(Photo by Kyle Grillot / AFP)
(Photo by Kyle Grillot / AFP)

Nos Estados Unidos, sem-teto vivem em carros e dormem em estacionamentos

Para os americanos que não têm onde morar, estacionamentos se tornam um refúgio seguro para ter uma noite de sono tranquila

Jocelyne Zablit / AFP, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2019 | 05h00

Cameron Jones entra com seu carro esportivo num estacionamento ao ar livre de Los Angeles, escolhe uma vaga, desliga o motor, reclina o banco... e dorme! “Perdi meu apartamento há dez dias porque não podia pagar os US$ 2,2 mil de aluguel. Disseram-me que este é um lugar seguro para ficar até sair da crise”, disse Jones, fuzileiro naval veterano que serviu no Afeganistão e trabalha numa empresa que vende painéis solares.

“Posso dormir tranquilamente aqui sem ter de acordar a cada momento e olhar para os lados”, acrescentou o jovem de 26 anos. Ele mantém um traje social pendurado na parte de trás do carro e toma banho em uma academia de ginástica antes de sair de manhã para o trabalho.

Passada uma hora dessa noite fria de inverno, uma dezena de carros, alguns com crianças, começa a chegar. O lugar é um dos mais numerosos “estacionamentos seguros”, da Califórnia e outros Estados, que proporcionam aos “com carro, mas sem teto” um espaço para pernoitar.

Em Los Angeles, só no último ano foi aberta uma meia dúzia desses estacionamentos, que têm vigilância privada e oferecem gratuitamente um lugar seguro, durante 12 horas, às cerca de 9 mil pessoas que vivem na cidade em carros ou trailers.

Um deles fica atrás de uma Igreja, outro, em uma sinagoga, e um terceiro, nas instalações do escritório local do Departamento de Assuntos dos Veteranos. Banheiros químicos e pias para lavar as mãos e o rosto estão disponíveis para os usuários, que precisam levar um pedido para serem admitidos.

Para Carlos Gonzalez Jr., veterano do Exército de 60 anos que há 2 vive em um trailer, o programa de estacionamento evita o constante assédio de residentes que o pressionam para remover o veículo. “Tem gente ruim lá fora. Aqui, sinto-me seguro, sem a preocupação de ser assaltado”, disse  no estacionamento para ex-militares, situado no tranquilo bairro de Westwood. 

Programas similares foram estabelecidos em outras cidades da Califórnia – incluindo a área da Baía de São Francisco –, onde o alto preço da moradia está jogando na rua muitas pessoas de baixa renda.

“Temos uma professora que usa um de nossos estacionamentos porque não conseguiu mais pagar o aluguel”, disse Ira Cohen, que  com a mulher adotou o programa em Los Angeles. “Alguns têm pelo menos a sorte de possuir um carro para transformar em lar.”

Um quarto dos mais de meio milhão de pessoas em situação de rua dos EUA vive na Califórnia, segundo dados de 2017  do Departamento de Moradia e Desenvolvimento Urbano.

O Estado, que tem uma das mais sólidas economias do mundo, acumula ao mesmo tempo a mais alta taxa de pessoas que vivem em parques, prédios abandonados e carros.  Só no condado de Los Angeles há hoje 53 mil indigentes, um grande aumento em relação aos 38.700 de 2010.

“Isso não ocorreu do dia para a noite”, disse Gary Painter, que dirige o instituto de estudos de políticas sobre indigência da Universidade do Sul da Califórnia. “Os aluguéis em Los Angeles sobem mais depressa que a renda das pessoas e nos últimos três anos chegamos a um ponto de ruptura, forçando muitos a viver na rua.”

Painter afirmou que, apesar do amplo fluxo  de dinheiro para novas residências, albergues e programas de auxílio à moradia, a defasagem é tão grande que levará tempo para o problema ser resolvido.

Enquanto isso, programas como o dos estacionamentos seguros ganham popularidade. “Se dois anos atrás alguém me dissesse que eu estaria nesta situação, teria rido na cara da pessoa”, disse o ex-fuzileiro Cameron Jones. “Eu acreditava  que estava vivendo o sonho americano.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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