Norte-americanos são acusados de sequestro no Haiti

Dez norte-americanos detidos no Haiti após tentarem sair do país com 33 crianças sem documentos foram acusados hoje de sequestro de menores, disse o advogado haitiano Edwin Coq, que defende os detidos. Segundo ele, os norte-americanos também foram acusados de associação para delinquir.

AE-AP, Agencia Estado

04 de fevereiro de 2010 | 19h47

Os norte-americanos, em sua maioria missionários de uma igreja batista de Idaho, foram levados a um tribunal fechado num cárcere em Porto Príncipe. Uma das norte-americanas, Laura Silsby, agitou a mão e sorriu para os jornalistas, mas se negou a responder perguntas.

Nos últimos dias, Silsby, que lidera o grupo, afirmou que a igreja tentava levar órfãos abandonados para um orfanato em construção na República Dominicana. Ela reconheceu que o grupo não tinha os documentos das crianças, mas alegou que a intenção era ajudá-las. Funcionários haitianos disseram que muitas das crianças têm pais vivos no Haiti.

Coq disse que sob o sistema judiciário do Haiti não haverá um julgamento aberto ao público, mas que um juiz irá analisar as provas. O veredicto poderá demorar três meses, afirmou. Coq afirmou ter escutado de um funcionário haitiano que os norte-americanos foram acusados porque tinham as crianças sob seu poder. Nenhuma fonte do governo haitiano deu declarações.

Cada condenação por sequestro pode significar uma sentença de prisão de cinco a 15 anos no Haiti. Já uma condenação por associação para delinquir pode significar uma sentença de três a nove anos de prisão. "Eu farei tudo o que puder para libertar os nove acusados", disse Coq. Isso ainda deixaria que Laura Silsby enfrentasse sozinha as acusações.

O porta-voz do Departamento de Estado do governo norte-americano, P.J. Crowley, afirmou que Washington monitora a questão e que o governo dos EUA está aberto a "discutir outras saídas legais" para os acusados - uma aparente referência à sugestão feita pelo primeiro-ministro do Haiti, Jean-Max Bellerive, no começo desta semana, de que o grupo possa ser julgado nos EUA. "Mas agora a questão está com o sistema judiciário do Haiti. Nós respeitamos isso e continuaremos a conversar com o governo haitiano sobre os procedimentos", afirmou Crowley.

Protestos populares

O número de mortos pelo terremoto do dia 12 de janeiro no Haiti passou de 200 mil, afirmou ontem o primeiro-ministro haitiano. Há protestos no país, por causa da demora na chegada da ajuda para as vítimas. Mais de três semanas após o terremoto, de magnitude 7 na escala Richter, Bellerive disse que o pequeno país caribenho foi atingido por "um desastre em escala planetária". "Há mais de 200 mil pessoas que foram claramente identificadas como mortas", afirmou ele em entrevista. Bellerive disse que mais de 300 mil feridos receberam tratamento. Além disso, 250 mil casas foram destruídas e 30 mil negócios, perdidos.

Pelo menos 4 mil amputações foram realizadas, por causa dos sérios ferimentos causados pelos desabamentos. Bellerive disse que propôs a formação de um "governo de emergência" no Haiti para lidar com a crise. Ele insistiu, apesar disso, que as autoridades estão "no controle da situação", apesar das muitas baixas entre funcionários públicos pelo terremoto.

Apesar de uma grande operação de ajuda estar em andamento, há problemas com a coordenação. Também a grande extensão dos estragos atrapalha a distribuição de comida e água, causando tensão entre os 1 milhão de desabrigados. "O governo haitiano não fez nada por nós, não nos deu trabalho algum. Não nos deu a comida de que precisamos", disse Sandrac Baptiste, enquanto deixava sua barraca improvisada para participar ontem de um protesto.

Aproximadamente 300 pessoas se reuniram perto do escritório da prefeitura de Porto Príncipe para reclamar da situação. Outros 200 manifestantes se concentraram perto da embaixada dos EUA, pedindo comida e ajuda. Washington enviou aproximadamente 20 mil soldados para a operação de auxílio. O vice-diretor da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (USAID), Anthony Chan, disse entender o descontentamento da população após o desastre. "Nós estamos fazendo o melhor que se pode esperar", afirmou.

Agências humanitárias alertaram, porém, para o fato de que as doações para o Haiti foram muito menores em comparação com o ocorrido após o tsunami de 2004, na Ásia, que matou aproximadamente 220 mil pessoas. O chefe da Cruz Vermelha na França, Jean-Francois Mattei, disse que a missão da entidade no país europeu recebeu 11,5 milhões de euros (US$ 16 milhões) para ajudar o Haiti. Após o tsunami, o valor arrecadado foi dez vezes maior. A Cruz Vermelha Internacional levantou US$ 3 bilhões para trabalhar no tsunami. No caso do Haiti, o valor caiu para US$ 555 milhões. Com informações da Dow Jones.

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