Anthony Wallace/ AFP
Anthony Wallace/ AFP

Nos 31 anos do massacre da Praça da Paz Celestial, Hong Kong torna crime protestar com hino da China

Governo chinês e políticos de Hong Kong pró-China tentam dificultar vigílias e manifestações que lembram vítimas do massacre de 1989

Austin Ramzy, Tiffany May e Javier C. Hernández, The New York Times

04 de junho de 2020 | 08h24

HONG KONG - Ativistas disseram que se reuniriam na quinta-feira para uma vigília anual para lembrar as vítimas da repressão militar chinesa aos manifestantes da Praça da Paz Celestial - também conhecida como praça Tiananmen - em 1989, apesar da primeira proibição policial do evento.

Hong Kong, que tem liberdades civis muito maiores que a China continental, sempre foi o local mais importante para a comemoração pública do massacre de 4 de junho - e o único em larga escala em solo chinês. Mas os defensores da democracia temem que o espaço para o discurso crítico a Pequim diminua ainda mais, à medida que o Partido Comunista, no poder da China, aperta seu controle sobre a cidade semiautônoma após um ano de protestos pró-democracia.

Pequim declarou na semana passada que imporia uma nova lei de segurança nacional a Hong Kong. A lei, que visaria protestos antigovernamentais e outras divergências, põe em dúvida o futuro das organizações e eventos que desafiam o governo do partido. Na quinta-feira, os legisladores de Hong Kong aprovaram uma lei que criminaliza o desrespeito ao hino nacional da China e o torna punível com até três anos de prisão.

A vigília de Tiananmen, frequentemente um mar de rostos à luz de velas no cenário dos densos edifícios da cidade, ofereceu a rara oportunidade no território chinês de lembrar as centenas e possivelmente milhares de pessoas que foram mortas por tropas em Pequim e outras cidades no verão de 1989. Na China continental, qualquer discussão sobre o aniversário é rapidamente eliminada pelos censores, enquanto as autoridades perseguem parentes dos mortos e bloqueiam qualquer memorial formal.

No início desta semana, a polícia da cidade proibiu a vigília, que geralmente é realizada no Victoria Park, na ilha de Hong Kong, sob a justificativa de que haveria risco de propagação do novo coronavírus. Reuniões públicas de mais de oito pessoas foram barradas na cidade, uma proibição que foi estendida para esta semana.

Os organizadores disseram acreditar que os motivos políticos estão por trás do movimento para bloquear a vigília. A polícia citou regulamentos de distanciamento social para limitar protestos pró-democracia nos últimos meses.

A proibição da vigília aumentou a preocupação de que as demandas de Pequim por segurança e estabilidade corroessem ainda mais as liberdades civis de Hong Kong. Nos últimos meses, a polícia adotou uma abordagem cada vez mais dura contra o movimento de protesto que começou no ano passado. Agora, os oficiais agem rapidamente para impedir os protestos, fazendo prisões e impedindo as pessoas de participar de assembleias não autorizadas.

Pequim também está redigindo as novas leis de segurança nacional, que terão como alvo subversão, secessão e terrorismo. Embora os detalhes ainda não sejam claros, muitos no campo pró-democracia temem que sejam usadas para punir discordâncias e críticas do Partido Comunista.

Também fez crescer o medo de ameaças às liberdades de opinião e expressão de Hong Kong, a legislação sobre o hino nacional.

Alguns fãs de esportes em Hong Kong nos últimos anos começaram a dar as costas e vaiar quando o hino chinês é tocado em eventos esportivos, comportamento que tal lei teria como alvo. A nova lei exige uma multa de até US$ 6.500 e três anos de prisão para quem for encontrado insultando o hino nacional chinês.

O parlamento de Hong Kong, que é dominado por partidos pró-governo, votou na quinta-feira a aprovação do projeto de lei em meio a protestos de parlamentares da oposição. Na semana passada, a polícia prendeu centenas de pessoas que estavam protestando contra a lei.

Os organizadores da vigília de Tiananmen pediram àqueles que querem marcar o aniversário da repressão para acender velas por conta própria ou em estandes montados na cidade e publicar as imagens online.

Além disso, sete igrejas católicas em Hong Kong planejavam realizar missas na quinta-feira com um momento de oração silenciosa e acender velas para os mortos em 1989. Os limites de distância social das igrejas são mais frouxos, permitindo que os fiéis ocupem até a metade da capacidade máxima para assistir a serviços.

Membros do grupo que realiza a vigília anual, a Aliança de Hong Kong em Apoio aos Movimentos Democráticos Patrióticos da China, disseram acreditar que era importante se reunir no Victoria Park, apesar do risco de multas ou prisão.

"Será a última vigília à luz de velas antes da lei de segurança nacional", disse Lee Cheuk-yan, presidente da aliança, ao explicar por que ele planejava ir ao parque. "O próximo ano será ainda mais perigoso. No próximo ano, eles podem usar a lei de segurança nacional contra o povo de Hong Kong."

Toda noite de 4 de junho, os campos de futebol de superfície dura do Victoria Park serviram não apenas como um local para comemorar os mortos, mas como uma sala de aula de história para jovens e um local para grupos pró-democracia locais. Também atuou como um indicador de que a cidade pode manter as liberdades políticas que se tornaram parte de sua identidade, garantidas por uma política conhecida como "um país, dois sistemas" em vigor desde que a cidade voltou ao controle chinês em 1997.

"É uma espécie de símbolo de que, sob o domínio do Partido Comunista, 'um país, dois sistemas' podem funcionar, se podemos ter essa condenação do massacre continuamente levada adiante após 97", disse Lee.

Nas vigílias, líderes religiosos locais e figuras políticas pró-democracia costumam falar junto com veteranos dos protestos de Tiananmen e com os pais daqueles que foram mortos.

Han Dongfang, um líder do protesto da Praça da Paz Celestial que passou quase dois anos na prisão após a repressão, participa regularmente das vigílias desde que foi expulso para Hong Kong em 1993. Ele disse que também iria ao Victoria Park com seus filhos, apesar do restrições policiais.

"Não me importo se outras pessoas não forem, se não for um evento oficial, demonstração ou protesto", disse Han, que dirige uma organização de direitos dos trabalhadores, o Boletim do Trabalho da China. "Para mim, é um lugar simbólico e um dia simbólico para comemorar isso para meus filhos. Eu quero que eles saibam."

Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pressionava pelo uso das forças armadas nos Estados Unidos para conter a agitação que se seguiu à morte de George Floyd, Han disse que os governos deveriam resistir a essa opção.

"Os militares nunca devem ser usados para responder a protestos, nem sob uma ditadura ou em uma democracia", disse ele.

A participação em vigílias passadas aumentou e diminuiu de ano para ano, geralmente alinhada com o sentimento público mais amplo em relação ao governo central da China. Ativistas mais jovens, que rejeitaram cada vez mais os laços com a China continental e afirmaram uma identidade separada e distinta, organizaram comemorações alternativas, dizendo que os apelos por uma China democrática foram desconectados das próprias lutas políticas de Hong Kong.

Skyler Wong, uma educadora ambiental de 24 anos, disse que participou da vigília sozinha aos 15 anos, depois que um professor mostrou vídeos da repressão nas aulas. A vigília foi o primeiro evento político a que ela compareceu e ela diz que provocou seu despertar político.

"Fiquei muito emocionada", disse ela. "Eu cresci pensando que os cidadãos de Hong Kong eram muito apáticos. Nunca pensei que houvesse tantos em Hong Kong que se posicionassem sobre sua consciência." Wong disse ainda que planeja participar de uma discussão ao ar livre menor e acender velas em sua comunidade para comemorar o evento.

Na região semiautônoma de Macau, o único outro lugar na China onde Tiananmen é comemorada publicamente, as autoridades revogaram a permissão no mês passado para uma exposição anual de fotos da repressão. Os defensores da democracia disseram que suspeitavam que a medida, descrita como parte de uma padronização do uso de espaços públicos, fosse um esforço para conter a dissidência.

Como Hong Kong, Macau opera como parte da China, mas com seu próprio sistema local. Na prática, é muito mais politicamente restrito que Hong Kong./ THE NEW YORK TIMES

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