''Nós sempre protegemos a oposição da Tunísia''

Ministra de Sarkozy visita Brasil para falar de G-20 e caças Rafale; em Paris, oposição denuncia laços da chanceler com Ben Ali

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2011 | 00h00

A chanceler francesa, Michèle Alliot-Marie, desembarca amanhã no Brasil com uma agenda cheia: tratará das desavenças entre Paris e Brasília no G-20 - cuja presidência rotativa está com o governo francês -, tentará reverter a maré contra o caça Mirage no governo Dilma Rousseff e reforçará a mensagem de que o presidente Nicolas Sarkozy é um entusiasta do novo papel do Brasil no mundo.

A viagem à distante América Latina vem em boa hora para Michèle. Política conservadora do partido de Sarkozy, a União por um Movimento Popular (UMP), a ministra viu-se num embaraçoso escândalo por causa de seus laços com o clã do ex-ditador tunisiano Zine el-Abidine Ben Ali. Enquanto os ventos da democracia sopravam na Tunísia, ela viajou pelo país em um jatinho de um empresário ligado ao ditador. A bordo da aeronave, seus nonagenários pais teriam ainda fechado um lucrativo acordo, revelou na semana passada o jornal satírico Canard Enchaîné. E ela teve uma conversa telefônica com Ben Ali enquanto ele reprimia manifestações pacíficas. A ministra concordou em conceder uma entrevista por e-mail ao Estado na quinta-feira. Mas com uma condição: é proibido falar sobre "viagens pessoais".

Analistas dizem que o G-20 está dando lugar a um "G-Zero": sem a urgência da crise financeira, diferenças de valores e visões entre os "20 grandes" estão impedindo qualquer ação conjunta - de temas como coordenação de políticas macroeconômicas à luta ambiental. Como a sra. vê esse "vazio" na governança global?

O mundo do século 21 precisa de instituições adaptadas, por isso apoiamos a recente reforma dos organismos financeiros internacionais. Um dos resultados dessa mudança foi que os quatro Bric - incluindo o Brasil - passaram a estar entre os dez maiores acionistas do FMI. Hoje passamos a um G-20 de construção, são necessárias reformas estruturais para torná-lo uma instituição de fato.

O Brasil - assim como os EUA - opõe-se à proposta francesa de adotar, no G-20, medidas para controle de preços de matérias-primas agrícolas.

Jamais fizemos proposta alguma de controle de preços! Não seria realista. Não somos contra o mercado, somos contra o mercado sem regras. A volatilidade dos preços de matérias-primas agrícolas é uma catástrofe para os consumidores quando os preços sobem, e para os produtores quando o valor baixa. Mesmo com os preços em alta, muitas vezes quem se beneficia não são os produtores, mas os especuladores.

Com Lula, praticamente já estava tomada a decisão pelo Rafale francês, em detrimento do F-18 americano e do Gripen sueco. Agora, com Dilma, a coisa não parece tão certa. Como a sra. vê essa concorrência e a posição do governo brasileiro?

A presidente Dilma Rousseff acabou de tomar posse. É normal que ela leve tempo para sua decisão. Construímos uma relação de confiança com nossos parceiros brasileiros. Sabemos ter paciência e confiamos nas vantagens da nossa proposta.

O Brasil precisa renovar sua frota de aviões de caça e deseja adquirir o conhecimento que o permita, no médio prazo, construir seus próprios aviões com total autonomia. Só a nossa proposta garante 100% esse plano. É consenso entre todos os especialistas: o Rafale é excelente. É uma aeronave polivalente, que mostrou seu valor em operações reais. Eu mesma já voei num deles e posso confirmar.

Assumimos o compromisso de transferir toda tecnologia. Isso dará ao Brasil a capacidade de desenvolver um avião de caça de última geração, o que nenhum concorrente fez. Além disso, a Força Aérea Brasileira (FAB) conhece nossos aviões, pois já tem o Mirage 2000.

O presidente Sarkozy apoia a candidatura brasileira a um assento permanente no Conselho de Segurança (CS) na ONU. Para a França, quem deveria compor o Conselho e como o poder de veto deveria ser distribuído?

O Brasil deve se tornar membro permanente do CS, sim. O compromisso do presidente Sarkozy nessa questão é pleno. Na última Cúpula da União Africana, ele conclamou a Assembleia-Geral da ONU para que avanços concretos sejam realizados este ano. Creio que a mesma mensagem foi dada pelo ministro (Antônio) Patriota após recente reunião do G-4.

Apoiamos a candidatura do Brasil há anos, como a da Alemanha, Índia e Japão, além de uma presença africana. Não me parece que outros membros do Conselho tenham defendido tanto, e tão claramente, isso.

A França sempre teve excelentes relações com os ditadores da Tunísia e Egito. Parte das armas utilizadas contra os manifestantes pró-democracia, por exemplo, era de origem francesa. Hoje a sra. se arrepende desse apoio?

Nenhum material de manutenção da ordem foi fornecido às autoridades tunisianas durante a "revolução do jasmim". Parece-me fundamental lembrar os princípios de nossa política externa, que consistem em não pretender decidir no lugar dos povos, mas sim apoiá-los, encorajá-los. Como podem dizer que a França não ajudou os defensores dos direitos humanos na Tunísia, quando ela recebeu e protegeu a quase totalidade da oposição do país - o que nos valeu muitas críticas por parte das então de Túnis à época? Eu mesma lamentei publicamente a violência e condenei o uso desproporcional da força na repressão dos protestos. E, para isso, não esperei a saída de Ben Ali.

Seja onde for, os povos têm de poder protestar por seus direitos, suas ideias e suas aspirações por mais liberdades e democracia, em toda segurança. Essa é foi nossa mensagem durante os acontecimentos na Tunísia e no Egito.

A democracia no mundo árabe é inevitável - e desejável?

Se houve algo constante na política da França, sem dúvida foi sua disposição para o diálogo com todos os povos. O advento da democracia é fundamental no mundo árabe, como em qualquer outra região. Naturalmente, é desejável que essas transições aconteçam rapidamente e sem violência. Apoiamos as reivindicações legítimas dos povos árabes por democracia e respeito aos direitos humanos, e afirmamos também que cabe a eles definir os caminhos e os meios.

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