"Nós o pegamos", comemoram os EUA a prisão de Saddam

"Senhoras e senhores, nós o pegamos". Com esta frase, o administrador norte-americano no Iraque, decretou o fim de uma intensa busca de quase nove meses, desde que os EUA lançaram a guerra contra o país do Golfo Pérsico em 20 de março. Humilhado e abatido, com barba e cabeleira de várias meses, Saddam Hussein, de 66 anos, o homem que governou o Iraque com mão de ferro desde 1979, foi retirado no sábado de seu esconderijo - um buraco coberto por tijolos e lixo, com um duto de ventilação, no qual cabia apenas uma pessoa. Outras duas pessoas foram detidas na operação.No refúgio, localizado num pequeno armazém numa área rural de Al-Daour - a poucos quilômetros de Tikrit, cidade natal e principal reduto de resistência do ex-ditador -, foram encontrados também uma manta de espuma, um tapete, US$ 750 mil, dois fuzis Kalashnikov e uma pistola. As armas não chegaram a ser usadas. Apesar de ter prometido aos iraquianos morrer lutando no Iraque e preservar a honra de seu povo, o homem que gostava de comparar-se a Saladino, o libertador de Jerusalém, e ao imperador da Babilônia Nabucodonosor deixou-se prender sem resistência. "Era a imagem de uma homem cansado e resignado com a própria sorte", descreveu o comandante das forças norte-americanas no Iraque, general Ricardo Sánchez. Ainda segundo ele, o ditador, acusado de esmagar sem piedade adversários políticos e massacrar civis curdos e xiitas, converteu-se rapidamente num "prisioneiro loquaz e cooperativo".Pena de morteO futuro de Saddam deve ser um julgamento no Iraque, por um tribunal especial estabelecido nas últimas semanas. A expectativa de membros do Conselho de Governo Iraquiano, formado em sua maioria por políticos perseguidos por Saddam e representantes curdos e xiitas, é a de que o ex-ditador seja sentenciado à "centenas de penas de morte", pelas chacinas e outros crimes contra a humanidade."Ele foi capturado como um rato", disse o comandante da 4ª Divisão de Infantaria - responsável pela Operação Amanhecer Vermelho, que saiu em busca do ex-ditador -, general Raymond Odierno. "Quando se está no fundo de um buraco, ninguém é capaz de lutar. Não deixa de ser irônico que ele tenha passado tanto tempo em buracos como esse, depois de passar grande parte da vida nos palácios suntuosos que mandara construir".DelatorInformações fornecidas por um integrante de uma família próxima a Saddam foram essenciais para a captura do ex-ditador, afirmou Odierno. De acordo com o general, nos últimos dias, soldados norte-americanos interrogaram entre cinco e dez membros de clãs familiares que mantêm vínculos com Saddam. "Finalmente, obtivemos uma informação fundamental de um desses indivíduos, no sábado", afirmou Odierno, acrescentando que a operação, que mobilizou cerca de 600 soldados, foi "muito tranqüila". Até que a missão estivesse em fase de conclusão, os soldados não sabiam quem era o alvo da busca.O comandante disse também que Saddam foi levado para Bagdá após a captura, onde permaneceu por menos de uma hora. Dali, foi levado de helicóptero em direção do sul para um "local secreto e seguro". Segundo a rede de TV americana CBS, o ex-ditador teria sido levado para fora do Iraque.Poucas horas depois da captura, o Exército norte-americano divulgou uma gravação mostrando Saddam sendo submetido a exames médicos e coleta de material para testes de DNA - que mais tarde se revelaram positivos. Soldados fizeram a barba e cortaram o cabelo do prisioneiro, providência que exibiu ao mundo um Saddam envelhecido, assustado e de olhar distante - uma visão totalmente oposta ao líder desafiador e prepotente, que chegou ao poder com o apoio das agências de inteligência norte-americanas e assumiu o papel de inimigo "número 1" dos EUA desde a primeira Guerra do Golfo (entre 1990 e 1991) até os atentados de 11 de setembro de 2001 - quando passou a dividir essa posição com o terrorista saudita Osama bin Laden.Saddam, por cuja captura o governo dos EUA oferecia uma recompensa de US$ 25 milhões (não foi esclarecido se alguém receberá a recompensa), foi o 42º dos 55 membros do regime deposto mais procurados pelos EUA capturados ou mortos, e o ás de espadas do baralho com as fotos dos foragidos distribuído pelo Pentágono. Entre esses procurados estavam os dois filhos mais velhos do ex-ditador, Uday e Qusay, mortos em julho.EsconderijosOdierno afirmou que Saddam tinha de 20 a 30 esconderijos como o encontrado sábado, espalhados por todo o país. "Ele se deslocava constantemente de um esconderijo para o outro e passava apenas poucas horas em cada um deles", disse o general. Um táxi amarelo e laranja estava estacionado nas proximidades do esconderijo em Al-Dour.Emissoras de rádio de Bagdá, controladas pelas forças norte-americanas, anunciaram a captura em tom de júbilo e alguns moradores da cidade fizeram disparos para o alto em comemoração. Mesmo assim, só pequenos grupos foram às ruas da capital para celebrar a notícia.Ricardo Sánchez ressaltou que ainda é cedo para estimar se a prisão do ex-ditador será suficiente para a redução das atividades da resistência iraquiana, que desde maio - quando o presidente George W. Bush declarou o fim da fase dos combates em grande escala da guerra - já causou a morte de quase 200 soldados norte-americanos no Iraque.O general afirmou que os interrogatórios a que Saddam será submetido se concentrarão justamente em temas relacionados à insurgência. A questão sobre os possíveis programas secretos para o desenvolvimento de armas químicas, biológicas e nucleares será deixada em segundo plano, disse Sánchez.Bush encantadoBush foi informado na tarde de sábado que as tropas norte-americanas tinham capturado alguém que podia ser Saddam, mas a identidade do prisioneiro ainda não podia ser estabelecida de forma definitiva. O presidente havia recebido um telefonema do secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, no fim da tarde, quase oito horas depois da captura. Rumsfeld disse que tinha recebido a informação sobre a possível prisão de Saddam do chefe do Comando Central norte-americano, general John Abizaid.O secretário, no entanto, alertara o presidente que "os relatórios nem sempre são precisos". A confirmação da prisão foi informada a Bush hoje às 5 horas de Washington (8 horas de Brasília), na residência de Camp David pela conselheira de Segurança Nacional, Condoleezza Rice. O presidente, que luta pela reeleição no ano que vem, destacou que a notícia transformava o domingo num "dia encantador". Na TV, no entanto, Bush admitiu que a violência no Iraque está longe do fim.» Veja a galeria de imagens

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