HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

Nobel da Paz e ex-presidente da Costa Rica é acusado de assédio por ativista

Uma mulher acusou Óscar Arias Sánchez de abusar sexualmente dela há quatro anos; ela diz que se sentiu inspirada a fazer a denúncia após o surgimento do movimento #MeToo

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2019 | 17h25

SAN JOSÉ - A psiquiatra e ativista pelo desarmamento nuclear, Alexandra Arce von Herold, acusou na segunda-feira, 4, o ex-presidente da Costa Rica e laureado com um Nobel da Paz, Óscar Arias, de abusar sexualmente dela há quatro anos. Na época, ele tinha 74 anos e ela, 30. 

Alexandra realizou uma queixa criminal com promotores federais na segunda e fez declaração sob a pena de perjúrio. Ela deu uma cópia da reclamação ao jornal New York Times, mostrando que ela se encontrou com os promotores por quase três horas. Ela não exige danos civis.

Arias ganhou o Nobel da Paz em 1987 por ter elaborado um plano para acabar com a guerra civil na América Central. Ele continua a ser uma das figuras mais poderosas da Costa Rica, onde foi chefe de Estado duas vezes e onde mantém uma fundação que promove a paz e a democracia.

A ativista se encontrava com frequência com o ex-presidente, um importante apoiador da causa desarmamentista. Ela disse que estava na casa de Óscar Arias em 2014 para discutir um importante evento em Viena quando ele chegou por trás dela, tocou em seus seios e colocou a mão por debaixo de sua saia, penetrando-a com os dedos.

Ela saiu, angustiada, e disse a um número de pessoas o que aconteceu, como colegas e seu irmão, Manuel Arce, que afirmou que nas semanas seguintes “foi como se ela tivesse estresse pós-traumático" e "não se sentia segura”, segundo o New York Times.

Nos últimos dias, o ex-presidente não respondeu às repetidas mensagens de texto, de voz e de e-mail sobre a alegação. Na segunda, por meio de porta-voz da sua fundação, ele pediu mais informações sobre o caso, mas não respondeu quando as recebeu.

Rodolfo Brenes, advogado dele, afirmou à imprensa local que Óscar Arias Sánchez não daria comentários.

'Choque'

Lembrando a tarde em que o ex-presidente da Costa Rica a teria apalpado, Alexandra afirma que se arrepende de não ter revidado. Ela disse que estava em choque e tinha se encontrado com o ex-presidente graças a sua mãe, uma ex-deputada do partido dele. As duas já tinham visitado a casa no passado.

“Eu congelei e eu não sabia o que fazer”, disse em entrevista. “Eu estava em choque. Isso nunca aconteceu comigo antes.” Alexandra afirmou que a única coisa que ocorreu a ela no momento era gritar: “Você é casado!”.

Ela deu uma desculpa, afirmou que tinha um encontro na Assembleia Nacional e fugiu em tal pânico que foi até o local, embora não tivesse nada marcado. Lá, encontrou um membro do Congresso que conhecia e contou o que havia acabado de acontecer. O parlamentar, que não quis ter o nome publicado, confirmou o encontro ao New York Times.

O irmão afirmou que Alexandra não quis entrar em detalhes e a família não pediu mais informações. O pai morreu logo depois e ela entrou em depressão. O namorado, que vivia na França, disse que ela não queria ser tocada, nem mesmo por ele.

Para Alexandra, foi inspirador ver as mulheres que denunciaram o produtor cinematográfico Harvey Weinstein e o comediante Bill Cosby, acusados de abuso sexual. Mas o ponto decisivo foi ver as jovens ginastas denunciarem o médico do time olímpico dos Estados Unidos, Larry Nassar. A partir daí, ela resolveu se posicionar sobre o seu caso.

“Todas as outras mulheres que denunciaram me ajudaram”, disse Alexandra, que trabalha em um hospital na capital do país, San José. “Então eu pensei que talvez, talvez eu pudesse ajudar outras pessoas também.” / NEW YORK TIMES

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