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Presidente Xi Jinping em recepção no Grande Salão do Povo em Pequim  REUTERS/Thomas Peter

Nos 70 anos da Revolução Chinesa, país retoma o culto à personalidade

República Popular da China completa 70 anos com Xi Jinping concentrando cada vez mais poder

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 08h00
Atualizado 02 de outubro de 2019 | 06h22

A República Popular da China chega nesta terça-feira, 1º de outubro, aos 70 anos, superando em longevidade a União Soviética, que desmoronou aos 69 anos, e rivalizando com os Estados Unidos em busca do domínio global. 

Para comemorar o feito, o país realizou a maior parada militar de sua história, na Praça Tiananmen, com 15 mil soldados e marinheiros, 160 caças, bombardeiros e outras aeronaves e 580 tanques e outras armas - algumas nunca vistas em público, segundo, comandantes militares.

Após comandar a Longa Marcha, entre 1934 e 1935, quando o exército revolucionário comunista liderado por ele rompe um cerco militar imposto pelo regime do Kuomintang, partido nacionalista comandado por Chiang Kai Shek, Mao conduziu o PC à vitória sobre os nacionalistas.

Em 1º de outubro de 1949, Mao Tsé-Tung estava na Praça Tiananmen, instando um Estado semi-feudal, devastado pela guerra, a uma nova era com um discurso de fundação e um desfile simplório que reunia apenas 17 aviões.

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O desfile desta semana, em contraste, contará com o míssil nuclear intercontinental de maior alcance do mundo e um drone espião supersônico - os troféus de uma superpotência autoritária crescente e próspera, com uma classe média forte de 400 milhões de pessoas.

Só um desfile desta magnitude seria suficiente para enaltecer o crescente culto à personalidade do atual líder do Partido Comunista, o presidente Xi Jinping, considerado o maior líder chinês desde Mao Tsé-Tung.  

A ascensão do novo príncipe do PC chinês

Em sete anos no cargo, Xi consolidou com sucesso seu poder expurgando rivais, esmagando dissidentes e removendo os limites constitucionais de seu poder. Ele fez do partido o árbitro de todos os aspectos da vida chinesa e instou uma maior pureza ideológica a cingir a nação pelo que ele descreve repetidamente como uma grande e contínua luta.

Ele tem procurado acumular um poder tão grande quanto qualquer líder desde o presidente Mao, e até, para consternação de alguns críticos, presume-se colocar-se ao lado de Mao no panteão dos líderes comunistas da China.

“Xi começa a enfrentar o que o bloco soviético enfrentou na década de 1980: falta de crença nos valores professados ​​do partido diante de contradições óbvias e corrupção”, disse Timothy Cheek, professor de história chinesa na Universidade de Colúmbia.

Segundo ele, a China prosperou de maneiras que a União Soviética não conseguiu, principalmente porque conseguiu uma transição para um tipo de capitalismo de livre mercado que ofereceu a milhões de chineses uma maior prosperidade material.

“Agora ele e o Partido vão enfrentar o maior desafio que poderiam: o crescimento da China diminuiu para o ponto mais fraco em décadas, a guerra comercial afunda a economia e os consumidores se afligem”, diz Timothy Cheek. “A falta de democracia é o menor dos problemas, é a perspectiva de uma crise econômica que ameaça Xi.”

Aos 70 anos, o Partido Comunista da China se tornou o segundo maior partido da história a ficar tanto tempo no poder, atrás apenas do seu vizinho, a Coreia do Norte, que está um ano a mais no controle.

Economia preocupa líder chinês

Em janeiro, Xi convocou ministros e chefes provinciais para Pequim para avisar que "grandes riscos se avizinham” e que seu "governo de longo prazo" não é garantido. O discurso ocorreu no mesmo dia em que a China registrou seu menor crescimento econômico anual desde 1990.  

Em maio, no aniversário do centenário de uma revolta liderada por estudantes comunistas, Xi enfatizou a legitimidade e o papel central do partido na transformação da China em uma superpotência em ascensão.

Para Xi Jinping, o aniversário chegou em um momento oportuno: é a chance de aproveitar as realizações do partido em um momento de crescente tensão, especialmente em consequência da pressão econômica da guerra comercial com os Estados Unidos. 

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"A república é construída por cada tijolo e ladrilho como este", disse Xi na quarta-feira, depois de pegar um trem expresso a 40 quilômetros ao sul do centro de Pequim para inaugurar o novo aeroporto internacional, um dos megaprojetos que a China construiu como uma afirmação de sua grandeza política e econômica. 

Os principais riscos à China incluem a guerra comercial iniciada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, com medidas como sanções impostas à Huawei Technologies Co. - que a China vê como destinadas a impedir seu crescimento e progresso tecnológico. 

O vice-primeiro-ministro chinês Liu He, o representante comercial dos EUA Robert Lighthizer e o secretário do Tesouro Steven Mnuchin devem se reunir dias após as comemorações, já que as tensões afetam as duas economias. 

Ao mesmo tempo, os protestos de meses de Hong Kong contra a crescente influência da China abalaram a cidade e começaram a ameaçar seu importante status comercial. Eles também aumentaram o sentimento pró-independência em Taiwan. 

Um desfile que projeta a imagem

Naquela época, a guerra civil contra os nacionalistas ainda ocorria e o Partido Comunista tinha poucos recursos para governar um país tão grande e pobre e devastado pela guerra.

Em uma famosa anedota repetida por autoridades e meios de comunicação estatais na semana passada, algumas das 17 aeronaves que participaram do primeiro desfile voaram pela Praça da Paz Celestial duas vezes - para fazer a força aérea parecer maior do que realmente era.

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Um desfile militar era realizado a cada Dia Nacional de 1949 a 1959, mas a tradição desapareceu durante os anos mais sombrios de Mao, que incluíam a Grande Fome e a Revolução Cultural. Foi retomado em 1984, supervisionado por Deng Xiaoping, o líder que iniciou as reformas que abriram a economia da China.

"Desfiles e celebrações do Dia Nacional são cuidadosamente projetados para comunicar a auto-imagem que o regime deseja que o povo chinês e o mundo vejam", disse ao New York Times Susan  Shirk, especialista em China na Universidade da Califórnia, que estava na arquibancadas na Praça Tiananmen durante o 35º aniversário.

O partido então queria promover políticas capitalistas para uma geração criada sob as estruturas comunistas, de modo que o desfile exibia faixas com slogans como “Time Is Money” e prometendo confortos materiais. Um carro alegórico carregava um frango de 6 metros de altura, outro um refrigerador abastecido com cerveja gelada.

"Hoje", acrescentou Shirk, "a China se tornou mais um estado de segurança nacional".

Em 1989, o massacre de Tianamen

O 40º aniversário caiu apenas alguns meses após o massacre que derrubou o movimento democrático liderado por estudantes na Praça da Paz Celestial em 4 de junho de 1989. O desfile continuou, mas sem o equipamento militar, “aparentemente porque os moradores de Pequim haviam visto armas suficientes nos últimos meses”, escreveu o correspondente do New York Times na época, Nicholas Kristof.

Pesquisadores que vasculharam fotos de satélite de áreas de preparação perto de Pequim avistaram um drone hipersônico e um novo míssil balístico intercontinental móvel, o DF-41, capaz de lançar várias ogivas nucleares em qualquer cidade dos Estados Unidos.

O desfile mostrará um exército que, segundo analistas militares estrangeiros, é mais capaz, mais integrado e melhor equipado do que em qualquer ponto da história chinesa.

"Nos últimos 70 anos, o desenvolvimento e o crescimento das forças armadas chinesas estão aí para todos verem", disse o porta-voz do Ministério da Defesa, coronel Wu Qian, quando perguntado se a exibição de armas deveria enviar uma mensagem para possíveis adversários. "Não temos a intenção nem a necessidade de flexionar os músculos através de desfiles militares".

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China exibe arsenal de ponta nos 70 anos da Revolução Comunista

País que em 1949 tinha lanchas de madeira hoje fabrica porta-aviões mais rápido que os EUA

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 11h00

Em outubro de 1949, a força naval da China de Mao Tsé-tung tinha dois navios – na verdade, duas lanchas de madeira e, talvez, uma meia dúzia de pequenos e velhos transportadores a vapor para navegar nos rios. Em 2019, o país que há 70 anos saía pobre e sem recursos de um sangrento conflito civil, pode exibir um imenso, bem equipado, bem treinado e moderno conjunto de Forças Armadas. 

A inexistente Marinha do momento da criação da República Popular mantém no mar 1 porta-aviões – o Liaoning, de 55 mil toneladas –, ao menos 7 submarinos lançadores de mísseis atômicos de longo alcance, 12 submarinos (de propulsão nuclear) de ataque e 55 outros com motores diesel-elétricos. O inventário vai longe: 36 destróieres, 52 fragatas, 41 corvetas, 109 embarcações preparadas para disparar mísseis antinavio ou antiaéreos. 

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Guia para entender o regime comunista da China

Partido tem se mantido firme no poder há 70 anos; confira sua evolução ao longo do tempo

O orçamento da Defesa é estimado em US$ 250 bilhões e vem crescendo ano após ano de forma consistente desde 1995. O efetivo passa de 2,3 milhões de combatentes. Há um plano para reduzir a tropa total em 300 mil homens e mulheres ao longo de 36 meses. 

Há três porta-aviões chineses em várias fases de construção nos estaleiros locais. Um deles, o Type 003, será um gigante de 85 mil toneladas. O plano prevê frota de 350 navios novos até cerca de 2030. 

No desfile desta manhã, em Pequim, terá sido visto o foguete balístico intercontinental DF-41 que leva na ogiva 10 bombas para serem lançadas contra diferentes alvos depois de um voo de apenas 30 minutos entre a China e os EUA. É também a estreia de uma família de drones, um dos quais, o Espada Afiada, é dotado de recursos que permitem atingir objetivos na Ásia, Oriente Médio, África, partes da Europa e da América do Norte. O drone, cheio de sistemas para escapar dos radares e sensores de detecção, fica no ar por 50 horas.

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Como foi a 'Longa Marcha', o mito fundador da China comunista

Entre 1934 e 1935, milhares de comunistas marcharam por mais de cinco mil quilômetros para furar cerco do partido nacionalista; entenda

Um porta-aviões nuclear americano demora oito anos para ser comissionado pela Marinha dos EUA. Na China, esse tempo cai pela metade, fica em torno dos quatro anos, segundo um estudo do Centro de Estudos Estratégicos de Washington.

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Como foi a 'Longa Marcha', o mito fundador da China comunista

Entre 1934 e 1935, milhares de comunistas marcharam por mais de cinco mil quilômetros para furar cerco do partido nacionalista

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 08h00

Em 1935 terminava a Longa Marcha, iniciada um ano antes, quando o exército revolucionário comunista liderado por Mao Tsé-Tung rompeu um cerco militar imposto pelo regime do Kuomintang, partido nacionalista, comandado por Chiang Kai Shek. 

O evento é considerado o “mito fundador" da República Popular da China, que chegou aos 70 anos nesta terça-feira, 1, com a realização da maior parada militar de sua história, na Praça Tiananmen.

A Longa Marcha não apenas salvou o Partido Comunista Chinês do aniquilamento como ajudou a formar um novo Exército Vermelho que, sob o comando de Mao, levou o PCC a expulsar os invasores japoneses e unificar a nação no dia 1º de outubro de 1949, com a proclamação da República Popular da China.

O evento é considerado o “mito fundador da China”, uma travessia que superou os cinco mil quilômetros por montanhas, florestas e rios. Apenas um quinto dos comunistas chegaram ao fim da marcha. 

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Guia para entender o regime comunista da China

Partido tem se mantido firme no poder há 70 anos; confira sua evolução ao longo do tempo

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 08h33

PEQUIM - O Partido Comunista Chinês desafiou as probabilidades e tem se mantido firme no poder há 70 anos, adaptando-se a um mundo em constante mudança e sobrevivendo aos camaradas soviéticos. Confira a evolução dele ao longo do tempo.

Décadas turbulentas

Durante quase três décadas, a China manteve seu estilo próprio do governo: o maoísmo. Sob o regime do fundador da República Popular da China, Mao Tsé-tung, o Estado assumiu o controle das indústrias e os estabelecimentos agrícolas e as granjas foram coletivizados.

O Grande Salto à Frente de 1958 - uma reorganização maciça do trabalho para impulsionar a produção agrícola e industrial - acabou matando de fome milhões de pessoas.

Mao lançou em 1966 a Revolução Cultural, um movimento que esmagou seus adversários políticos e também terminou em desastre, em razão dos excessos cometidos pela Guarda Vermelha em todo o país.

Abertura do país

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Dois anos depois da morte de Mao, o Partido Comunista abandonou o maoísmo e colocou em marcha, em 1978, sua política de "abertura e reforma" sob a liderança de Deng Xiaoping

A economia cresceu após uma série de medidas pró-mercado, que permitiram os investimentos externos e o capital privado.

O partido teve um "certo pragmatismo para reconhecer que a sobrevivência do regime depende do desempenho econômico e este requer uma interação com a economia mundial", afirma Sam Crane, professor especializado em política chinesa no Williams College dos Estados Unidos.

Milhões de pessoas saíram da pobreza e o país abriga atualmente centenas de bilionários e empresas gigantescas de internet, como Alibaba e Tencent.

Controle estrito

Neste "socialismo com características chinesas", é possível ver Ferraris nas ruas das grandes cidades e os mais abastados compram em lojas de luxo como Gucci. Mas uma coisa não mudou: o Partido Comunista mantém com firmeza as rédeas da economia.

O presidente chinês, Xi Jinping, deixou claro em uma exposição sobre o 70.º aniversário da fundação do regime que os históricos feitos do país "demonstram por completo que só o Partido Comunista pode liderar a China", segundo a agência oficial Xinhua.

"Células" do partido estão presentes nas companhias privadas e as empresas nas mãos do Estado permanecem como atores principais na economia. Até mesmo o bilionário fundador da Alibaba, Jack Ma, está entre os 90,6 milhões de membros do partido.

O que aconteceria se Karl Marx viajasse no tempo para ver a China de hoje? "Se Marx voltasse, acho que diria que isto não é 'socialista'. Isto quer dizer que a China não está se movendo na direção histórica do 'comunismo', mas se estabeleceu como um 'capitalismo de Estado', porém mais rígido com fortes elementos autoritários", explica Crane.

O pensamento de Mao e Xi

Outra diferença entre a época de Mao e os anos seguintes à sua morte foi o fim do poder unipessoal.

Deng apoiou um sistema de liderança "coletivo" e uma sucessão organizada para depois de sua morte, em 1997. Jiang Zemin foi presidente durante dois mandatos de cinco anos e seu sucessor, Hu Jintao, cumpriu com a nova tradição.

Mas Xi voltou aos velhos tempos para se tornar o líder mais poderoso desde Mao. Como este, Xi se beneficiou do culto à personalidade desenhado por veículos estatais.

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Entre 1934 e 1935, milhares de comunistas marcharam por mais de cinco mil quilômetros para furar cerco do partido nacionalista; entenda

O fundador do país teve o "Pensamento Mao Tsé-tung". O atual líder consagrou na Constituição o "Pensamento Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para uma Nova Era".

Mao teve seu "Pequeno Livro Vermelho". Xi tem sua versão do século 21, um aplicativo chamado "Study Xi, Strong Country" (Estude Xi e Fortaleça a Nação, em tradução livre), em seus ensinamentos.

Xi supervisou a linha dura contra a corrupção que castigou mais de 1,5 milhão de membros do partido, uma medida popular entre os cidadãos comuns, mas vista pelos analistas como uma possibilidade de expurgar rivais.

Ele poderia inclusive se perpetuar no poder se renovados os limites do mandato presidencial.

Partido de linha dura 

A abertura da economia não foi acompanhada de reformas políticas. A China tem mais um aniversário este ano, um que o partido garantiu que não será lembrado: o 30.º aniversário da brutal repressão do protesto pró-democracia na Praça da Paz Celestial (Tiananmen).

O governo inclusive fechou o cerco sobre a sociedade sob o mandato de Xi, detendo ativistas, aumentando a censura na internet e se negando a libertar o dissidente e ganhador do prêmio Nobel da Paz Liu Xiaobo quando sofria de câncer.

Os opositores temem que as autoridades utilizem o desenvolvimento tecnológico da China, como o reconhecimento facial, para ainda vigiar mais os seus cidadãos.

Na região de Xinjiang, no noroeste do país, membros da etnia uigur sofreram o alto custo de enfrentar o governo. Os defensores dos direitos humanos suspeitam que o governo chinês tenha internado em acampamentos de "reeducação" cerca de um milhão de pessoas, principalmente desta minoria e da kazaja, ambas muçulmanas. / AFP

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Como era a China quando a capital ainda era Nanquim

Cidade governou país no início da penúltima dinastia imperial, a dos Ming, entre 1368 e 1421

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 09h37

NANQUIM, CHINA - A China comunista celebra seu 70.º aniversário com um desfile militar gigante em Pequim, mas a cidade nem sempre foi a capital do país mais populoso do mundo.

Até 1949, a República da China, um regime atualmente refugiado na Ilha de Taiwan, tinha sua capital em Nanquim (leste), uma cidade que fica a cerca de 1 mil km ao sul de Pequim.

O palácio presidencial continua sendo uma das atrações turísticas de Nanquim, onde alguns habitantes parecem sentir saudades de quando a região reinava no Império do Centro.

"Nanquim foi a capital de dinastias que não duraram muito tempo. É uma cidade maldita", afirma Jiang Shaojian, uma habitante local.

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Ambas disputaram durante muito tempo o título de capital: Pequim significa "capital do norte", e Nanquim, "capital do sul".

Nanquim, que tem hoje mais de 8 milhões de habitantes, governou o país no início da penúltima dinastia imperial, a dos Ming, entre 1368 e 1421. Na época, talvez fosse a cidade mais populosa do mundo.

Estigmas do passado

Após a queda do império em 1911, recuperou seu posto em 1927, graças à chegada ao poder do partido nacionalista, o Kuomintang. A invasão japonesa forçou os nacionalistas a fugirem da capital em 1937, quando Nanquim se tornou palco de um massacre que deixou 300 mil mortos, segundo os historiadores chineses.

A cidade voltou a ser, brevemente, a capital dos nacionalistas de Chiang Kai-shek em 1945, mas ele teve de fugir novamente de sua capital no fim da guerra civil chinesa. Foi em Pequim que o dirigente comunista Mao Tsé-tung proclamou a República Popular, no dia 1.º de outubro de 1949.

Setenta anos mais tarde, os estigmas da guerra civil ainda permanecem ali: os comunistas mantêm o controle do país de Pequim, e os herdeiros de Chiang Kai-shek governam uma "República da China" limitada à Ilha de Taiwan.

Sun Yat-sen, fundador do Kuomintang

Apesar do duro passado, os turistas podem admirar as lembranças do líder dos nacionalistas em seu antigo palácio presidencial, um edifício com colunas de estilo europeu transformado em museu.

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Entre 1934 e 1935, milhares de comunistas marcharam por mais de cinco mil quilômetros para furar cerco do partido nacionalista; entenda

Um pouco mais longe, na cúpula de uma verde colina, outros vão até o mausoléu de Sun Yat-sen, fundador do Kuomintang e efêmero presidente da República da China em 1912.

Sun Yat-sen é reverenciado tanto pelos nacionalistas quanto pelos comunistas, que veem nele uma figura revolucionária, patriótica, mas também enxergam um vínculo entre o continente e Taiwan que justifica suas reivindicações sobre a soberania da ilha.

"Sun defendia a unidade nacional", declara um guia que recebe um grupo de turistas no mausoléu. "Pouco importa que tenha sido o fundador do Kuomintang. Certamente estaria de acordo com os comunistas sobre os vínculos com Taiwan.”

Alguns especialistas têm dificuldades para ver no democrata, cosmopolita e cristão Sun Yat-sen um potencial companheiro de rota do atual Partido Comunista.

Anson Luo, um empresário da província de Guangdong (sul) não vê qualquer contradição. "Sem Sun Yat-sen, a China teria seguido na escuridão durante anos", afirma. / AFP

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Veja o que mudou na China desde a fundação da República Popular

Há 70 anos, somente 10% da população vivia nas cidades; hoje, país tem ao menos seis megalópoles 

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 10h18

PEQUIM - Setenta anos após a fundação da República Popular da China, o país exibe uma cara muito diferente de quando o Partido Comunista chegou ao poder. Veja a seguir algumas das mudanças fundamentais experimentadas pelo país e seus cidadãos desde que o regime foi fundado.

Vida urbana

Há 70 anos, a maioria dos chineses vivia nas áreas rurais e somente 10% da população residia nas cidades.

Em 2019, a China é um país de grandes cidades e tem ao menos seis megalópoles (com população de 10 milhões de habitantes ou mais). Aproximadamente 60% da população vive nas cidades e mais de 100 cidades chinesas têm uma população superior a 1 milhão de pessoas. Pequim, a capital, triplicou de tamanho nos últimos 50 anos, segundo a ONU.

Um frenesi de construções transformou a paisagem do país em três décadas: cinco dos prédios mais altos do mundo estão agora no território chinês e aproximadamente metade do cimento utilizado a cada ano em todo o mundo é feito na China.

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Estado autoritário

Nos últimos 70 anos o país ficou marcado pelos dois líderes mais conhecidos: o fundador Mao Zedong e o atual líder Xi Jinping.

Mao teve um governo caótico, com milhões de pessoas vítimas da fome durante sua campanha de desenvolvimento Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural, antes de morrer em 1976.

Xi, de 66 anos, reforçou seu próprio controle de poder sobre a mídia estatal, construindo ao seu redor um culto à personalidade e ao Parlamento como uma instituição decorativa, mudando a Constituição para poder governar indefinidamente.

Nova ordem mundial

A União Soviética e a República Democrática Alemã foram dois dos poucos países que reconheceram a República Popular da China em 1949.

Mas apesar de um começo lento - e um período em que o país foi fechado para o mundo exterior -, a China de 2019 é uma potência mundial de primeira magnitude e a segunda maior economia do mundo.

Sua economia decolou depois que entrou na Organização Mundial de Comércio (OMC) em 2001 e movimentos recentes, como a Iniciativa do Cinturão e a Rota da Seda, tentam ampliar a influência chinesa para Ásia, África e até Europa.

A China também exerceu essa influência para diminuir o número de países que reconhecem oficialmente Taiwan, autogovernada desde 1949, mas que Pequim considera parte de seu próprio território.

Conectados

No fim de 2018, haviam 829 milhões de internautas na China, o que faz do país no maior mercado de internet em todo o mundo. Destes, 817 milhões usam celulares para navegar na rede, o que a transforma no maior mercado de smartphones do mundo. Há 10 anos calculava-se que havia 298 milhões de internautas.

A China também é o maior mercado de varejo online do mundo. Seu evento anual de compras mais importante, o Dia do Solteiro (11 de novembro), estabeleceu um novo recorde em 2018 com US$ 30,8 bilhões gastos em um dia.

Mas os chineses têm de navegar na internet dentro da chamada "Grande Muralha" de censura que bloqueia o acesso a certos sites estrangeiros como Facebook, Twitter e vários meios de comunicação ocidentais.

Veículos

Em 1949 existiam por volta de 50 mil carros na China. Atualmente há 409 milhões de motoristas, segundo números do governo. Apenas em 2018 foram registrados quase 32 milhões de automóveis a mais no país (aproximadamente o equivalente ao número de veículos no Reino Unido).

Mas o Exército de novos motoristas criou problemas nas cidades chinesas abarrotadas, como grandes engarrafamentos e a restrição do emplacamento de veículos novos.

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Maior do mundo

A China tem a maior ponte marítima do mundo (Macau-Zhuhai), a ponte mais elevada (Guizhou), a maior rede ferroviária de alta velocidade, o maior aquário e, claro, a maior muralha.

Com uma população de 1,4 bilhão de pessoas, é o maior mercado de automóveis do mundo, o maior consumidor de carne de porco e tabaco e o país com mais hospitais.

Um título de que talvez o país se orgulhe menos é o de ter o maior número de sentenças de morte executadas a cada ano. Segundo a Anistia Internacional, a China é o principal país a adotar a medida no mundo e acredita-se que milhares de pessoas são condenadas à morte a cada ano. / AFP

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Sob a sombra dos protestos de Hong Kong, revolução na China chega aos 70 anos

Imagem de sucesso do regime vem cada vez mais sendo prejudicada pelos rebeldes pró-democracia de Hong Kong, movimento popular que Pequim não consegue domesticar 

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de outubro de 2019 | 16h00

HONGO KONG - A China celebra nesta terça-feira, 1º, 70 anos da revolução que mudou a história do país, que deixou de ser um lugar dominado por camponeses e se tornou a segunda maior economia do mundo, um mercado de 1,4 bilhão de consumidores e uma classe média de 550 milhões de pessoas. A imagem de sucesso do regime, porém, vem cada vez mais sendo prejudicada pelos rebeldes pró-democracia de Hong Kong, movimento popular que Pequim não consegue domesticar. 

O status de Hong Kong está ameaçado. À medida que o presidente dos EUA, Donald Trump, intensifica a guerra comercial contra a China, o valor de Hong Kong como centro comercial diminui. Enquanto os manifestantes que ocupam as ruas do território acusam Pequim de violar um acordo que deveria proteger as normas democráticas do território, seu status semiautônomo parece estar em dúvida.

Com o atrito entre China e EUA, alguns dizem que o espaço para um lugar como Hong Kong está desaparecendo. “Veremos uma Hong Kong diferente”, disse Lynette Ong, da Universidade de Toronto. “A própria razão da existência de Hong Kong – o estado de direito, as instituições, o respeito ao Judiciário, a burocracia – tudo se deteriorou.”

Os protestos são um desafio aberto às comemorações dos 70 anos de comunismo chinês. Manifestações ainda maiores em Hong Kong, com o objetivo de ofuscar as festividades em Pequim, são esperadas nos próximos dias – incluindo novos confrontos com a polícia.

Há 22 anos, quando o Reino Unido devolveu sua antiga colônia à China, prevaleceu um otimismo cauteloso de que o status especial de Hong Kong perduraria. Pequim prometeu aderir a uma doutrina conhecida como “um país, dois sistemas” e afirmou que sua “meta final” era o sufrágio universal no território. As liberdades seriam protegidas pelos próximos 50 anos.

Pequim esperava que a prosperidade de Hong Kong validasse o modo de governança da China, no qual os políticos são uma distração para o progresso econômico. O partido governaria Hong Kong por meio de uma leal elite, enquanto explorava os mercados de capitais e as fileiras profissionais do território para avançar nos planos de desenvolvimento da China.

O sucesso em Hong Kong facilitaria a reunificação com Taiwan, a ilha autônoma que a China reivindica como parte de seu território. Muitos ocidentais expressaram esperança de que Hong Kong ajudasse a mudar a China, servindo como canal para a livre empresa e ideias democráticas. Alguns sustentaram que o comércio global seria decisivo. O “engajamento construtivo” amarraria as fortunas chinesas aos mercados mundiais e isso exigiria liberdade.

Por um tempo, as esperanças concorrentes – as do partido e do Ocidente – coexistiram em um delicado cabo de guerra, permitindo que Hong Kong prosperasse. Mas Xi Jinping tinha outras ideias. Depois de assumir, em 2013, o novo presidente chinês realizou uma mudança profunda no envolvimento de seu país com o mundo. Ele usou a crescente influência econômica da China como impulso para uma política externa cada vez mais poderosa.

Sob sua liderança, a China buscou dominar novos mercados, projetou poder em todo o mundo e redobrou o controle do Partido Comunista sobre a esfera política. Ele esmagou a dissidência enquanto comandava a prisão em massa de minorias uigures na região oeste de Xinjiang. Ele consagrou o pensamento de Xi Jinping como ideologia partidária, desprezando a democracia e a economia liberalizada como decadentes exportações ocidentais.

A vigilância de Xi contra ameaças à autoridade do partido também parece ter alterado a avaliação de Pequim sobre Hong Kong. Seu valor comercial foi agora descontado pelo seu potencial como um viveiro de perigosas expressões livres e uma base de subversão contra o domínio do partido no continente.

“Xi Jinping reforçou seu controle sobre Hong Kong”, disse Sally Chan, de 30 anos, funcionária de um banco de investimento, enquanto caminhava em direção a escritórios do governo durante as manifestações de domingo. “O governo negligencia o estado de direito agora. A brutalidade policial está em todo lugar. Temos de ter cuidado para não revelar nossa identidade à polícia."

O valor de Hong Kong também foi reexaminado após a crise financeira global de 2008. Os banqueiros ocidentais - alguns com sede em Hong Kong - e funcionários de Washington haviam ensinado há muito tempo a Pequim sobre a necessidade de a China suspender as restrições à movimentação de dinheiro. Mas a crise expôs as deficiências do sistema ocidental.

“A atual liderança de Xi Jinping está muito menos interessada em aprender as lições sobre capitalismo de Hong Kong”, disse Rana Mitter, diretor do China Center da Universidade de Oxford. “Hong Kong é visto como um lugar mais anômalo e problemático que precisa ser resolvido. Não é mais visto como a galinha dos ovos de ouro”.

Parte da mudança refletia a realidade de que Hong Kong não era mais a principal porta de entrada para a China. A China estava construindo redes rodoviárias e ferroviárias enquanto modernizava seus portos, eliminando a necessidade de embarques por Hong Kong. Hoje, Xangai, Shenzhen, Ningbo e Guangzhou lidam com mais tráfego de contêineres do que Hong Kong, de acordo com o Conselho de Navegação Mundial.

Em 2009, o valor em dólar das ofertas públicas iniciais para empresas chinesas estatais na bolsa de Xangai era maior do que as de Hong Kong, de acordo com a Dealogic, uma empresa de dados financeiros. “Hong Kong não é mais decisiva”, disse V-nee Yeh, presidente da Cheetah Investment Management. “Xangai se tornará o mais importante centro financeiro de Hong Kong.”

A economia de Hong Kong já está se contraindo em meio a temores de uma recessão total. A Fitch Ratings rebaixou a avaliação de crédito de Hong Kong este mês devido à preocupação com o crescente papel da China nos assuntos da cidade. A Moody’s a seguiu, afirmando que “os protestos em andamento revelam uma erosão na força das instituições de Hong Kong” e “abalam os fundamentos de crédito de Hong Kong, prejudicando sua atratividade como centro comercial e financeiro”.

“Todo mundo é muito claro sobre como é o sistema da China”, disse Yoyo Chan, estudante de 17 anos. “Coisas cruéis podem acontecer lá, como campos de concentração, e tudo isso é assustador. Mesmo antes da redação da lei de extradição, alguns livreiros de Hong Kong haviam desaparecido na China. Em um lugar como Hong Kong, onde temos liberdade de expressão, não queremos perder as coisas vitais para nós”.

No mundo dos negócios, a percepção de que Pequim se declarou descaradamente está disseminando temores de que a identidade de Hong Kong como um terreno neutro esteja em perigo. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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