REUTERS/Hazir Reka
REUTERS/Hazir Reka

Nos 20 anos da Guerra do Kosovo, tensão étnica ameaça paz nos Balcãs

As tensões crescentes entre sérvios e kosovares, e a dificuldade em firmar um acordo, fazem reviver as memórias do pior conflito na Europa desde o fim da 2ª Guerra Mundial

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 06h00

Mitrovica é o símbolo da divisão étnica nos Balcãs e uma lembrança perene da Guerra no Kosovo , que completa 20 anos neste ano. A cidade é cortada pelo Rio Ibar. Na margem sul do Rio Ibar, os albaneses usam euros. Bandeiras americanas se espalham pelas ruas e há restaurantes de fast-food, uma mesquita e organizações de ajuda humanitária. Ao norte do Ibar, atravessando a Ponte de Austerlitz, bloqueada em ambas as extremidades por veículos blindados, tudo está escrito em cirílico. Os sérvios usam dinares. A cidade fica desordenada e bandeiras russas pendem das janelas. Cartazes do presidente russo, Vladimir Putin, são estampados em prédios.

“A tensão parece que vai explodir a qualquer momento: os sérvios rejeitam aceitar a independência do Kosovo e os albaneses dizem não haver outra solução para o estatuto final da província que, desde 1999, é administrada pelas Nações Unidas e vigiada por 16 mil militares da Otan”, escreveu em um artigo na revista Foreign Policy, o jornalista Alexander Clapp. “É difícil não ver a cidade de Mitrovica como a frente mais reveladora do que alguns chamam de “nova Guerra Fria” entre a Rússia e o Ocidente. Como aquela, a nova guerra fria nasceu da implosão do comunismo e de sua incapacidade de se ligar a qualquer nova ordem política ou econômica.”

“Não vou ao outro lado [da ponte] nem a Pristina [capital kosovar] porque tenho medo. Na zona onde vivo há albaneses que apedrejam nossos carros quando passamos", contou à revista Foreign Policy Zorica, ex-estudante de geografia com 22 anos, enquanto observa o mercado onde sérvios de todo o Kosovo vêm uma vez por semana vender produtos. “Nós vamos ficar aqui, não vamos sair, talvez aconteça outra guerra.”

As tensões crescentes fazem reviver as memórias da pior guerra na Europa desde o fim da 2.ª Guerra Mundial. O conflito no Kosovo deixou 13 mil mortos e milhares de feridos. A Guerra de Kosovo começou em março de 1999 e ainda provoca enorme comoção na população de maioria albanesa do território nos Balcãs. 

No início do século 20, países da região lutaram pelo controle dos territórios remanescentes do Império Otomano. O reino independente da Sérvia entrou em uma série de guerras para formar a "Grande Sérvia", um Estado envolvendo toda a região balcânica. Como resultado das guerras balcânicas (1912-1913), a Sérvia incorporou a Macedônia e o Kosovo, considerado berço original da nacionalidade sérvia. 

Na 2.ª Guerra, boa parte do território kosovar passou a fazer parte da Albânia e, ao fim do conflito, foi incorporado à Iugoslávia, de maioria sérvia. Kosovo teve sua autonomia reconhecida constitucionalmente em 1974 e passou a ter um governo próprio, mas essa autonomia foi revogada e o governo, dissolvido, em 1989 e 1990.

No início da década seguinte, a república socialista da Iugoslávia foi dissolvida com a independência de Bósnia, Croácia, Macedônia e Eslovênia, com diferentes graus de violência.

Com 90% da população de origem albanesa, a região autônoma de Kosovo fazia parte da Iugoslávia. Mas os albaneses eram perseguidos pela minoria sérvia. A tensão étnica levou a um movimento separatista, que em 1996 fundou o Exército da Libertação do Kosovo para se opor ao governo central da Iugoslávia, liderado pelo nacionalista Slobodan Milosevic.

O conflits chegou ao ápice em 1998 e, após denúncias de que Milosevic estava promovendo massacre de albaneses, e depois do fracasso da diplomacia, a Otan decidiu intervir com ataques áereos contra alvos iugoslavos em Belgrado e Pristina. Foram 79 dias de bombardeios, ao fim dos quais os sérvios saíram do Kosovo, deixando a região sob supervisão das Nações Unidas. 

A Otan optou pela ação militar de 1999 com a justificativa de conter o banho de sangue promovido por Milosevic contra a população albanesa no Kosovo. Mas a ação foi criticada por ter sido realizada sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Os bombardeios não deram os resultados esperados, e Milosevic respondeu à intervenção com um banho de sangue.

Militares e grupos paramilitares sérvios invadiram casas no Kosovo e mataram civis às centenas, deixando destruição em cidades inteiras. Quase um milhão de pessoas abandonou o Kosovo. A crise humanitária foi a pior registrada na Europa desde a 2ª Guerra. O conflito se estenderia até 10 de junho daquele ano. 

A ONU instituiu uma força de paz internacional na província e os bombardeios ocidentais cessaram, apesar da permanência de Milosevic no poder. A administração do Kosovo coube a um mandato da Otan. O país declarou independência da Sérvia em 2008, quase uma década depois que os ataques aéreos da Otan acabaram com o controle de Belgrado sobre o território.

Dos 193 países que formam a ONU, 82 ainda não veem Kosovo como uma república independente. Entre eles, o Brasil. Mas a constituição Sérvia ainda vê o Kosovo como território sérvio, e vem impedindo o Kosovo de ingressar em instituições internacionais como a Interpol e a Unesco. 

Mesmo após sua queda e prisão, Milosevic é visto pelos sérvios como uma grande liderança patriótica. Defensores do ex-ditador, morto em 2006 após um infarto enquanto estava preso em Haia, na Holanda,  afirmam que a limpeza étnica sofrida pelos kosovares foi uma farsa construída pela Otan para justificar os ataques e o estabelecimento de um braço da aliança militar nos Bálcãs, onde a influência de Moscou ainda é forte. 

Oficialmente, os governos da Sérvia e do Kosovo mantêm diálogos diplomáticos. No ano passado, o governo de Pristina rejeitou a proposta sérvia de ceder parte do seu território em troca do reconhecimento de sua independência. Os dois países também travam disputas econômicas. 

Em dezembro de 2018, o Parlamento kosovar aprovou a criação de um exército nacional. A decisão, considerada "histórica" pelos EUA e criticada pela Otan, foi recebida como um gesto de hostilidade pela Sérvia, e aumentou a crise entre os países. O resultado foi mais tensão nas reuniões para um acordo entre Sérvia e Kosovo nos últimos meses. O  presidente do Kosovo,  Hashim Thaci, disse na semana passada “ter esperanças de chegar a um acordo com a Sérvia” ainda neste ano. Já o presidente da Sérvia, Aleksandar Vucic, falando no mesmo evento na Eslováquia, disse que ele era mais pessimista, mas  ambos os lados devem continuar buscando um compromisso.

No mês passado, as tensões na região aumentaram após as operações da polícia kosovar em uma região do país que é povoada principalmente por sérvios e ainda promete lealdade a Belgrado. Na semana passada, a primeira-ministra sérvia, Ana Brnabic, foi declarada "persona non grata" por Kosovo, após dizer que os líderes do país eram “gente que literalmente sai da selva”, "terroristas sem condenação" e "o pior tipo de populista".

O presidente kosovar, Hashim Thaçi, e o primeiro-ministro Ramush Haradinaj são antigos líderes da guerrilha kosovar-albanesa que combateram as tropas sérvias durante a guerra. Belgrado os acusa de crimes de guerra./ AFP, REUTERS, AP e NYT

 

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