Nos protestos, ‘filhinhos de papai’ ou democratas?

Os estudantes venezuelanos dizem representar um anseio nacional por mudanças, descrevendo a si mesmos como os únicos corajosos o bastante para enfrentar um governo ditatorial. Denunciam a criminalidade, a escassez de alimentos e a suposta repressão do governo socialista contra os opositores. Depois de duas derrotas seguidas nas eleições presidenciais, muitos opositores se mostram pessimistas em relação à chance de uma rápida mudança. Eles estão desencantados com o fracasso das manifestações de rua contra Hugo Chávez, há mais de dez anos, após as quais ele expandiu sua influência política e econômica. Com a eleição presidencial marcada para 2019, líderes estudantis esperam que as manifestações ganhem força o bastante para obrigar Nicolás Maduro a renunciar.

CENÁRIO: Andrew Cawthorne / REUTERS,

17 de fevereiro de 2014 | 21h24

O governo os retrata como jovens ricos pouco representativos da população, meninos iludidos por políticos de direita com criminosos infiltrados entre eles. "Trata-se de um grupo de venezuelanos privilegiados, ‘filhos de papai’, que simplesmente não consegue aceitar o fato de ser uma minoria eleitoral", disse Roy Chaderton, enviado da Venezuela à Organização dos Estados Americanos.

Repórteres têm visto manifestações pacíficas descambarem para a violência quando uma minoria começa a destruir propriedades, arremessar pedras, bloquear ruas e provocar incêndios. "Não devemos chamá-los de estudantes. São bandos de fascistas", disse Maduro.

Grupos de defesa dos direitos humanos dizem ter recebido denúncias de tortura, mas manifestantes também se mostram frustrados com radicais entre os estudantes - alguns admitem recorrer à violência.

"Esse governo está armado até os dentes e detém todo o poder. Devemos permanecer de braços cruzados, bem comportados?", questionou um manifestante de 18 anos, enquanto pegava pedras num beco escuro em Altamira. "Se quisermos mudanças, a única maneira é confrontá-los", disse o jovem, que pediu para não ser identificado. A maioria, porém, se descreve como venezuelanos comuns que demonstram uma coragem que seus pais não tiveram.

"Meu pai trabalha num bar e não tem dinheiro para pagar meus estudos e, por isso, trabalho para me sustentar", disse Joseph Sandoval, de 24 anos, que gasta 6 mil bolívares (US$ 950) em taxas por semestre. "Ninguém pode me chamar de filhinho de papai e o mesmo vale para a maioria de nós", disse, apontando para amigos na marcha.

Às vezes, os estudantes se mostram ansiosos para exibir seu inglês aos jornalistas estrangeiros ou tentam superar um ao outro com gritos de guerra criativos. "É preciso terapia para se viver na Venezuela", dizia o cartaz de um estudante de psicologia. "Maduro: a cárie da Venezuela", dizia o cartaz dos estudantes de odontologia. Alguns participam pela diversão ou até para paquerar. Outros, estão em busca de uma causa. As câmeras estão por toda parte, com Twitter e Instagram retratando um pouco da agitação nas ruas.

Foram os líderes mais linha dura da oposição, como Leopoldo López, que incentivaram os estudantes a irem às ruas, mas agora que ele é acusado de assassinato e terrorismo, os líderes estudantis parecem ter assumido a iniciativa. Alguns venezuelanos mais velhos estão participando das marchas, embora sejam minoria. "Estou aqui em razão de minha filha. Mas onde estão todos os outros pais e mães?", disse Belkis Gamboa, de 47 anos, protestando ao lado da filha.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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