Natan Giuliano/WFP
Natan Giuliano/WFP

'Nobel da Paz pode trazer mais recursos contra a fome', diz chefe de agência da ONU

Programa Mundial de Alimentos, da ONU, recebeu prêmio por luta contra a fome em mais de 80 países

Entrevista com

Daniel Balaban, chefe do Programa Mundial de Alimentos (WFP) no Brasil

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2020 | 13h31
Atualizado 09 de outubro de 2020 | 20h42

Ao menos 20 mil pessoas morrem a cada 24 horas por falta de alimentos. Enquanto isso, 690 milhões não sabem se terão os alimentos necessários até o final do dia. Para reconhecer o trabalho de quem luta para diminuir a fome e a insegurança no planeta, o Prêmio Nobel da Paz de 2020 foi dedicado ao Programa Mundial de Alimentos (World Food Programme, em inglês), a maior agência humanitária das Nações Unidas e o maior programa de combate à fome no planeta. 

Com atuação em 88 países e levando alimentos a mais de 100 milhões de pessoas, o WFP foi criado na Assembleia-Geral das Nações Unidas de 1961 e atua em áreas que vão desde o fornecimento direto de alimentos a populações vulneráveis até o auxílio na construção de políticas públicas para reduzir a fome nos cinco continentes. 

"O prêmio vem mostrar esse trabalho urgente, importantíssimo, e pode trazer mais recursos (contra a fome)", afirma Daniel Balaban, chefe da agência no Brasil. Segundo ele, quem realmente ganhou com o reconhecimento internacional foram as populações marginalizadas e esquecidas. Abaixo, a entrevista completa. 

Qual a importância do Prêmio Nobel da Paz para o World Food Programme? 

O mais importante do prêmio é colocar luz em um problema tão importante que afeta o mundo e afeta o Brasil: a fome, a insegurança alimentar e nutricional, o desespero dessas pessoas em busca de sobrevivência. Quem realmente ganhou o prêmio foram essas populações marginalizadas e esquecidas. O WFP só existe para ajudar essas pessoas. É importante que a gente resolva esse problema, que tem solução, mas falta interesse político em agir. 

Acredita que a visibilidade conquistada pelo prêmio pode ajudar o WFP a obter mais recursos?

Esse prêmio coloca luz sobre um problema que todo mundo vai ver que existe. Os países vão querer participar mais da solução. É o que eu acredito. O WFP vive de recursos dos países, da iniciativa privada, de fundações, de milionários e bilionários que apoiam. O prêmio vem mostrar esse trabalho urgente, importantíssimo, e pode sim trazer mais recursos. Estamos em um mundo em que 20 mil por dia morrem por fome, 690 milhões em insegurança alimentar. As pessoas precisam notar que é possível resolver isso. 

O que falta para resolver essa questão?

Não é possível, no ano de 2020, que tenhamos tanta nanotecnologia, tantos avanços, estamos indo pra Marte, e não conseguimos resolver esse problema que afeta milhões de pessoas em todo o planeta. Quando o mundo se une para resolver um problema, ele resolve. Veja o caso dessa vacina batendo recorde, já na fase final. Nunca tivemos uma vacina em menos de dois anos. Então, está na hora de o mundo ter interesse de acabar com a fome. Esse Nobel veio para ajudar isso, para mostrar que dá para resolver esse problema.

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É preciso de interesse político e das populações. São elas que influenciam nas tomadas de decisões. 
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O Brasil é um país reconhecido internacionalmente pelas políticas públicas de combate à insegurança alimentar. Ao mesmo tempo, o IBGE mostrou que 10 milhões de pessoas vivem em insegurança alimentar grave. O Brasil pode voltar ao Mapa da Fome? 

Se não voltar a vigiar e colocar esse problema na pauta do dia a dia, nós vamos, infelizmente, ter o país vergonhosamente de volta ao Mapa da Fome. Não podemos. Somos a nona economia do mundo, somos um dos maiores exportadores de alimentos do mundo. Não podemos ter nenhuma pessoa no nosso país que não tenha o que comer. Isso é obrigação do governo, dos Estados, dos municípios e dos cidadãos. 

Como o histórico do Brasil pode ajudar o país a superar o problema?

Orai e vigiai. Esse é o Brasil. Criamos políticas públicas sustentáveis de combate à fome e à pobreza mostrando que é possível conseguir diminuir esse número de pessoas vulneráveis. Chegamos a praticamente 1% da população em insegurança alimentar e nutricional, mas voltou a crescer nos últimos cinco anos.

Isso aconteceu por falta de interesse e manutenção dessas políticas. E aqui entram todos os envolvidos: governos federais, estaduais, municipais e a população, que parou de se preocupar com esse tema e parou de influenciar o debate público. Quando não influencia, as políticas perdem espaço, principalmente no orçamento. E sem orçamento não há política.

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O Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo não pode ter pessoas dentro do seu território passando fome
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Falando de forma global agora. São 690 milhões de pessoas em insegurança alimentar no planeta, mas não falta comida. Qual o problema? 

O mundo produz comida para alimentar toda a população com várias refeições ao dia. O problema é que os alimentos não chegam aos mais necessitados. Por isso, trabalhamos com a criação de sistema alimentares para que os alimentos sejam canalizados diretamente para os que necessitam. O Brasil desperdiça um terço dos alimentos que produz.

Só isso seria capaz de alimentar milhões de pessoas em várias partes do mundo. Imagine o desperdício em outros países. Então, a questão é fazer com que os alimentos cheguem a todos que necessitem, que evitemos as perdas, que consigamos ajudar os pequenos agricultores familiares, que são a base de sustentação da produção. 

Após receber o prêmio, o WFP afirmou que fome e paz são indissociáveis. Qual é a relação? 

Sem paz não existe fim da fome no mundo. Locais onde há fome estão totalmente suscetíveis a conflitos armados porque a fome leva à desesperança. É muito fácil conseguir levar essas pessoas para conflitos. Pegue o caso de uma criança que viu o pai, a mãe, o irmão morrer, que a família está passando fome. Você dá uma arma para ela, chama para entrar em um exército de libertação, em uma milícia, e ela se empodera.

A fome leva a conflitos. Dificilmente há conflitos e guerras em países que não há fome. Por isso, vale mais a pena os países investirem no combate à fome do que em aumentar seus arsenais de guerra. 

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