Pete Marovich/The New York Times
Pete Marovich/The New York Times

Nos EUA, muitos esperam pela volta da normalidade após 4 anos de onipresença de Trump

Americanos estão ansiosos por uma pausa nas notícias e polêmicas constantes produzidas pelo ex-presidente

Campbell Robertson, Elizabeth Dias e Miriam Jordan / The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 12h00

PITTSBURGH - Por quatro anos, David Betras não conseguiu escapar de Donald Trump. O presidente visitou Youngstown, Ohio, a sede do condado natal de Betras. Os filhos do presidente também. Pessoas que Betras conhecia há anos tornaram-se fortemente influenciadas por Trump. Não havia como escapar no Facebook, no Instagram ou no bar da cidade.

“Nos últimos quatro anos, houve um dia em que Trump não estivesse em algum lugar da sua órbita?” disse Betras, o ex-presidente do partido Democrata do condado de Mahoning. “Todos os dias, eu não conseguia ficar livre dele. Ele estava por toda parte. Foi como uma onipresença. ”

Para Betras e tantos outros, esta era a vida na era Trump: quatro anos acordando todas as manhãs para uma nova revelação, um tuíte impulsivo, um protesto em massa, uma estranha nova celebridade no cenário político, um impeachment ou dois, outro tema para discutir a respeito e perder amigos. Não há como dizer quando a era Trump terminará, mas por uma questão puramente técnica, Trump não é mais o presidente dos EUA a partir da tarde desta quarta-feira. Sua partida deixará um país dividido, inflamado, temeroso, radicalizado - e desgastado.

“Era como a buzina de um carro”, disse Betras sobre os ciclos perpétuos de notícias dos últimos quatro anos. “Você está jantando, sabe, e, no começo, o som da buzina de um carro não o incomoda. Mas depois de cerca de uma hora, você olha ao redor e diz: ‘Alguém vai desligar a buzina desse carro?!’”.

Conflitos políticos que antes eram disfarçados entraram em ebulição permanente. Uma quantidade maior de eleitores apareceu nas urnas em 2020 do que em mais de um século, após um verão com, possivelmente, o maior movimento de protesto da história do país.

Manifestantes antirracismo se reuniram nas praças de cidades onde protestos contra o lockdown por conta do novo coronavírus ocorreram semanas antes. Nacionalistas brancos lutaram contra ativistas antifa nas ruas de cidades dos EUA. Escolas se tornaram focos de divisão política e hostilidade interna, famílias foram destruídas por causa de bizarras teorias da conspiração, pequenas congregações de igrejas se fragmentaram e celebridades apolíticas declararam publicamente sua lealdade. Então, em janeiro, o Capitólio dos EUA foi invadido por extremistas pró-Trump.

Mesmo para muitos dos apoiadores de Trump, isso tem sido cansativo. Alguns, ainda totalmente leais, dizem que se sentem derrotados após anos de batalha política. “Quatro anos foram um tanto desagradáveis”, disse Gwendolyn Milner, de 68 anos, de Fayetteville, Geórgia. "Sentimos que tínhamos que defendê-lo, mas ninguém parava para ouvir”. É importante permanecer comprometida, disse ela, embora já se sinta cética e derrotada.

Outros estão cansados de tentar defender as políticas de Trump para amigos e familiares e serem prejudicados por algum tuíte presidencial a respeito de uma possível compra da Groenlândia ou uma crítica severa sobre turbinas eólicas. “Você nunca conseguia superar isso porque ele continuava fazendo”, disse Ray Abplanalp, de 61 anos, do oeste da Pensilvânia, que não conseguiu convencer seu irmão dos méritos do presidente.

Para aqueles que protestaram nas ruas, o conflito incessante dos últimos quatro anos não foi nada negativo, mas o retorno de uma urgência há muito buscada. Há esperança na nova onda de ativismo, desde as massivas manifestações Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) até uma série de paralisações no trabalho que envolveram mais pessoas do que em qualquer momento em décadas.

A era Trump revelou problemas profundos na história do país, disseram alguns, e não havia como voltar ao falso conforto do status quo. “É exaustivo. É angustiante, mas eu diria que o mesmo sentimento que você sentiu ou está sentindo é como os homens negros vêm se sentindo e têm que conviver com isso todos os dias”, disse Ayo Akinmoladun, de 29 anos, que liderou protestos antirracismo em Memphis, Tennessee, durante o verão. “Esta tem sido a nossa realidade.”

Christopher Kershaw, de 41 anos, gerente de uma empresa de distribuição de alimentos em Nova Jersey, está em um lugar intermediário quanto ao cenário político, aprovando algumas coisas que o presidente fez e desaprovando outras. Mas todos tinham que escolher um lado, disse ele, e qualquer questão parecia importar menos do que se o presidente era a favor ou contra.

Trump carregou grande parte da culpa por isso, dada sua retórica provocativa, disse Kershaw, mas isso distorceu todas as discussões políticas, mesmo sobre questões menores. Para ele, um governo Biden-Harris poderia unificar melhor o país agora. “Se o Senado e a Câmara pudessem voltar a fazer nada como fazem normalmente, talvez pudéssemos apenas ter alguns minutos para nos reagrupar”, disse Kershaw. “Dê a todos a chance de voltar aos seus lugares e respirar.”

Não está claro como isso ainda pode acontecer. Os grupos estão confusos e a desconfiança mútua é generalizada. E, para muitas pessoas, os anos Trump mudaram suas vidas, fazendo-as se envolver com a política.

Quando a eleição de 2016 estava prestes a acontecer, Deborah Baughman morava na zona rural do sul da Pensilvânia e era uma feliz professora aposentada. A eleição a deixou incrédula, um evento que ela lembra como uma noite em que "algo muito terrível aconteceu". Trump conquistou seu condado por mais de 67 pontos percentuais. Ela não esperava que isso fosse acontecer.

Ela processou a situação, lamentou, foi a uma marcha de mulheres e começou a frequentar um grupo recém-formado de democratas em seu condado, descobrindo que havia mais eleitores com a mesma opinião do que imaginava. Em um ano, ela estava concorrendo à legislatura estadual, com seu nome em letras enormes em outdoors por todo o condado. Deborah arrecadou milhares de dólares e perdeu, como ela esperava.

Mas então decidiu concorrer à cadeira democrata na comissão do condado - por lei, uma cadeira é reservada para um "partido minoritário". Depois de uma vitória naquela disputa, ela agora tem um novo emprego de tempo integral. Tudo isso por causa de Trump.

“Onde eu moro, o trumpismo está vivo, bem e mais forte do que nunca”, disse Deborah. Bandeiras apoiando Trump ainda estão penduradas nas frentes das casas e ela sabe que alguns ônibus do condado viajaram para o agora infame comício em Washington no dia 6 de janeiro. Mas ela não se sente cansada com tudo isso. Muito pelo contrário.

“Se não fosse por Donald Trump, eu não estaria nessa nova carreira. E me sentindo tão feliz por fazer parte disso.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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