Jes Aznar/NYT
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Nobel mostra como imprensa livre é fundamental para desenvolvimento e democracia; leia análise

Governos não são, e nem devem ser, os únicos provedores de informações a respeito da sua performance e das suas escolhas de políticas públicas

Laura Karpuska, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 20h55

Os jornalistas Maria Ressa e Dmitri Muratov ganharam hoje o prêmio Nobel da Paz. A contribuição deles foi na luta pela liberdade de expressão e de imprensa nas Filipinas e na Rússia, onde trabalham. A liberdade de expressão é fundamental para o desenvolvimento. A liberdade de imprensa, que caminha de mão dada com a liberdade de expressão, é fundamental para o bom funcionamento da democracia. 

O atual ambiente político – e a crise sanitária que vivemos – evidenciou a importância da qualidade da informação que recebemos para o nosso bem-estar coletivo. No início da pandemia, foi um consórcio coletivo dos principais veículos da imprensa que verificou o número de óbitos relacionados à covid-19 quando o Ministério da Saúde interrompeu temporariamente sua divulgação. A imprensa foi fundamental em esclarecer dúvidas a respeito do que as autoridades científicas recomendavam a cada momento da pandemia. A disseminação de inverdades e incitação à descrença na imprensa estão entre minhas maiores preocupações na conjuntura econômica e política de hoje. Ver o Nobel da Paz entregue a dois jornalistas que, corajosamente, continuam exercendo seus trabalhos em ambientes hostis para a liberdade, trouxe, confesso, uma certa esperança.

Na minha segunda coluna no Estadão publicada em 26 de março deste ano, Liberdade, comentei sobre a importância da liberdade de expressão para o desenvolvimento. Sem liberdade para dialogar e pensar, não criamos. Sem criação, não tem tecnologia. Sem tecnologia, o caminho no desenvolvimento é muito mais árduo. Deixo essa coluna como referência para os interessados no assunto. Nesta coluna, focarei na importância da liberdade de imprensa para a democracia. 

Os governos não são, e nem devem ser, os únicos provedores de informações a respeito da sua performance e das suas escolhas de políticas públicas. Uma imprensa livre e diversa é fundamental para que o monitoramento dos governos seja o melhor possível. Cidadãos que não acompanham uma imprensa livre estão mais sujeitos a não lembrarem quem são seus representantes. Governantes que não possuem cobertura na mídia têm uma performance pior na sua atuação como políticos. Não é à toa que liberdade de imprensa está positivamente correlacionada com liberdade política e, liberdade política, com bem-estar social. 

Em tempos de redes sociais, fake news e com os indivíduos escolhendo cada vez mais reverberar ideias apenas entre pessoas que conformam com elas, a mídia tradicional ganha um peso ainda maior. É o trabalho jornalístico independente que nos ajuda a monitorar o governo, que nos ajuda a entender questões complexas que seriam inacessíveis senão fossem digeridas e explicadas para o grande público por excelentes jornalistas. 

É na mídia tradicional, também, que é possível ler textos de opinião de pessoas das mais diversas áreas de atuação – eu, por exemplo, sou economista e minha pesquisa foca em economia política. Colunistas apresentam visões isentas das de editoriais de jornais. Trazemos, ou tentamos trazer, portanto, uma perspectiva diferente daquela que é comum ao meio jornalístico. Jornalistas, repórteres, editorialistas, colunistas e diversidade no mercado de mídia complementam-se para que um debate de qualidade aconteça dentro de um país. 

O esforço da mídia em monitorar o comportamento dos políticos não é válido apenas para punirmos aqueles que se comportam mal. Idealmente, os políticos antecipam o fato de que estão sendo monitorados e se comportam de forma melhor. Temos evidências desse feito anterior tanto em relação à cobertura midiática como de outros mecanismos de monitoramento de corrupção. Mecanismos de monitoramento, mídia livre e concorrência no mercado de mídia colaboram para um debate de qualidade e informações disponíveis. Com isso, é mais difícil termos governos saindo da linha.

Para que a mídia seja efetiva em seu trabalho de elevar o nível do debate público e de monitoramento dos governos, é fundamental que (i) os cidadãos leiam, e que (ii) não exista uma contaminação ideológica que nos cegue e nos impeça de querer dialogar com o diferente. Devemos demandar informação de qualidade e opiniões que nos façam refletir sobre nosso ambiente – mesmo quando estas não estão de acordo com nossas crenças anteriores. 

Na coluna de 8 de outubro, Polarização, escrevi sobre como a polarização mina nossa capacidade de diálogo e nos deixa mais pobres intelectualmente e como sociedade. A mídia pode colaborar para evitarmos esse caminho de vulnerabilidade diversificando o debate e buscando a excelência no trabalho investigativo de suas reportagens. 

Parabéns à Maria Ressa e Dmitri Muratov pelo trabalho corajoso de buscar informação de qualidade para os povos dos seus países. Parabéns aos jornalistas brasileiros que vêm tentando fazer o mesmo.

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