''Nós quebramos a barreira do medo''

Protestos no Egito e Tunísia encorajaram movimento contra Kadafi, afirma Salah Khalifa, porta-voz de rebeldes

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2011 | 00h00

O "fim do medo", em explicação dada pelo porta-voz dos insurgentes da cidade de Nalud, Salah Khalifa, foi a razão de o levante armado ter contagiado o interior da Líbia. O Estado teve a oportunidade de conviver com os militantes que tomaram as cidades de Nalud, Jadou e Az Zintan. Sem qualquer moderação em suas declarações, Khalifa prevê a criação de uma Assembleia Constituinte após a queda do regime de Kadafi. "Nós, líbios, precisamos de eleições. O Ocidente não precisa temer", afirma.

Qual é a razão da mobilização na região de Nalud?

Estamos cansados desse regime. Não há saúde, não há educação, não há nada. Para todos os lados que olhamos, na Tunísia, no Egito, vemos revolucionários. Fomos encorajados. Nós quebramos a barreira do medo.

Há conexão entre o movimento de Nalud e o de outras cidades?

Os movimentos surgiram espontaneamente e crescem da mesma forma. Mas é claro que há organização, para nos tornarmos mais fortes contra o regime. Há dois momentos de coordenação. O primeiro foi no início, quando começamos a agir juntos, uns em solidariedade aos outros. O segundo é agora, quando estamos nos organizando para a tomada de Trípoli. Estamos esperando as tropas que vêm do leste, com tanques. Quando eles chegarem a Tarhuna, vamos partir de nossa região.

Qual é a principal intenção do movimento?

Derrubar o regime e dar início a um processo constitucional. Por decisão de Kadafi, a Líbia não tem uma Constituição.

Com eleições democráticas ou com um novo líder?

Com eleições. Nós, líbios, precisamos de eleições. O Ocidente não precisa temer. Temos conhecimento sobre a sociedade e a cultura da Líbia. Sabemos como o país se organiza. Temos conhecimento sobre as minorias, sobre suas diferenças culturais.

Este é um movimento religioso ou político?

Queremos uma constituição para sermos orientados por ela, com um Estado que a respeite. A motivação é política. As pessoas estão lutando por seus direitos. Temos uma religião, mas nossa motivação é política.

Vocês têm em mente um Estado laico ou teocrático?

Seria muito difícil ter um Estado teocrático na Líbia. Acredito que o próximo Estado será aberto à prática de outras religiões, como o Cristianismo.

A Líbia é formada por inúmeras tribos - pequenas sociedades, que têm até línguas próprias. Como pretendem formar um verdadeiro país?

Esse é o argumento que Kadafi tenta passar ao resto do país e ao exterior. A ideia de que somos tribos diferentes, com culturas diferentes e interesses contrários. Não é verdade. Basta ver este momento. Todos estão em um único movimento para derrubar o regime. Não há obstáculos para trabalharmos juntos e buscarmos algo em comum.

O movimento tem algum líder?

Sim, há um líder. Mas ele segue escondido e tudo é decidido a partir de consultas a ele. Seria muito estúpido expor nosso líder nesse momento, quando ainda não sabemos os desdobramentos dos fatos.

Este líder tem ambição política?

Sim, felizmente sim. Ele pretende ter um papel político.

Vocês estão informados de que houve protestos em várias capitais do Oriente Médio e do mundo árabe em favor da Líbia?

Sim. Mas a Líbia é um pouco diferente dos outros países. Na Líbia não se trata mais de uma revolução. É um levante popular que vem sendo reprimido de forma violenta. As pessoas têm sido mortas brutalmente. Decidimos pela revolta mesmo sem a proteção de um Exército forte, como na Tunísia ou no Egito.

No Egito e na Tunísia, os movimentos tiveram origem popular, mas com manifestações pacíficas. Por que na Líbia é essencial que o movimento seja armado?

Há mercenários e um regime duro. Não há Forças Armadas para defender o povo. No princípio foi um movimento pacífico, mas o regime começou a usar máquinas de guerra, como artilharia aérea. Cada um precisou pegar em armas para defender a si próprio.

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