Nos guetos, as origens do radicalismo

Má formação escolar e alto índice de desemprego frustram jovens que descendem de imigrantes muçulmanos e se aproximam da religião

Jamil Chade, enviado especial/Bruxelas, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2015 | 03h00

Avô imigrante, pai europeu, neto radical islâmico. Em Courcouronnes, na periferia de Paris, o fracasso em promover a integração da população muçulmana em expansão na Europa se vê em cada esquina, praça, cortiço e escola decadentes. Com a guerra a terroristas e radicais islâmicos, o desafio dos governos do continente é fazer com que o combate não aprofunde ainda mais o sentimento de exclusão de jovens muçulmanos e o abandono e estigmatização de bairros inteiros. 

A Europa tem cerca de 20 milhões de muçulmanos. São 4,7 milhões de muçulmanos na França, outros 4,7 milhões na Alemanha e, em pelo menos mais quatro países, a população muçulmana ultrapassa a marca de 1 milhão. Essa população fez crescer em muito o número de mesquitas. São 2,1 mil na França, 2,6 mil na Alemanha e 1,2 mil na Grã-Bretanha. Entre os muçulmanos franceses e belgas, há um medo compartilhado: o de morrer em um atentado terrorista e o de ser cada vez mais discriminado pelos compatriotas. 

Vida cotidiana. Khalid Ben Issa, morador da periferia de Paris, conta que essa semana passou por um momento constrangedor. Ao levar sua esposa ao hospital para exames, ambos foram ofendidos por dois senhores no lobby do hospital. “Assassinos”, gritaram a Issa, ao ver sua mulher com o véu. 

Durante a semana, na Grande Mesquita de Paris, imãs de todo o país se reuniram para orar pelos mortos, condenar os ataques e deixar claro que os atentados não tinha qualquer base no Islã. Mas o temor entre os próprios líderes religiosos é de que aqueles que deveriam escutar a mensagem – os jovens – já não tenham as mesquitas como referências. 

Divididas por nacionalidades, muitas das mesquitas moderadas contam com imãs estrangeiros, que não conhecem a realidade da juventude europeia muçulmana e nem falam francês, alemão ou inglês. 

Com subempregos, o jovem da periferia não se vê como um cidadão pleno. “Se eu me sinto francês? Até gostaria. Mas o Estado parece não me querer”, disse Karim Abdel, um jovem de 19 anos nascido na França, que passa seus dias entre uma quadra esportiva no centro de Courcouronnes. Sobre sua escolaridade, ele é pessimista: “Estudar para quê?”. 

Dados oficiais apontam que 40% dos jovens muçulmanos franceses estão desempregados. Na Bélgica, a taxa chega a 50%. Sem pontos de referência, muitos se radicalizam, seduzidos por um discurso de ódio ao Ocidente que os desprezou. 

Governos europeus se defendem, com a justificativa de que um montante desproporcional dos benefícios sociais vão para muçulmanos. Na Dinamarca, 30% do seguro desemprego vai para essa população, que representa 7% da população local. Na Alemanha, 80% dos imigrantes de origem turca vivem com benefícios sociais de cerca de 487 euros por mês. Desse total, 70% é formado por famílias cujos filhos não terminaram a escola. 

Abdel, porém, insiste que não quer esmolas. “O que mais me deixa assustado é que vejo que meus amigos que estudaram estão praticamente na mesma situação minha”, disse. “Você acha que quando um francês com cara de árabe vai buscar um emprego ele tem alguma chance contra um monte de brancos?” 

Alienado. Um termômetro do fracasso da integração dessa população é o sistema de educação e a reação das crianças. Um estudo realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revelou que a nova geração dos jovens imigrantes na França e Bélgica a mais “alienada” entre os jovens de mais de 50 países examinados. Justamente os dois países de onde vieram a maioria dos terroristas que atacaram Paris. 

Apenas duas em cada cinco crianças imigrantes de primeira geração na França acham que têm lugar na escola. Na Bélgica, essa taxa é de três a cada cinco. Entre os imigrantes de segunda geração, o problema é ainda maior. Na França, apenas 39% das crianças se sentiam acolhidos em suas escolas. 

“Os sistemas de educação na França e na Bélgica são cegos para a diversidade”, disse Andreas Schleicher, diretor do Departamento de Educação da OCDE. “Trata-se de um sistema padrão. Todo estudante recebe o mesmo tratamento, eliminando os que são diferentes”, apontou. Um exemplo oposto é o do Canadá, onde escolas adaptam os programas às necessidades da comunidade local. 

Outra diferença em relação aos EUA é que, na França, raramente um professor tem origem estrangeira, o que cria um distanciamento ainda maior entre a escola e o imigrante. Os resultados acadêmicos, portanto, apenas espelham essa falta de acompanhamento. 

“Estudantes filhos de imigrantes tem um desempenho abaixo da média em matemática e leitura”, disse o autor do estudo. “O impacto é levado ao longo dos anos e transformado em oportunidades de trabalho diferenciadas entre quem é branco e europeu e quem é negro, muçulmano ou filho de estrangeiros.”

Bélgica. Na porta de um colégio público no bairro de maioria muçulmana de Molenbeek, em Bruxelas, a entrada dos alunos numa manhã chuvosa seria como a de qualquer outro estabelecimento escolar da Europa. Exceto pelo fato de que, nos 30 minutos em que a reportagem esteve no local, nenhuma menina chegou sem véu. 

Gilles Kepel, acadêmico francês, culpa os governos por jamais terem de fato garantido total reconhecimento dessa população. “Nem o sangue jorrado pelos muçulmanos lutando nas guerras europeias, nem a reconstrução da Europa por operários muçulmanos depois de 1945 fizeram de seus filhos cidadãos plenos”, disse. Hoje, são “cidadãos em teoria”. Mas nem socialmente se sentem locais, nem são vistos pelo restante da população como tendo os mesmos direitos.

O rabino Michel Serfaty, que presta serviços sociais em bairros pobres de Paris, admite que a falta de uma educação adequada está levando o país a profundas divisões. “Muita gente nesses bairros nunca ouviu falar no Holocausto”, disse. Uma de suas tarefas é a de montar grupos e levar a cada ano para uma visita a Auchwitz. A outra é a de convencer jovens a entender que eles são tão franceses quanto um judeu francês. 

Frustração. O discurso, porém, para na realidade econômica da população. Numa praça em Courcouronnes, onde viveu um dos terroristas – Ismael Mostefai – adolescentes e jovens não escondem que o assunto é como os ataques dificultarão ainda mais as chances de emprego. 

Parte dessa juventude encontrou um caminho alternativo nos esportes, principalmente no futebol. Hoje, as seleções da Bélgica e da França são a transposição de garotos da periferias ao status de estrelas. 

Mas uma imensa maioria simplesmente se sente abandonada. Pesquisas revelam que o bem-estar psicológico de uma crianças imigrante é afetado não apenas pelas diferenças entre o seu país de origem e a França, mas também por como escolas e comunidades os ajudam a superar as dificuldades de ser estrangeiro e construir uma nova vida. “A forma pela qual escolas respondem à imigração tem um impacto profundo na sociedade”, apontou Andreas Schleicher, da OCDE.

Um estudo do Centro de Ciências Sociais de Berlim revela que, diante dessas condições, o fundamentalismo na Europa é mais amplo que as autoridades imaginavam e a mudança de lealdade entre gerações é nítida. Numa pesquisa com 9 mil pessoas, dois terços apontaram que a religião é hoje mais importante que as leis nacionais. 

Ahmed, um taxista de 56 anos e filho de argelinos, conta que essa mudança entre gerações é um fato. Ele nasceu no bairro belga de Molenbeek, berço também de alguns dos terroristas de Paris. “Era um dos locais mais calmos do mundo. Nossos pais, estrangeiros, faziam o que podiam para nos criar e garantir que fôssemos para a escola e universidade. Esse era o único sonho deles”, disse. “Agora vamos todos sofrer.”

O prefeito da cidade francesa de Chartre, Jean Claude Gorges, admite que a administração europeia não fez o suficiente para evitar a criação de guetos e que o que se vive hoje é o resultado de 30 anos de uma polícia equivocada. “Os apartamentos sociais acabaram em grande parte nas mãos de imigrantes. Mas nosso erro foi colocar todos no mesmo local”, contou. Ele não nega que a criação de um grupo desconectado do próprio Estado francês é hoje perpetuado pela própria classe política. 

“Agora, quando tentamos mudar, muitos prefeitos temem que a população local ache ruim ter um estrangeiro como vizinho.”

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