Stoyan Nenov/Reuters
Stoyan Nenov/Reuters

Noruegueses apostam na tolerância para domar ódio exposto em atentados

Dois dias após o massacre realizado por Anders Behring Breivik nos atentados terroristas de Oslo e na Ilha de Utoya, Ali Mohammed, negro, somali e muçulmano de 27 anos, foi agredido verbalmente em uma estação de ônibus do bairro onde vive, Groenland, no leste da capital. Além de roubá-lo e espancá-lo, os agressores - todos de pele branca e olhos claros - o culparam pelas 77 vítimas dos massacres. "Por causa de vocês Breivik matou essas pessoas."

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2011 | 00h00

Ali é um exemplo dos desafios que esperam a Noruega após a revelação de que as bases do país estão corroídas pela ultradireita, pela xenofobia e pelo fundamentalismo cristão. Modelo de desenvolvimento humano das Nações Unidas e um dos países mais ricos do mundo, a Noruega quer combater seus demônios.

Durante uma década, o mundo assistiu inerte ao crescimento da extrema direita sem considerá-la um risco. Com os atentados, o país está descobrindo que os militantes do Fremskrittspartiet, o Partido do Progresso, dono de 23% dos votos e sigla à qual Breivik pertencera, não vive apenas de retórica islamofóbica

Ao longo da última semana, o Estado ouviu sobreviventes dos massacres de Oslo e de Utoya, assim como acadêmicos e cidadãos sobre a Noruega pós-Breivik. Estimulados pelos crimes do fundamentalista cristão, todos agora se preocupam com a força - e a violência devastadora - do pensamento de ultradireita.

Um deles é Adrian Pracon, de 21 anos. O jovem sobreviveu ao massacre na ilha após levar um tiro nas costas, outro em um dos ombros e de se fingir de morto entre os cadáveres de seus amigos. Desde então, tornou-se um dos símbolos de uma sociedade decidida a lutar contra a intolerância religiosa e racial.

Atingida em seu valor mais profundo - a paz - diz Adrian, a Noruega deve responder com mais abertura. "Não imaginávamos que éramos um país vulnerável ao terrorismo", disse o jovem à reportagem. "Temos de buscar ainda mais a abertura da sociedade e aprofundar nossa democracia, como sempre buscamos."

Nove dias após o episódio mais violento já registrado em tempos de paz - em três horas, Breivik cometeu mais do que o dobro do número de homicídios em um ano no país -, noruegueses tentam compreender o que os atentados revelam. A constatação mais urgente, dizem acadêmicos, é a força exercida pelo pensamento reacionário, xenofóbico e islamofóbico defendido pelo Partido do Progresso.

Resistência. Para Marcus Buck, cientista político da Universidade de Tromso, entre 15% e 20% dos noruegueses têm, como Breivik, problemas com relação à imigração, ao multiculturalismo e à integração. "Desse segmento saem os votos de partidos de extrema direita populista, que defendem o corte puro e simples da imigração", diz ele.

"Não há dúvida de que há uma crescente resistência quanto à imigração na Noruega nos últimos anos", explica Kristian Berg Harpviken, diretor do Peace Research Institute (Prio), de Oslo. Para o pesquisador, os noruegueses não esperavam que o terrorismo pudesse atingir o coração de Oslo, menos ainda que um ataque sangrento pudesse ser cometido por um norueguês.

"Agora fica mais claro: as ideias políticas de Breivik, embora extremadas, são a expressão de um pensamento mais amplo crescente na sociedade norueguesa", diz Harpviken.

Para lutar contra a intolerância e resistir à tentação da paranoia e da caça às bruxas, os noruegueses tentam reafirmar seus valores. A preocupação foi colocada em público pela primeira vez pelo premiê Jens Stoltenberg, quando ele garantiu que o país "não abandonará seus valores de abertura", um discurso aprovado por 90% da população.

"Nós defendemos a liberdade de expressão, a liberdade de votar no partido que quiser", disse Bard Jakobsen, de 59 anos.

Mais abertura também é a expectativa de quem, como Ali, está do outro lado da tensão social. Assíduo frequentador da mesquita de Akebergveien, a maior das 18 da cidade - por ironia, situada a 50 metros do presídio de Breivik -, Asad Mahmoud, paquistanês de 57 anos, só quer menos preconceito contra os 550 mil estrangeiros do país - ou 11% da população total. "Vivo aqui há 40 anos e garanto que é um dos melhores lugares do mundo para se viver", sustenta. "Só precisamos de um pouco mais de respeito."

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