Nos EUA, luta contra jihadismo esbarra no direito de expressão

Universidades, agências do governo e empresas de tecnologia tentam driblar a lei na luta contra discurso extremista

Cláudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 05h00

WASHINGTON - Os combatentes da guerra virtual contra o Estado Islâmico (EI) lutam em salas de universidades, gabinetes de agências governamentais e empresas de tecnologia do Vale do Silício, que tentam equilibrar a liberdade de expressão de seus usuários com a supressão do discurso extremista online.

O desafio de todos não é apenas evitar a disseminação da propaganda jihadista na internet, mas criar uma narrativa que se oponha às promessas de redenção pela violência feitas pelo grupo terrorista. 

A dificuldade em traçar a linha divisória entre censura e combate ao discurso extremista fica evidente na existência, no YouTube, de inúmeros vídeos em inglês feitos por Anwar al-Alawki, um americano-iemenita que é considerado um dos principais recrutadores e propagandistas do fundamentalismo islâmico.

Ligado à organização terrorista Al-Qaeda e morto há quase seis anos em um ataque com drone ordenado pelo ex-presidente Barack Obama, Al-Alawki deixou um estoque de centenas de vídeos sobre a guerra santa que continuam a inspirar candidatos a mártires ao redor do mundo.

“Os vídeos com imagens de Anwar al-Alawki estão em todas as cartilhas básicas de radicalização e nós defendemos que eles sejam totalmente eliminados da internet”, afirmou Tara Maller, do Counter Extremism Project (CEP), uma organização internacional destinada ao combate de ideologias extremistas.

Identificação. O Google, que controla o YouTube, disse que a empresa tem diretrizes que proíbem o recrutamento de terroristas e conteúdo que incite a violência. “Nós removemos rapidamente vídeos que violam essas políticas quando eles são identificados por nossos usuários”, afirmou um porta-voz do YouTube ao Estado.

No entanto, muitas das mensagens de Al-Alawki continuam disponíveis nas redes sociais. Nelas, o propagandista questiona as interpretações moderadas do islamismo e professa as supostas virtudes do fundamentalismo islâmico.

Maller defende que as empresas de internet adotem tecnologia desenvolvida para o CEP por Hany Farid, um especialista em computação do Dartmouth College, responsável por criar o mecanismo que reduziu de maneira drástica a pornografia infantil na internet.

Mudanças rápidas. De acordo com ela, o processo envolve a classificação, por seres humanos, de imagens e conteúdo identificados como propaganda jihadista ou extremista. O conteúdo que receber esse rótulo estaria bloqueado de maneira permanente na internet - qualquer tentativa de publicá-lo seria negada.

O major polonês Rafal Zgryziewicz, especialista em Estado Islâmico do Centro de Excelência para Comunicações Estratégicas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), afirmou que muitos países que integram a coalizão internacional liderada pelos EUA passaram a usar a hashtag #takedaeshdown, nas mídias sociais, para se contrapor à mensagem da organização terrorista usando a sigla em árabe para o Estado Islâmico da Síria e do Levante.

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