Eduardo Nicolau/Estadão
Eduardo Nicolau/Estadão

Nos EUA, papa precisa atrair conservadores

Para professor de Teologia, pontífice deve usar visita para criar laços entre o Vaticano e a Igreja americana

Entrevista com

Massimo Faggioli, professor de Teologia e especialista em história da Igreja Católica

Cláudia Trevisan, correspondente / Washington , O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2015 | 05h00

WASHINGTON  - A visita que o papa Francisco fará aos EUA a partir de amanhã terá o objetivo de construir ligações entre o pontífice e segmentos da população que veem com desconfiança suas posições, avalia Massimo Faggioli, professor de Teologia da Universidade de St. Thomas, em Minnesota. “A maioria dos bispos americanos não gosta dele e muitos católicos americanos não o entendem”, disse Faggioli, especialista em história da Igreja Católica e autor de livros sobre o assunto, em entrevista ao Estado. Faggioli acredita que os principais temas da vista aos EUA serão a questão ambiental, a justiça social e a economia moderna, mas espera que Francisco use uma linguagem diferente da usada em sua visita à Bolívia. A seguir, trechos da entrevista.

Quais serão os principais temas da visita do papa aos EUA?

Criar uma relação de Francisco com a igreja nos EUA, uma relação que tem sido difícil desde o começo. Não apenas porque o papa é da América Latina, e americanos tendem a ter uma perspectiva particular sobre a região, mas porque ele é um católico latino-americano radical. A maioria dos bispos americanos não gosta dele e muitos católicos americanos não o entendem, não confiam em seu julgamento em questões como aborto, sexo e dinheiro. Acredito que ele tentará ser mais compreendido, não colocará ênfase nos temas tratados normalmente pelos bispos nos EUA, como casamento entre pessoas do mesmo sexo e aborto. O foco deverá ser a questão ambiental, a economia moderna e a justiça social.

A tensão existe porque ele tem uma visão mais tolerante?

Não diria mais tolerante, mas ele sabe que nas últimas duas ou três décadas a Igreja Católica se tornou um agente da moralidade, o que afastou muitas pessoas. Em termos de estratégia, a Igreja tem de mudar a linguagem. Também há a ideia de que quando falamos dos temas sexualidade e aborto, não podemos fazer julgamentos sem entender o contexto. Para o papa, esse contexto é como a sociedade e a economia moderna se desenvolvem. Na carta do jubileu sobre aborto, ficou claro que ele sabe as dificuldades de mulheres que não têm outra escolha além do aborto. Ele não trata essas questões de maneira abstrata, elas são parte de situações existenciais complexas – pessoas não têm dinheiro, acesso à assistência médica. Nos EUA, isso não foi feito pelos líderes da Igreja.

Eles tendem a ser mais conservadores?

É a ideia típica da cultura conservadora dos EUA de que tudo gira em torno de responsabilidade pessoal. Se você é pobre, é porque não trabalha. Se fez um aborto, é porque não acredita que isso é ruim. Francisco tem um entendimento mais social. Se queremos tratar da questão da família, do casamento e do aborto, temos que falar do sistema social que às vezes obriga as pessoas a tomarem essas decisões ruins. Isso os bispos dos EUA não fazem. Em grande parte eles usam uma linguagem conservadora para apresentar essas questões – você tomou essas decisões e só você é responsável por elas. A linguagem do papa é diferente. Ele não mudou o que a Igreja diz sobre aborto, mas mudou a maneira como devemos tratar o problema. 

A parcela de católicos na população dos EUA está diminuindo?

Não está reduzindo graças aos imigrantes da América Latina. Sem eles, a Igreja Católica nos EUA seria muito menor. Se ainda é grande, isso se deve em grande parte aos imigrantes. 

Muitas posições do papa coincidem com prioridades da agenda política do presidente Barack Obama. Há o risco de o papa afastar os republicanos?

O risco existe e ele já afastou alguns católicos republicanos. Acredito que nos EUA ele tentará construir pontes entre o Vaticano e a Igreja americana e entre diferentes tipos de católicos. Obama e Francisco têm uma relação muito boa e o protocolo da visita enfatizará isso. O presidente irá com a família ao aeroporto receber o papa, o que não é usual. Francisco tentará estender a mão aos que não entendem o que ele fez até agora. Ele tentará se apresentar também para os que se distanciaram e não captaram suas intenções.

Mas ele tratará de justiça social, meio ambiente... O desafio será fazer isso e ser inclusivo?

Exatamente. O papa demonstrou uma habilidade incrível de fazer diferentes coisas, nos surpreendeu. Os EUA são mais difíceis por muitas razões. É uma Igreja muito mais polarizada e dividida ideologicamente. Há dois partidos políticos e duas maneiras diferentes de ser católico. É uma Igreja única, muito viva, mas dividida, que saiu de uma crise difícil em relação ao escândalo de abusos sexuais.

A divisão é semelhante à partidária?

Mais ou menos. Há dois tipos de católicos que em grande parte coincidem com as culturas políticas: os católicos democratas e os republicanos. 

A mensagem dele ecoou mais entre os católicos democratas?

Por enquanto sim. Mas Francisco não convenceu os defensores do casamento entre pessoas do mesmo sexo ou as teólogas feministas, por exemplo. A maioria dos democratas gosta dele e a maioria dos republicanos, não. Mas há exceções. 

O papa fez fortes críticas ao capitalismo e à idolatria do dinheiro. Isso é percebido de maneira negativa nos EUA?

Sim. A religião do livre mercado é a verdadeira religião nacional da América. Quando você critica isso, você faz inimigos. Eu espero que ele fale sobre a economia moderna e o capitalismo de maneira diferente da que falou na Bolívia. Eu ficaria surpreso se ele usasse a mesma linguagem. Ele manterá a mensagem, mas terá em mente que a história dos EUA é muito diferente.

Há uma desconexão entre a Igreja e a posição dos católicos americanos em relação a divórcio, casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essa é a principal razão da perda de fiéis?

É uma delas. Se você ler artigos de conservadores católicos americanos brancos, eles dizem que a Europa está perdida e os católicos deixaram a Igreja. O que eles não aceitam é a ideia de que o cenário do catolicismo na América, quando falamos de católicos brancos, não é muito diferente do europeu. Isso é difícil para eles aceitarem porque é parte dessa ideia de que a América ainda é religiosa e a Europa, pós-religiosa, secular, ateia. Esse papa está dizendo que a Igreja nos EUA é importante, mas não é a melhor. Não há nenhuma Igreja Católica melhor que a outra. 

Como ele está dizendo isso?

Está dizendo coisas duras para os católicos, especialmente os bispos. Não está tratando a Igreja Católica americana como especial. Isso se reflete nas indicações que ele fez no Vaticano e para o Sínodo dos Bispos. O papel que a Igreja Católica americana desempenha no pontificado de Francisco é o de uma enorme igreja, mas com João Paulo II e Bento XVI, os católicos americanos tinham grande proeminência e eram muito mais poderosos. 

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