Capítulo 09

Nos EUA, Bolsonaro mira base ideológica, mas volta de malas vazias

Em Dallas, presidente prestou continência à bandeira americana, criticou a imprensa e o PT, mas não levou nenhuma conquista econômica ou diplomática

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2019 | 16h07

Caro Leitor,

Mais de mil empresários tiraram do bolso ao menos US$ 1,5 mil para encontrar Jair Bolsonaro em jantar de gala em Nova York. Os ingressos para festas e palestras se esgotaram em tempo recorde. Mas empresários e investidores ficaram a ver navios. A maior cidade dos EUA é símbolo de diversidade e ativistas organizaram um boicote ao presidente em razão de suas posições sobre raça, gênero e meio ambiente. A novidade é que foram reverberadas por Bill de Blasio, prefeito de Nova York. O boicote fez a homenagem mudar de lugar e perder o glamour de ter uma ossada de baleia como cenário, no tradicional Museu de História Natural.

Bolsonaro desistiu de Nova York, mas De Blasio continuou provocando. Ele chamou Bolsonaro de “valentão que não aguenta uma briga”. A Câmara de Comércio Brasil-EUA, que escolheu Bolsonaro como “pessoa do ano”, tentou colocar panos quentes e o Itamaraty buscou uma saída. Havia consenso que Bolsonaro deveria receber o prêmio “em solo americano”. E foi assim que ele chegou a Dallas, no conservador Estado do Texas. Não que o prefeito da cidade concorde com Bolsonaro, mas ele não se opôs.

Em uma semana, o governo brasileiro improvisou uma agenda com dois compromissos: um almoço com 100 empresários, para receber o pêmio, e um encontro com o ex-presidente George W. Bush. Outras duas reuniões foram sendo confirmadas no meio da viagem, que durou pouco mais de 30 horas. Enquanto isso, em Nova York, Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre e Dias Toffoli sinalizavam para investidores que a articulação com o Planalto melhorou (como você lê nessa entrevista), que a reforma da previdência será aprovada e os Poderes estão em harmonia. O otismismo durou até Bolsonaro desembarcar no Texas.

Em Dallas, com declarações destemperadas, segundo esta análise, o presidente deu força às ondas que criavam o seu próprio tsunami. Primeiro, chamou os manifestantes contra o arrocho na educação de “idiotas úteis”. Esse link ajuda a entender o que causou protestos em 240 cidades do Brasil. Depois, frente ao avanço das investigações a Flávio Bolsonaro, ele desafiou: “Venham para cima de mim”. Este editorial critica o fato de Bolsonaro transformar “debates importantes em brigas de rua”.

Enquanto isso, o governador de São Paulo, João Doria, assumiu o protagonismo – saiba aqui como foi a homeangem à "pessoa do ano" sem a pessoa do ano. Circulando em meio ao grupo de apoiadores que acampavam no hotel de Bolsonaro, ministros faziam questão de dizer que a visita ao Texas tirou a má impressão do imbróglio de Nova York.

Em Dallas, Bolsonaro prestou continência à bandeira americana, dialogou com sua base ideológica, fez campanha contra a candidatura de Cristina Kirchner na Argentina, criticou a imprensa e o PT. Mas, na bagagem de volta, não levou conquistas econômicas ou diplomáticas. E, com o dólar acima de R$ 4, provavelmente, também não levou nenhuma compra.

Beatriz Bulla

Beatriz Bulla

Correspondente em Washington (EUA)

Formada em jornalismo e em direito, entrou no Estadão em 2011 para o curso de Focas e ficou. Cobriu economia, política e justiça em São Paulo e Brasília antes de trocar a Lava Jato na capital federal pela capital americana. Vive de olho na relação entre o Brasil e os EUA.

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