, é uma indicação de que as esperanças dos reformistas dentro do partido e dos dissidentes fora dele não estão necessariamente anos luz de distância.

Mas é possível que Liu e seus colegas continuem uma pequena minoria, representando uma autêntica, mas jamais predominante, tradição na moderna história chinesa: a tradição da modernização constitucionalista, liberal, que eles evocaram detalhadamente no manifesto da Carta 08, que levou Liu à prisão e à conquista do Nobel. A aterradora e indignada reação do regime chinês é o testemunho da sua própria insegurança, e sua ainda essencialmente leninista intolerância a qualquer fonte genuinamente autônoma de autoridade política e social - seja Liu e seu minúsculo grupo, Falun Gong ou o Dalai Lama.

Mostra também um profundo, e amplamente compartilhado, sentimento de humilhação nacional frente ao Ocidente.

Como eles gostariam de ter o reconhecimento internacional de um prêmio Nobel. Mas quem são os três chineses, ou relacionados com a China, vencedores de um Nobel? Gao Xingjiang, romancista chinês que emigrou para a França e adotou cidadania francesa; o Dalai Lama; e agora Liu Xiaobo.

Na sua citação, o comitê do Nobel fala de direitos humanos "universais". A Carta 08 fala de valores "universais". Mas os líderes chineses ouvem somente valores "ocidentais" e a busca pós-imperialista, mas ainda imperialista, do Ocidente, para impor esses valores à China. Na próxima década, há três enfoques que nós, no Ocidente, podemos adotar em resposta a isso: capitulação, "Huntingtonismo" ou um diálogo real sobre os valores universais.

Capitulação significaria nos inclinarmos à chantagem chinesa, e assim, por exemplo, os líderes ocidentais não mais receberiam o Dalai Lama. Por Huntingtonismo quero dizer a maneira como Samuel Huntington imaginaria evitar o "choque de civilizações". Em essência, significaria dizer: "Muito bem, você faz as coisas à sua maneira aí do seu lado, e nós agiremos à nossa maneira do lado de cá."

Mas é muito cedo para renunciar à esperança de que ela chegue a uma compreensão mais profunda do que são valores genuinamente universais, em oposição àqueles somente ocidentais. Nesse diálogo, precisamos estar preparados para ouvir, não apenas falar. Se, em vez de se fechar defensivamente como um ouriço, a China mostrar-se disposta a uma discussão, de modo confiante, até ofensivo, sobre os valores universais, precisamos acolher essa disposição com os braços abertos. As alternativas são mais prováveis, mas piores. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É HISTORIADOR E ANALISTA BRITÂNICO

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