REUTERS/Caitlin Ochs
REUTERS/Caitlin Ochs

Nos EUA, presença de agentes federais espalha protestos para além de Portland

Uso de agentes federais em manobra eleitoral de Donald Trump provoca revolta em diversas cidades no país

Mike Baker, Thomas Fuller e Shane Goldmacher / The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2020 | 10h21

SEATTLE - Uma série de novos e fortes protestos contra a má conduta policial ocorreu em cidades em todo o país no fim de semana, criando um novo dilema para líderes estaduais e locais - enquanto alguns conseguiram diminuir parte da turbulência em suas ruas, o uso de agentes federais no Oregon provocou indignação e fortaleceu as manifestações em outras regiões.

Com parte dos manifestantes adotando métodos destrutivos e a polícia geralmente usando táticas agressivas para dominá-los, as cenas da noite de sábado em lugares como Seattle, Oakland e Los Angeles lembraram os dias dos protestos após a morte de George Floyd no final de maio.

O mais recente motivo de protesto foi o envio de agentes federais para Portland, no Oregon, cujos esforços militarizados para reprimir protestos provocaram manifestações em massa e confrontos. E inspiraram protestos de solidariedade em outras cidades, onde as pessoas expressaram profunda preocupação com o governo federal exercendo uma autoridade tão extensa em uma cidade que deixou claro que se opõe à presença de agentes federais.

O presidente Donald Trump aproveitou as cenas de distúrbios - estátuas derrubadas e janelas quebradas - para adotar uma mensagem de ordem em sua campanha de reeleição. Ele gastou mais de US$ 26 milhões em anúncios que mostram uma distopia sem lei de delegacias de polícia vazias e serviços de atendimento que ele argumenta que poderiam ser abandonados em um país liderado por seu rival democrata, Joe Biden.

Biden insistiu na semana passada que a promessa do presidente de usar a presença federal no policiamento mostra que ele está "determinado a semear o caos e a divisão". A menos de 100 diasBiden lidera as pesquisas mais importantes. 

"Não há dúvida de que as ações em Portland aumentaram as coisas, não apenas em Seattle, mas em todo o país", disse a prefeita Jenny Durkan, de Seattle. Ao mesmo tempo, uma nova rodada de distúrbios nas ruas pode intensificar as diferenças entre as autoridades locais sobre a melhor forma de lidar com as queixas dos manifestantes e responder a vandalismo e violência. Dezenas de pessoas foram presas na cidade no fim de semana após confrontos e uso de gás de pimenta pela polícia. 

Em Los Angeles, manifestantes entraram em conflito com policiais no centro da cidade. A polícia também fez prisões em protestos em cidades menores, como Omaha e Richmond. Em Oakland, o que havia sido um protesto pacífico liderado em parte por um grupo de mães desapareceu após o anoitecer, enquanto outro grupo de manifestantes quebrou janelas no tribunal do condado.

Protestos por 60 dias 

Os protestos continuaram em Portland no domingo, quando a cidade se aproximava do seu 60º dia consecutivo de manifestações. Quando a multidão se reuniu mais uma vez perto do tribunal federal, o Departamento de Polícia de Portland disse que um tiroteio ocorreu a um quarteirão de distância. Os policiais prenderam duas pessoas sob custódia, e uma pessoa foi para um hospital com um ferimento a bala. 

Em Seattle, na noite de domingo, centenas de manifestantes retornaram à área em torno de uma delegacia de polícia no bairro de Capitol Hill. A reunião foi pacífica. Algumas cidades elogiaram o envio de agentes policiais federais adicionais para ajudar a combater a crescente escalada de gangues e crimes relacionados às drogas, mas insistiram que não aceitariam nenhum agente federal nas ruas prendendo manifestantes. 

Líderes democratas de cidades e estados recuaram contra a nova presença federal, mas também expressaram frustração pelo fato de que alguns nas ruas estavam indo longe demais e jogando com a aposta do presidente. "Estou furioso com o fato de Oakland ter participado da estratégia de campanha distorcida de Donald Trump", disse o prefeito Libby Schaaf em entrevista no domingo.

"Imagens de um centro de cidade vandalizado é exatamente o que ele quer para aumentar sua base e potencialmente justificar o envio de tropas federais que apenas incitarão mais agitações". Em Chicago, a prefeita Lori Lightfoot, uma democrata que discutiu repetidamente com Trump, disse que saudou a intervenção do presidente na promulgação do controle de armas e no investimento em programas comunitários.

"Qualquer outra forma de assistência militarizada dentro de nossas fronteiras que não estivesse sob nosso controle ou sob o comando direto do Departamento de Polícia de Chicago significaria desastre", disse ela em uma carta ao presidente na semana passada.

No domingo, a governadora Michelle Lujan Grisham, do Novo México, qualificou a decisão do governo de enviar agentes da lei para o estado - uma medida que o governo procurou distinguir dos agentes enviados para guardar propriedades federais em Portland - como "um pouco suspeita".

Campanha eleitoral

A campanha de Trump tenta capitalizar a agitação para tranquilizar os eleitores de que ele acabará com a turbulência. "Se existe um perigo para os democratas, é o fato de os republicanos serem capazes de defini-los como estando do lado dos anarquistas em Portland", disse Scott Jennings, estrategista republicano. Mas Jennings avalia que a retórica de Trump torna isso difícil. "É uma situação que exige nuances e é uma presidência que não se envolveu em muitas nuances".

Estrategistas democratas expressaram confiança de que os ataques de Trump representavam pouco risco, mesmo com aumento dos protestos. Para eles, as palavras do presidente sobre um futuro sombrio dos democratas está em total dissonância com a realidade, já que a agitação está acontecendo sob seu próprio governo.

Também afirmaram que a questão policial estava sendo tratada por muitos eleitores como uma distração por Trump por conta de sua resposta à pandemia do coronavírus e da economia em dificuldades. "Não importa quantas tropas Donald Trump envie para as cidades americanas, isso não irá distraí-los de sua principal preocupação, que é o coronavírus e sua saúde", disse Jared Leopold, estrategista democrata.

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