Nos EUA, físico do Irã diz ter sido 'sequestrado'

Desaparecido há um ano, cientista nuclear entra em missão chefiada pelo Paquistão e pede para ser levado de volta a Teerã

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2010 | 00h00

CORRESPONDENTE/ WASHINGTON

A guerra nos bastidores entre EUA e Irã voltou a chamar atenção ontem, depois que o cientista nuclear iraniano, Shahram Amiri, de 32 anos, apareceu subitamente na seção iraniana da embaixada do Paquistão em Washington pedindo para ser levado "de volta" a Teerã. A embaixada paquistanesa representa os interesses do Irã, que não tem relações com os EUA.

De acordo com a versão iraniana da história, Amiri foi sequestrado em 2009 pela CIA quando fazia o haji (peregrinação a Meca) e levado à força para os Estados Unidos. O governo americano, no entanto, afirma que o cientista nuclear está no país "por vontade própria", dando a entender que ele desertou e passou para o lado dos EUA.

O Paquistão disse estar preparando a documentação de Amiri para que ele volte ao Irã. Washington disse que deixará o iraniano voltar ao seu país.

Ao lado do ministro das Relações Exteriores do Iraque, Hoshvar Zebari, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, voltou a afirmar ontem que Amiri estava nos EUA "por sua livre vontade" e poderia deixar o país quando desejasse. Hillary completou que o cientista tinha programado seu retorno ao Irã na segunda-feira, mas faltavam trâmites necessários para o trânsito em outros países. No entanto, nenhuma autoridade de Washington deu explicações sobre como ele foi parar em território americano e o que exatamente fazia nos EUA.

Ontem, Amiri manteve-se na seção iraniana, localizada a cerca de 2 quilômetros da embaixada paquistanesa. O escritório funciona em um espaço comercial da Avenida Wisconsin, uma das mais movimentadas da região de Georgetown, bairro nobre de Washington.

Na vizinhança, ninguém sabia dizer quando o cientista entrou no prédio. No escritório, um funcionário educadamente avisava que ninguém falaria sobre o caso e explicava que Amiri não daria entrevistas. Repórteres dos principais meios de comunicação do país e de agências internacionais esperavam, de tocaia, do lado de fora.

Dois vídeos. O ministro Imran Gardezi, da embaixada do Paquistão, afirmou ao Estado que Amiri ficaria na seção iraniana até sua partida para o Irã, cuja data ainda estava em aberto. Também confirmou que, em seu depoimento, o cientista disse ter sido sequestrado em 3 de junho do ano passado por agentes da CIA e da Arábia Saudita quando fazia uma peregrinação a Meca. Desacordado, ele só recobrou os sentidos quando estava em um avião, a caminho dos EUA. Segundo Gardezi, ao contrário de outras versões, Amiri não declarou ter sido torturado pelos agentes.

A versão é totalmente diferente do que vem noticiando a imprensa americana nos últimos meses. A história seria que Amiri, que trabalhava no programa nuclear de Teerã, decidiu fugir do Irã e passar informações à inteligência americana.

Em março, dois vídeos contraditórios apareceram no YouTube. No primeiro, gravado por uma TV estatal iraniana, um homem identificado como Amiri dizia diante de um computador que havia sido sequestrado pela CIA.

No segundo, com uma imagem bem melhor, um homem também identificado como o cientista iraniano dizia ter decidido viver nos EUA "por vontade própria".

Cronologia

Deserção ou captura?

Junho de 2009 - Amiri desaparece enquanto fazia peregrinação (haji) a Meca

Setembro - Supostamente com informações de Amiri, revela-se a existência da usina clandestina de Qom, no Irã

Outubro - Irã diz ter provas de que cientista foi sequestrado pelos EUA

Março - Imprensa diz que Amiri está nos EUA por vontade própria. TV do Irã mostra homem que seria o cientista denunciando sequestro

Julho - Amiri busca refúgio na embaixada do Paquistão

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