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Nobel da paz critica abstenção do Brasil sobre Irã na ONU

Onde está a forte liderança que a presidente Dilma Rousseff mostrou no passado, questiona a ativista iraniana Shrin Ebadi

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA

27 Março 2015 | 16h22

 GENEBRA - A decisão do Itamaraty de se abster na votação sobre as violações de direitos humanos no Irã provocou duras críticas por parte da prêmio Nobel da Paz, Shirin Ebadi, advogada iraniana. "Onde está a forte liderança que a presidente Dilma Rousseff mostrou no passado?", questionou. 

Na manhã de hoje em Genebra, o governo brasileiro se absteve na ONU em votações de resoluções sobre a violação de direitos humanos na Síria e no Irã. Em outras votações nesta semana, o Itamaraty apoiou propostas de Cuba e de ditaduras árabes. A atitude levou a críticas por parte de ONGs e governos. 

O Itamaraty, em seu discurso no Conselho de Direitos Humanos, explicou que as resoluções não eram equilibradas e, portanto, não poderia apoiá-las. A posição representa uma mudança no comportamento do governo que, nos últimos meses, tem apoiado resoluções envolvendo esses governos.

No caso do Irã, a resolução acabou sendo aprovada com o apoio dos EUA e Europa, ampliando o mandato do relator da ONU para investigar violações de direitos humanos cometidos pelo governo de Teerã. 

"Estou muita contente em ver que o mandato sobre o Irã foi prorrogado", disse Ebadi. "Isso mostra que a comunidade internacional reconhece que nada mudou no terreno e que uma atenção ainda é necessária", afirmou. 

Mas ela fez críticas ao Brasil. "Muitos defensores de direitos humanos no Irã estão surpresos pela abstenção do Brasil e por ter ficado em silêncio sobre esse assunto, especialmente quando o Irã tem centenas de prisioneiros de consciência, minorias religiosas enfrentam perseguições, sindicatos são reprimidos e as autoridades estão preparando a introdução de leis ainda mais discriminatórias contra as mulheres", declarou Ebadi. 


"Esperamos que Dilma, como uma presidente mulher, preste atenção à situação de discriminação contra a mulher no Irã e esteja ciente de que, neste país e de acordo com as leis, um homem é autorizado a ter quatro esposas, uma testemunha de duas mulheres é equivalente a de um homem,  e que se as mulheres insistem em ir a um estádio ver uma partida de vôlei, como Ghonchen Ghavami, elas devem permanecer um tempo na prisão e pagar uma multa", alertou Ebadi. 

Outros defensores de direitos humanos também criticaram o Brasil. "O texto adotado é similar aos anteriores que contaram com apoio brasileiro, sendo que o quadro de violações no Irã não apresentou avanços significativos que justificam essa mudança de posição brasileira", critica Camila Assano, coordenadora da entidade Conectas Direitos Humanos.

"A situação de direitos humanos no Irã permanece em estado crítico e a votação hoje em Genebra reafirmou esta situação terrível . No entanto, a abstenção do Brasil foi bastante decepcionante. O governo iraniano não tem promovido melhorias suficientes nem tem cooperado com o Conselho de Direitos Humanos. A decisão do governo brasileiro de abster-se não é justificável tendo em vista a situação no terreno no Irã", diz Hadi Ghaemi, Diretor Executivo da Campanha Internacional pelos Direitos Humanos no Irã.

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