Rodrigo Cavalheiro
Pichação pede fim das AFPs, administradoras privadas em que os chilenos são obrigados a depositar pelo menos 10% do salário Rodrigo Cavalheiro

Pichação pede fim das AFPs, administradoras privadas em que os chilenos são obrigados a depositar pelo menos 10% do salário Rodrigo Cavalheiro

'Nos acostumamos a chupar limões', diz manifestante chilena 

Segundo funcionária pública de 56 anos, no país que foi governado por Pinochet, os protestos são algo comum

Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Santiago  , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Pichação pede fim das AFPs, administradoras privadas em que os chilenos são obrigados a depositar pelo menos 10% do salário Rodrigo Cavalheiro

Amargurada pela perspectiva de receber dentro de quatro anos uma aposentadoria de 150 mil pesos (R$ 823), a funcionária pública Eugenia López, de 56 anos, chamava atenção pela normalidade com que chupava um limão ao lado de amigos ontem no centro de Santiago. De uma dentada, arrancou uma ponta da fruta, cerca de um quarto dela, cuspiu no chão o pedaço, e explicou ao Estado por que estava ali. 

Eugenia ganha o equivalente a 500 mil pesos (R$ 2.745) por mês. Contribui com 80 mil (R$ 439) por mês para fazer sua poupança-aposentadoria. Como deve receber 150 mil (R$ 823) ao deixar de trabalhar, entrará na faixa de mulheres que receberá menos da metade de seu salário final. Manter um apartamento, por exemplo, custa cerca de 200 mil (R$ 1.098). 

“Venho sempre que posso às marchas. A idade não me permite vir a todas. O aumento no preço do metrô foi a chispa para toda essa revolta. Agora, o governo vai ter de ceder”, disse Eugenia, sentada à sombra no canteiro central da Avenida Libertador O’Higgins, a duas quadras do Palácio La Moneda. Ela esperava a hora de começar a marcha por uma mudança no sistema, hoje com base na contribuição individual obrigatória.

A lei atual não permite que o contribuinte saque todo o valor ao se aposentar. Eugenia, por exemplo, acumulou 30 milhões de pesos (R$ 164 mil), em 25 anos. Decisões judiciais recentes passaram discutir essa reivindicação de saque, o que também tem pressionado o governo.

Antigos hábitos

Eugenia mora sozinha, cuida de três gatas – Vênus, Sol e Frida –, não tem filhos e cuida da mãe, de 80 anos, cuja pensão é de 100 mil pesos (R$ 549). Após o início dos protestos, o governo de Sebastián Piñera acenou com um aumento que elevaria a pensão da mãe dela a 129 mil pesos (R$ 708) por mês. 

Eugenia ri ironicamente da oferta. Munida de uma panela azul cujo fundo foi furado “em parte pelo uso em manifestações, em parte por usá-la muito para aquecer o leite”, a chilena exibia ainda em seu “kit de sobrevivência” uma garrafa plástica com água e bicarbonato (que ela aplicava em pó diretamente no rosto). 

Em outra mão, mantinha o limão, degustado de vez em quando. “Estamos no país que foi governado por Augusto Pinochet. Então, protestos são algo comum. Estamos acostumados a chupar limões”, resume. 

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Marcha por melhores aposentadorias acaba em confronto em Santiago

Ruas próximas ao Palácio La Moneda tornam-se campo de batalha, em meio a uma nova marcha contra Piñera; polícia dispara bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e fere um observador do órgão de direitos humanos do governo 

Rodrigo Cavalheiro / Enviado Especial, Santiago, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2019 | 22h16

As ruas próximas ao Palácio La Moneda transformaram-se em campo de batalha nesta terça-feira, 29, em meio a uma nova marcha multitudinária contra o governo de Sebastián Piñera. A polícia disparou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha contra manifestantes que arrancavam com as mãos parte do calçamento para jogar pedras contra os “carabineros”. Um dos feridos pelas balas de borracha foi um observador do Instituto Nacional de Direitos Humanos, órgão do governo.

O ato desta noite em Santiago tinha como exigência melhores aposentadorias. O sistema chileno, que segue o modelo de capitalização individual, é um alvo permanente de tensão no país. Em linhas gerais, o trabalhador dedica 10% de seu salário para uma espécie de poupança. O valor começa a ser devolvido após a aposentadoria pelas chamadas AFPs, instituições privadas que neste período têm liberdade para aplicar o montante.

Hoje, milhares de pessoas, principalmente jovens, carregavam cartazes com a inscrição “NO+AFP”. Alguns usavam lenços com esse slogan sobre a boca e o nariz. Os trapos eram umedecidos com água e bicarbonato para atenuar os efeitos do gás lacrimogêneo e do spray de pimenta. Muitos comiam limões vendidos a 100 pesos (R$ 0,55), com a mesma finalidade.

Parte dos manifestantes tentou pela primeira vez marchar da Plaza Itália, centro da mobilização, até o palácio presidencial, a dois quilômetros. A polícia usou jatos d’água que levavam a multidão a correr pelas ruelas perpendiculares à Avenida Libertador Bernardo O’Higgins, em que fica La Moneda. Houve registros de saque e um centro comercial foi incendiado.

“Temos muito o que mudar neste país. As AFP são uma delas”, disse o engenheiro civil Roberto Sánchez, de 48 anos, que fazia o vaivém em uma cadeira de rodas. “Estou aqui porque recebi um balaço da polícia nos anos 80, quando ainda governava Pinochet.”

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Parte da revolta chilena se deve ao fato de que algumas aposentadorias chegam a ser de 20% do que o trabalhador recebia ao se aposentar. As mulheres têm ainda mais razão para estarem insatisfeitas, já que recebem quase metade da pensão de um homem com carreira similar. Um trabalhador médio do sexo masculino recebe 52% de seu último salário, em média, no Chile. Uma mulher ganha 29%.

“Elas são mais prejudicadas, porque deixam de contribuir no período em que têm filhos e porque vivem mais anos em média”, afirma Eduardo Engel, professor da Universidade do Chile e diretor do centro de estudos Espaço Público. Engel é conhecido por ter uma das visões mais equilibradas em um tema altamente controvertido. 

Ele avalia que a revolta é alimentada principalmente por uma classe média que não foi contemplada por medidas mitigadoras dessas distorções, ações tomadas por Michelle Bachelet em seu último mandato. Essa ações permitiram que os 20% mais pobres, por exemplo, recebam 110% do salário que tinham ao se aposentar, graças a um bônus. A classe média não recebeu essa compensação. 

 

Os defensores do sistema de capitalização argumentam que as aposentadorias são insuficientes, porque as contribuições de 10% sobre salários são baixas. Ou seja, a solução seria aumentar o que é pago pela população.

O governo Piñera começou a planejar um aumento desta contribuição para 15%. A ideia serviu como detonador em um ambiente de alta insatisfação com um custo de vida de nível europeu, associado a serviços cuja qualidade até supera a de vizinhos latino-americanos, mas que são, em sua maior parte, privados. 

Engel não acredita que o modelo de repartição, adotado pela maior parte dos países, seja uma solução. “A repartição não é sustentável. Acredito que o governo vai recuar no que propôs e terá de ser mais generoso com a população”, avalia. O mais provável é que os 5% a mais de contribuição venham a ser bancados pelos empregadores.

Outro especialista no tema, Jorge Farah Ojeda, integrante da Escola de Trabalho Social da Universidade Católica, acredita que a insatisfação popular obrigará Piñera a renegociar sem abrir mão do sistema de capitalização, instalado no fim da década de 70, durante a ditadura. “Mais da metade dos chilenos recebe menos de 200 mil pesos (R$ 1.090), mas tem um custo de vida europeu. Deveriam receber pelo menos 70% do valor do último salário, mas, em média, se recebe 30%. É uma das razões para essa explosão”, explica. 

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