Reprodução/Prêmio Nobel
Reprodução/Prêmio Nobel

'Nobel da Paz foi para o jornalismo de qualidade', afirma diretor do Centro Knight de Jornalismo

Professor Rosental Calmon Alves afirma que premiação à dupla de jornalistas é um reconhecimento ao jornalismo de qualidade e à própria democracia, ambos alvos de ataques nos últimos anos

Entrevista com

Rosental Calmon Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2021 | 05h00

Ao anunciar os jornalistas Maria Ressa e Dmitri Muratov como vencedores do Nobel da Paz de 2021, o comitê da premiação destacou a luta da filipina e do russo pela liberdade de expressão, reconhecendo o princípio como "uma condição prévia para a democracia e para uma paz duradoura". Na análise do professor Rosental Calmon Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas, em Austin, a premiação à dupla é um reconhecimento ao jornalismo de qualidade e à própria democracia, ambos alvos de ataques nos últimos anos.

"O prêmio reflete um momento da nossa História em que o jornalismo de qualidade, a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão estão sob forte ataque, e no qual é muito importante tanto reconhecer o valor e a valentia dos jornalistas que estão resistindo, como reconhecer essa realidade em que existe uma tentativa antidemocrática de setores que querem substituir a democracia liberal pelo que muitos estudiosos estão chamando de democracia iliberal", afirmou Alves.

Em entrevista ao Estadão, Alves afirmou que o jornalismo de qualidade está tanto na imprensa tradicional quanto nas plataformas digitais, sendo a busca pela verdade, o uso de metodologias e processos e o trabalho pautado na disciplina e na verificação os elementos básicos que o diferenciam das campanhas de desinformação pelo mundo - que se aproveitam da nova realidade digital e de interesses de grupos políticos com planos autoritários.

Leia a entrevista na íntegra:

Durante a premiação de Maria Ressa e Dmitri Muratov, o comitê do Nobel fez questão de destacar que a honraria se estendia a todos os profissionais que lutam pelas liberdades de expressão e informação. Como o jornalismo, digamos assim, deve entender e receber essa premiação do Nobel?

Este foi claramente um prêmio Nobel da Paz para o jornalismo de qualidade. O comitê do Prêmio Nobel não podia ser mais explícito nas explicações sobre o motivo da premiação da Maria Ressa e do Dmitri Muratov. Ficou muito claro no anúncio e nas posteriores declarações que essas duas pessoas representavam o jornalismo de qualidade, em um momento em que esse jornalismo e a liberdade de expressão vem sofrendo tantos ataques, não só nas Filipinas e na Rússia, quanto em outros países ao redor do mundo.

A escolha foi por premiar dois jornalistas profissionais. A categoria deve receber isso como um sinal de que estamos indo na direção certa, entregando o que é esperado, ou com preocupação pelo fato do comitê precisar valorizar princípios que estão na base da nossa profissão e da democracia?

As duas coisas. Eu acho que o prêmio é para os dois jornalistas como representantes de uma vasta comunidade global de jornalistas que, como os premiados, resistem ao autoritarismo, à censura, à tentativa de criação e consolidação de ditaduras e regimes autoritários ao redor do mundo. 

O prêmio reflete um momento da nossa História em que o jornalismo de qualidade, a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão estão sob forte ataque, e no qual é muito importante tanto reconhecer o valor e a valentia dos jornalistas que estão resistindo, como reconhecer essa realidade em que existe uma tentativa antidemocrática de setores que querem substituir a democracia liberal pelo que muitos estudiosos estão chamando de democracia iliberal.

Tanto na Rússia quanto nas Filipinas, governos têm caminhado para caminhos de autoritarismo e a imprensa foi um alvo prioritário nos dois processos. Que relação tem se observado entre o aumento do autoritarismo e a erosão democrática e os ataques ao jornalismo profissional?

Existe uma ligação direta. Geralmente a escalada para uma ditadura ou para um regime autoritário de fachada democrática - essas democracias iliberais - começa esse processo através de certos alvos estratégicos, e um deles é colocar o jornalismo e os jornalistas como alvo. A gente vê isso em muitos países, inclusive no nosso Hemisfério, no Brasil e nos Estados Unidos. Nos EUA, tivemos um presidente [Donald Trump] que surpreendentemente dizia que os jornalistas eram inimigos do povo, que incitava seus fanáticos durante comícios, e isso acabou em uma escalada que resultou no 6 de janeiro - uma tentativa de golpe que parecia impossível na mais antiga democracia liberal do mundo.

Então há total ligação entre tentar atacar o jornalismo - como os dois jornalistas premiados são atacados pelos governos Putin e Duterte - e criar esse contexto que leva ao autoritarismo ou à consolidação do autoritarismo.

Como o senhor já mencionou, o fenômeno do ataque à imprensa ocorre em diversos países que passaram ou passam por crises democráticas, e uma constante entre eles é o uso de campanhas de desinformação, que foram viabilizadas pelas redes sociais. Qual a gravidade do fenômeno da desinformação hoje e quais os efeitos nocivos que ele provoca no cotidiano da política e da sociedade?

A desinformação virou outro elemento no arsenal da construção da democracia iliberal ou da ditadura. É uma outra face da moeda. Ao mesmo tempo em que se ataca o jornalismo profissional, de qualidade, você cria um falso jornalismo, escudado em princípios da liberdade de expressão ou mesmo da liberdade de imprensa, que tem no fundo o objetivo de construir a ditadura onde essa mesma liberdade de expressão e essa liberdade de imprensa acabarão sendo destruídas. Por um lado se demoniza a imprensa, e, por outro lado, aproveita-se das tecnologias digitais, das redes sociais, para espalhar mentiras e falsidades, muitas delas disfarçadas como jornalismo.

O presidente de El Salvador, por exemplo, disse recentemente que não precisa mais do jornalismo, porque pode falar diretamente com a população. Os candidatos a ditador estão se aproveitando dessa premissa: "Não se importe com o jornalismo, porque nós não precisamos dos intermediários, nós temos agora os canais para falar diretamente com vocês". E a mensagem do prêmio Nobel da Paz deste ano é a valorização deste intermediário. A valorização de princípios éticos e deontológicos é fundamental para a democracia e para a paz.

Há um discurso de que as mídias sociais democratizaram a liberdade de expressão, por permitirem que qualquer um se torne um criador de conteúdo - enquanto antes, haveria um conflito entre liberdade de expressão e a figura do mediador, que seria a imprensa. O senhor concorda com isso, e não haveria também um segundo conflito, entre liberdade de expressão e liberdade de informação, relacionado a qualidade do conteúdo entregue?

É óbvio que houve uma democratização da comunicação através das tecnologias digitais. Os mais otimistas da minha geração, que vem observando e estudando isso a muito tempo, viam essa democratização como algo muito positivo - e é, mas também tem seu lado negativo. O que houve foi a criação de uma grande cacofonia quando passamos da "Era dos Meios de Massa" para uma "Era das Massas de Meio", ou seja, que qualquer pessoa tem habilidades que antes eram monopólio dos meios de comunicação.

Com isso, veio essa grande confusão. Nós somos a geração da transição de duas eras - a era industrial e a era digital - e nesse processo nós estamos sentindo "às dores do parto". As revoluções, como é a digital, passam por períodos caóticos como esse. Estamos criando um ecossistema midiático novo.

Nesse contexto, é muito importante que o jornalismo seja mais proativo em explicar o seu papel, que antes não precisava explicar, porque só ele tinha esse poder de comunicação. Faz-se necessária uma alfabetização jornalística. Nós precisamos explicar que nem tudo o que parece jornalismo é jornalismo, e que mesmo em uma democracia comunicacional, é muito importante o papel do jornalista, que busca a verdade, que tem metodologias e processos, cujo trabalho se pauta na disciplina da verificação, que é um dos elementos básicos do jornalismo - o que não pode ser confundido com essa grande conversa que as redes sociais e os aplicativos de mensagens permitem.

Nós temos, como jornalistas, explicar porque fazemos o nosso trabalho e porque o nosso trabalho é importante, uma vez que muita gente não sabe, e por não saber, acabam se tornando inocentes (ou idiotas) úteis que são massa de manobra para inimigos da democracia, candidatos a ditador e etc.

Durante a pandemia isso ficou muito claro, porque a desinformação mata, e o jornalismo brasileiro, por exemplo, deu muitos exemplos que da mesma maneira que a desinformação mata, o jornalismo pode salvar vidas, que é o que tem acontecido na cobertura da pandemia no Brasil.

Então a imprensa profissional continua sendo fundamental para a defesa das liberdades e para a estabilidade democrática?

Exato. Eu diria que o jornalismo profissional e as novas plataformas e novos gêneros de jornalismo que estamos vendo nascer. Os dois jornalistas premiados, são de meios que apareceram em um contexto novo, fazendo um jornalismo inovador, mas de qualidade.

Isso dialoga com declarações feitas pela jornalista filipina Maria Ressa após a premiação, em defesa da "verdade dos fatos". Ela criticou a relação entre o crescimento das plataformas de mídias sociais, que, nas palavras dela, assumiram o papel de guardiãs das informações. Nesse "novo ecossistema", qual o peso e o papel do jornalismo para garantir a liberdade de informação, que é essa possibilidade do público acessar conteúdos verdadeiros?

Maria Ressa foi uma das primeiras jornalistas no âmbito internacional para o perigo que estava sendo criado, especialmente pelo Facebook, pela falta de controle na disseminação de notícias falsas, que criavam um ambiente político e social tóxico em muitas partes do mundo, como no país dela. Existe essa crise atual, que não se pode negar. Mas também não se pode botar toda culpa nas plataformas. Esse não é um problema de tecnologia, é um problema político grande, onde os meios de comunicação também são responsáveis, também têm que assumir sua cota de responsabilidade nisso - da mesma forma que as plataformas.

Nós temos que conversar, debater, dialogar, criar novos tipos de regulamentação e etc, para poder criar um ambiente de redes sociais, por exemplo, menos tóxico. Neste ponto é que acho muito importante a educação jornalística da população em geral: as pessoas precisam ter um pouco de "desconfiômetro" de não acreditar em qualquer coisa, por mais que elas queiram que seja verdade, e não espalhar, não ser massa de manobra dos gabinetes do ódio da vida.

A jornalista Maria Ressa também disse que a sociedade precisa se unir como se uniu depois da Segunda Guerra para combater a desinformação, que é como uma bomba atômica. Como o senhor observa a afirmação e a ideia de união contra a desinformação?

Maria Ressa toca em uma comparação que é muito apropriada. O mundo se levantou contra o Eixo, contra o nazi-fascismo - que inclusive emergiu também com o aproveitamento de duas tecnologias, principalmente na Europa, que foram o rádio e o cinema - criando uma realidade alternativa, mentindo e criando desinformação através daquelas tecnologias, e que, de repente, precisou do mundo inteiro, de uma Guerra Mundial, de muito sacrifício para lutar contra.

A ideia de que nós estamos vendo no mundo um novo tipo de oposição à democracia liberal requer um novo esforço. Não uma guerra, mas pelo menos um despertar de que é necessário um diálogo, que é preciso união, para se contrapor ao atual levante antidemocrático.

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