Drew Angerer/Getty Images/AFP
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump Drew Angerer/Getty Images/AFP

'Nós agimos na última noite para parar uma guerra, não começar uma', diz Trump

O presidente americano disse que o general iraniano Qassim Suleimani era o 'terrorista número 1 do mundo'

Marcela Guimarães e Tiago Aguiar, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2020 | 18h47

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta sexta-feira, 3, que os ataques americanos contra forças do Quds, unidade especial da Guarda Revolucionária do Irã, que mataram o general iraniano Qassim Suleimani,  tiveram o objetivo de impedir uma guerra, não iniciar uma. 

“O que os Estados Unidos fizeram ontem deveria ter sido feito muito tempo atrás. Nós agimos na última noite para parar uma guerra, não começar uma”, afirmou Trump.

Durante coletiva de imprensa, o presidente americano disse que os EUA estão “prontos e preparados para atitudes necessárias” para proteger os americanos e que tem o melhor serviço de inteligência e os melhores militares “de longe”.

Segundo Trump, Sulemani era “o terrorista número 1 do mundo” e estava planejando ataques contra militares e diplomatas americanos na região do conflito. “Suleimani tem feito atos de terror para desestabilizar o Oriente Médio pelos últimos 20 anos.”, disse.

Trump lembrou dos ataques à embaixada americana em Bagdá no início desta semana e o da sexta-feira passada em que mais de 30 foguetes foram lançados contra uma base militar iraquiana, matando um empreiteiro a serviço dos EUA e ferindo quatro americanos e dois soldados iraquianos. O presidente atribuiu ambos à Suleimani e disse que suas operações contribuíram para conspirações terroristas em Nova Delhi e Londres.

Para Entender

Entenda os motivos da revolta contra os Estados Unidos no Iraque

Já complicadas, as relações entre Iraque, Irã e EUA agora estão bem mais tensas; saiba o que está em jogo

“Por anos a Guarda Revolucionária do Irã e suas forças cruéis sob a liderança de Suleimani feriu e matou centenas de americanos, civis e servidores” e continuou lembrando de outros episódios “hoje nós lembramos e honramos as vítimas de muitas atrocidades de Sulemani, e nós temos conforto em saber que o seu reino de terror acabou”.

Apesar de severas críticas a ações da Defesa iraniana,Trump ainda disse ter muito respeito à população iraniana.

Na manhã desta sexta, o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, prometeu vingança. "Sua partida (de Suleimani) não acaba com a sua missão e uma forte vingança aguarda os criminosos que têm seu sangue e o sangue dos outros mártires em suas mãos", disse o líder supremo em comunicado. Ele também anunciou que o posto de Suleimani será ocupado pelo brigadeiro-general Esmail Ghaan e que a Guarda irá permanecer "inalterada".  Até o momento, Ghaan era vice-comandante da força Al-Qods, responsável pelas operações estrangeiras do Irã.

 

Mais tarde, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã disse, pelo Twitter, que o assassinato de Qassim Suleimani como "o maior erro estratégico" dos EUA no oeste da Ásia e alertou que Washington não se livraria das consequências desse "erro de cálculo".

Depois da ação, a embaixada do país em Bagdá pediu a todos os cidadãos americanos que estão no Iraque para que saiam imediatamente do país.

 

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Líderes mundiais reagem a assassinato de general iraniano e pedem ‘calma’

Nações e organizações se dividem entre temos de 'escalada' do confronto no Oriente Médio e apoio aos EUA ou ao Irã

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2020 | 14h03

O assassinato do general iraniano Qassim Suleimani, figura-chave da influência da República Islâmica no Oriente Médio, morto em um ataque americano na madrugada desta sexta-feira, 3, em Bagdá, provocou preocupações em todo o mundo. Com pedidos de calma para evitar uma "escalada" das tensões entre Estados Unidos e Irã, enquanto Teerã promete represálias, alguns dos principais líderes mundiais se manifestaram ao longo desta manhã.

Confira abaixo: 

Iraque

O primeiro-ministro iraquiano Adel Abdel Mahdi estimou que o ataque americano "iniciaria uma guerra devastadora no Iraque". "O assassinato de um comandante militar iraquiano ocupando um posto oficial é uma agressão contra o Iraque, seu Estado, seu governo e seu povo", ressaltou.

Líbano

O líder do movimento xiita libanês Hezbollah, grande aliado do Irã, prometeu "a justa punição" aos "assassinos criminosos" responsáveis pela morte do general iraniano.

Palestina 

O movimento islâmico Hamas, no poder na Faixa de Gaza, condenou o ataque contra "o mártir" Qassim Suleimani, "um dos mais eminentes senhores iranianos da guerra", classificando sua morte como "crime americano que aumenta as tensões na região". 

Já o grupo armado Frente Popular de Libertação da Palestina (PFLP) pediu uma resposta "coordenada" das "forças de resistência" na região.

Rússia

A Rússia alertou para as consequências da operação "perigosa" americana, que resultará no "aumento das tensões na região", segundo seu ministério das Relações Exteriores. 

Para o presidente Vladimir Putin, o assassinato de Suleimani ameaça "seriamente agravar a situação" no Oriente Médio. 

Organização das Nações Unidas (ONU)

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, estimou que "o mundo não pode permitir uma nova guerra no Golfo", e apelou aos líderes para “fazerem prova de máxima contenção" neste momento de tensões.

União Europeia (UE)

O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, considerou que o "ciclo de violência, de provocações e de represálias deve cessar. Uma escalada deve ser evitada a todo custo".

O ministro das Relações Exteriores britânico, Dominic Raab, apelou a "todas as partes à desescalada".

"Sempre reconhecemos a ameaça agressiva da força iraniana Al-Qods liderada por Qassim Suleimani. Após sua morte, pedimos a todas as partes que diminuam a escala. Outro conflito não é de forma alguma do nosso interesse", declarou.

A França também considerou que "a escalada militar é sempre perigosa". "Nosso papel não é ficar de um lado ou de outro, é falar com todos", disse a secretária de Estado para os Assuntos Europeus, Amélie de Montchalin, assegurando que Paris procura criar "as condições para a paz em qualquer caso para a estabilidade".

China 

A China também expressou sua "preocupação" e pediu "calma" com a situação. "Pedimos a todas as partes envolvidas, principalmente aos Estados Unidos, que mantenham a calma e exercitem auto-controle para evitar novas tensões", disse um porta-voz da diplomacia, Geng Shuang.

Síria

O governo sírio denunciou uma "vergonhosa agressão americana", advertindo para uma "grave escalada" para o Oriente Médio, informou a agência oficial Sana.

O presidente Bashar al-Assad, apoiado militarmente por Teerã, assegurou que o "apoio do general Suleimani ao Exército sírio não será esquecido".

Iêmen

Os rebeldes iemenitas huthis, apoiados por Teerã, apelaram por meio da voz de Mohammed Ali al-Huthi, uma autoridade da direção política rebelde, a "represálias rápidas e diretas".

Israel

O primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu afirmou que Israel “Apoia os Estados Unidos em sua luta justa pela paz, segurança e autodefesa”.  / AFP

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Primeiro-ministro iraquiano teme 'guerra devastadora' em seu país

Adel Abdel Mahdi fala em agressão contra o Iraque enquanto o presidente do país, Barham Saleh, pede 'moderação'; nos EUA, democratas condenam atitude de Trump

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2020 | 11h09

O ataque dos Estados Unidos que matou o  general iraniano Qassim Suleimani nesta quinta-feira, 3, aumentou o temor citado por vários analistas há alguns meses: que o território do Iraque se transforme em um campo de batalha indireto para Irã e Estados Unidos. 

O presidente iraquiano Barham Saleh pediu "moderação" a todos, enquanto vários comandantes pró-Irã pediram aos combatentes que "estejam preparados" para responder ao ataque americano.

O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdel Mahdi, teme que o ataque provoque uma "guerra devastadora no Iraque". "É uma agressão contra o Iraque, seu Estado, seu governo e seu povo", afirmou Abdel Mahdi em um comunicado, ao mesmo tempo que o influente líder xiita iraquiano Moqtada Sadr anunciou a reativação de sua milícia anti-EUA, o Exército de Mehdi, e ordenou que seus combatentes fiquem preparados.

O grande aiatolá Ali Sistani, figura tutelar da política iraquiana, considerou o ataque americano "injustificável", enquanto seu representante na cidade sagrada xiita de Kerbala leu o sermão que denunciou "uma violação flagrante da soberania iraquiana". Centenas de fiéis gritaram "Não aos Estados Unidos".

Há vários anos o Iraque se encontra no meio do fogo cruzado entre seus dois grandes aliados: Estados Unidos e Irã.

Em 2003, ao derrubar o regime de Saddam Hussein, Washington passou a controlar as questões iraquianas. Mas Teerã e o movimento pró-Irã se infiltraram no sistema aplicado pelos americanos. 

As forças pró-Teerã acumularam um arsenal graças ao Irã, mas também ao longo de anos de combate junto com os americanos, em particular contra o Estado Islâmico.

Washington respondeu à ação contra sua embaixada, que fica no centro da ultraprotegida Zona Verde de Bagdá, assim como a semanas de ataques com foguetes contra seus diplomatas e soldados.

Para Entender

Entenda a influência do general Suleimani no Irã e no Oriente Médio

Militar morto em ataque a mando dos Estados Unidos era uma das principais lideranças do país asiático

"Os serviços de inteligência americanos seguiam Qasem (Soleimani) há muitos anos, mas nunca apertaram o gatilho. Ele sabia, mas não calculou até que ponto suas ameaças de criar outra crise de reféns na embaixada (em Bagdá) mudaria as coisas", explicou à AFP Ramzy Mardini, do 'Institut of Peace', recordando o trauma provocado nos Estados Unidos pela tomada de reféns na representação diplomática americana em Teerã em 1979.

"Trump mudou as regras ao eliminá-lo", disse.

Divisão política nos EUA

As consequências do assassinato de uma das figuras mais populares do Irã provocaram preocupação nos Estados Unidos e uma nova divisão entre democratas e republicanos, que apoiaram o ataque, a menos de um ano das eleições presidenciais nos Estados Unidos.

O Congresso americano não foi informado com antecedências sobre o ataque. Este bombardeio ameaça provocar "uma perigosa escalada da violência", advertiu a presidente da Câmara de Representantes, a democrata Nancy Pelosi.

O senador Bernie Sanders, pré-candidato do partido Democrata às eleições de 2020, condenou publicamente o ataque de Donald Trump, através de sua conta oficial no Twitter. "Quando eu votei contra a guerra do Iraque em 2002, temi que isso levasse a uma maior desestabilização daquela região. Esse medo infelizmente provou-se verdadeiro. Os EUA já perderam aproximadamente 4.500 soldados, dezenas de milhares foram feridos e nós gastamos trilhões [de dólares]", escreveu.

"A escalação perigosa de Trump nos deixa mais próximos de uma guerra desastrosa no Oriente Médio, que pode nos custar incontáveis vidas e mais trilhões de dólares. Trump prometeu terminar guerras intermináveis, mas essa ação nos coloca na direção de mais uma."

Joe Biden, vice-presidente de Barack Obama e também candidato democrata às eleições de 2020, publicou uma nota oficial em suas redes sobre o ataque, afirmando que o general Suleimani "apoiava o terror e o caos" e "merecia ser entregue à Justiça", mas que a estratégia de Trump "deve ser explicada ao povo norte-americano". 

"[...] O Irã certamente irá responder. Nós podemos estar à margem de um enorme conflito no Oriente Médio. Espero que essa administração tenha pensado nas consequências de segunda e terceira ordens do caminho que ela escolheu. Mas temo que ela não tenha demonstrado em nenhuma atitude a disciplina ou a visão de longo prazo necessária - e o risco não poderia ser maior."

O tom do pronunciamento de Biden foi similar ao da senadora democrata Elizabeth Warren, que também condenou as ações do general Suleimani, mas discordou da atitude tomada pelo atual presidente norte-americano. "Nossa prioridade deve ser evitar mais uma guerra custosa", escreveu.

   

Economia responde a conflito

As principais Bolsas do mundo operavam em queda nesta sexta-feira, enquanto as cotações do petróleo registravam alta.

O petróleo iraniano está submetido a sanções americanas e a crescente influência de Teerã no Iraque, o segundo maior produtor da Opep, gera o temor entre os especialistas de um isolamento diplomático e de sanções políticas e econômicas

Na praça Tahrir de Bagdá, epicentro dos protestos contra o governo e seu aliado Irã que abalam o país há mais de três meses, dezenas de iraquianos celebraram a morte do general Soleimani. O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, compartilhou um vídeo no Twitter de pessoas "dançando pela liberdade". / AFP

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Cinco perguntas sobre a crise entre EUA e Irã

Já complicadas, relações entre os dois países agora estão bem mais tensas; entenda o que está em jogo

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de janeiro de 2020 | 21h43
Atualizado 03 de janeiro de 2020 | 15h52

BAGDÁ - Há meses, protestos furiosos vêm tomando conta do Iraque, motivados pela frustração com uma economia disfuncional, a corrupção e a influência generalizada do Irã. E então um ataque com foguetes matou um empreiteiro americano a serviço dos Estados Unidos. Ataques aéreos lançados pelos americanos atingiram uma milícia iraquiana apoiada pelos iranianos e a ira destes voltou-se contra os Estados Unidos e com uma invasão da área onde fica o prédio da embaixada americana em Bagdá, na terça-feira. O levante culminou, nesta quinta-feira, 2, com  a morte do general iraniano Qassim Suleimani, responsável pelos assuntos iraquianos na Guarda Revolucionária do Irã, em um ataque da Força Aérea americana ao aeroporto de Bagdá, conforme anunciou a televisão pública iraquiana.

Os ataques aéreos e a invasão da embaixada constituem a pior crise enfrentada pelos Estados Unidos no Iraque depois de anos e que acabou enredando o país nos voláteis problemas internos envolvendo o Iraque e seu vizinho, o Irã.

Já complicadas, as relações entre Iraque, Irã e Estados Unidos agora estão bem mais tensas. 

1- O que ocorreu nestes últimos dias? 

A escalada da tensão entre EUA, Iraque e Irã, que terminou com a morte do general Suleimani nesta quinta-feira, 2, começou na sexta-feira da semana passada, 27, quando mais de 30 foguetes foram lançados contra uma base militar iraquiana perto de Kirkuk, ao norte do Iraque, matando um empreiteiro a serviço dos Estados Unidos e ferindo quatro americanos e dois soldados iraquianos.

Os Estados Unidos acusaram a milícia Kataib Hezbollah, financiada pelo Irã, de perpetrar o ataque. Um porta-voz da milícia negou envolvimento do grupo. O presidente Donald Trump responsabilizou o Irã pelo ataque, e no Twitter disse que “o Irã matou um empreiteiro americano e feriu muitos”.

O Exército americano lançou ataques aéreos contra a milícia durante o fim de semana passado, matando 25 membros do grupo, no que o secretário de Estado Mike Pompeo qualificou como “uma resposta decisiva”. Ele disse que os Estados Unidos não iriam "tolerar que a República Islâmica do Irã perpetre ações que colocam homens e mulheres americanos em risco”.

Estados Unidos e Irã estão em rota de colisão há anos – por causa da influência iraniana no Iraque, o programa nuclear do país e outros assuntos – e as tensões se intensificaram durante o governo de Donald Trump, que se retirou do acordo nuclear firmado em 2015 e impôs sanções devastadoras contra Teerã.

Mas os ataques aéreos ocorreram num momento particularmente explosivo no Iraque, onde a ira contra a intromissão estrangeira já era intensa. O principal clérigo xiita do país, o Grande Aiatolá al-Husseini al-Sistani, advertiu que o Iraque não deve se tornar “um campo para acertos de contas internacionais”, e o primeiro ministro Adel Abdul-Mahdi qualificou os ataques aéreos de violação da soberania iraquiana.

Na terça-feira, 31, manifestantes invadiram área da embaixada dos Estados Unidos em Bagdá. Não entraram no edifício, mas a eles acabaram se juntando milhares de outros manifestantes – muitos deles membros de grupos de combate tecnicamente vigiados pelo Exército iraquiano, entoando o slogan “Morte à América”.

Trump acusou o Irã de “orquestrar” a invasão, acrescentando que “eles serão totalmente responsabilizados”.

Muitos dos manifestantes que invadiram a área da embaixada são membros do Kataib Hezbollah e outras milícias apoiadas pelo Irã. Embora o Irã tenha uma forte influência no Iraque, ele também tem sido alvo da ira popular e por vezes da violência por parte dos manifestantes iraquianos.

2 - Por que o Iraque está tão volátil recentemente?

Os enormes e às vezes violentos protestos irromperam no Iraque a partir de outubro, quando a população, enfurecida com o desemprego no país, a corrupção e os serviços públicos caóticos foi para as ruas. Durante 12 semanas, o governo buscou uma solução prometendo reformas, mas ao mesmo tempo reprimindo com força as manifestações. 

Mais de 500 pessoas foram mortas e 19 mil ficaram feridas nas revoltas, segundo o enviado especial das Nações Unidas. A violenta resposta do governo só intensificou a determinação dos manifestantes e os protestos aos poucos se expandiram para incluir queixas sobre a influência generalizada no Irã dentro do governo iraquiano.

Muitos manifestantes ligam a influência iraniana à corrupção dentro do governo e entre as milícias xiitas. Em novembro, os manifestantes atearam fogo no consulado iraniano em Najaf, cidade que fica ao sul do país, e durante semanas acamparam na frente da fortemente protegida Zona Verde de Bagdá, que abriga o Parlamento e o gabinete do primeiro ministro. No fim do mês, Abdul-Mahdi anunciou que renunciaria ao cargo. Desde então o governo iraquiano está no limbo, incapaz de escolher o seu sucessor.

3 - Como o Irã está envolvido nas milícias do Iraque?

Depois de anos competindo com os Estados Unidos pela influência sobre o Iraque, o Irã se tornou uma força agressiva e poderosa na vida iraquiana. O Irã tem uma influência poderosa no governo, nos negócios e na religião iraquianos. Partidos ligados aos iranianos se tornaram uma força importante no Parlamento, especialmente a partir da saída do Exército americano do país em 2009. E quando o Estado Islâmico invadiu o Iraque em 2014, o Irã ajudou as milícias xiitas a combaterem o grupo, o que deu a Teerã poder de intervir na segurança do Iraque.

Quando as milícias e os Estados Unidos – na verdade combatendo do mesmo lado – expulsaram o Estado Islâmico do território que o grupo controlava dentro do Iraque, as milícias ficaram mais influentes. E controlam facções poderosas no Parlamento e no Exército, embora algumas tenham se tornado grupos mafiosos que usam a extorsão dos iraquianos para se beneficiarem financeiramente.

Algumas milícias atacaram também bases americanas onde americanos estão estacionados. O clérigo populista Muqtaba al-Sadr, que tem defendido a saída de Estados Unidos e Irã do Iraque, insistiu para essas milícias pararem com “ações irresponsáveis”.

O Kataib Hezzbollah, grupo acusado pelo ataque com foguetes na sexta-feira, tem vínculos estreitos com o Irã, mas para muitos iraquianos ele é a principal força iraquiana. É um movimento separado do Hezbollah do Líbano, apesar de os dois grupos serem financiados pelo Irã e se oporem aos Estados Unidos. O Departamento de Estado qualifica os dois grupos como organizações terroristas.

O Kataib Hezbollah prometeu uma “retaliação” pelos ataques aéreos, mas sem dar mais detalhes. O ministério do Exterior do Iraque declarou que os Estados Unidos “devem assumir total responsabilidade pelas consequências desta ação ilegal”.

4 - E quanto à presença dos Estados Unidos no Iraque?

Os Estados Unidos têm 5.200 soldados no Iraque e um número variável de empreiteiros a serviço do governo americano. Grande parte dos soldados está estacionada na base a noroeste de Bagdá e em outra base ao norte, região controlada pelos curdos.

A área da embaixada em Bagdá, que foi aberta em 2009, com 42 hectares de terreno, é quase tão grande quanto a Cidade do Vaticano. A embaixada e o consulado americano em Irbil, ao norte do Iraque, têm no total 486 funcionários, a maioria baseada em Bagdá.

Após a invasão na terça-feira, o Pentágono enviou mais 120 marines para Bagdá. No fim do mesmo dia, o secretário da Defesa Mark Esper anunciou que 750 soldados seriam mobilizados para a região.

A presença americana no Iraque diminuiu drasticamente a partir do seu auge, durante e imediatamente após a Guerra do Iraque. Havia 16 mil pessoas trabalhando no complexo da embaixada em 2012 e 170 mil soldados no Iraque em 2007. Em meio à crescente tensão com o Irã este ano, o Departamento de Estado ordenou a alguns diplomatas para deixarem a embaixada.

5 - O que vem ocorrendo no Irã?

Além da agitação regional, o Irã também vem enfrentando os piores tumultos em décadas. Os protestos no país começaram em novembro após um repentino aumento dos preços da gasolina e se transformaram depois em manifestações contra os líderes do governo iraniano e a maneira como vêm fazendo frente às sanções americanas, uma economia cambaleante e a ira dos vizinhos no Iraque e no Líbano.

Milhares de pessoas participaram das manifestações de protesto, muitas de cidades com grande população de baixa renda e operária, mas as forças de segurança iranianas esmagaram os protestos matando até 450 pessoas, segundo grupos de direitos humanos. O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, justificou a dura repressão afirmando que se tratava de um complô coordenado por inimigos do Irã, dentro e fora do país. / Tradução de Terezinha Martino

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Quem era Qassem Suleimani, general da Guarda Revolucionária do Irã

De baixa estatura e comportamento silencioso, o homem grisalho de 62 anos conseguiu costurar importantes alianças dentro - e até mesmo fora - do Oriente Médio; veja o perfil

Adam Taylor, Washington Post

03 de janeiro de 2020 | 04h29

Apesar de sua baixa estatura e comportamento silencioso, Qassim Suleimani foi considerado um dos militares mais infames no Oriente Médio pelos Estados Unidos e seus aliados. Como comandante da Guarda Revolucionária do Irã, o homem grisalho de 62 anos assumiu a responsabilidade pelas operações clandestinas do país no exterior, estendendo silenciosamente o alcance militar do Irã em conflitos estrangeiros como os da Síria e do Iraque.

No processo, ele ganhou um status quase mítico entre seus inimigos e uma enorme idolatria por seus partidários iranianos. Analistas se queixaram de que Suleimani tinha mais influência diplomática do que o ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, e ponderaram se ele iria, eventualmente, buscar um cargo político importante.

Alguns o compararam a Karla, o fanático e fictício mestre de espionagem soviético dos romances de John LeCarré durante a Guerra Fria. Sua história terminou nesta quinta-feira, 02, após um ataque dos Estados Unidos perto do aeroporto de Bagdá.

A morte de Suleimani encerra uma carreira que começou nos primeiros dias após a revolução de 1979 e que ajudou a moldar a república islâmica que a seguiu. "Mais do que qualquer outra pessoa, Suleimani foi responsável pela criação de um arco de influência - chamado pelo Irã de 'Eixo da Resistência' -, que se estende do Golfo de Omã até Iraque, Síria e Líbano, e chega nas costas orientais do Mar Mediterrâneo", escreveu Ali Soufan, ex-agente do FBI e analista de segurança nacional, em um perfil publicado em 2018.

Jovem de uma família pobre do sudeste montanhoso do Irã, Suleimani se juntou ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, um grupo que visava proteger a nova república e reforçar seus estritos objetivos ideológicos após a revolução de 1979. Durante a guerra com o vizinho Iraque, entre 1980 e 1988, o grupo ganhou poder político e econômico no país. Enquanto isso, a guerra sangrenta e brutal no Iraque também ajudou a moldar a personalidade de Suleimani.

Embora estivesse apenas na casa dos 20 anos, ele empreendeu missões atrás das linhas inimigas, o tipo de guerra irregular que um dia se tornaria o cartão de visita da Guarda Revolucionária do Irã. Ele também encontrou aliados entre a maioria xiita do Iraque, que posteriormente apoiaram o Irã contra a ditadura sunita de Saddam Hussein.

No final dos anos 90, Suleimani recebeu o controle da Guarda da Revolução do Irã e passou a se dedicar aos assuntos externos. E embora o grupo tenha uma longa história de bons relacionamentos na região, ajudando a estabelecer o Hezbollah no Líbano durante o início dos anos 80, foi sob a vigilância de Suleimani que ele conseguiu expandir ainda mais a sua influência no Oriente Médio.

Quando a invasão do Iraque pelos Estados e seus aliados expulsaram Saddam, a Guarda Revolucionária começou a ajudar as milícias iranianas no país, enquanto lutavam contra as tropas americanas. Uma estimativa recente do Pentágono argumentou que as forças pró-iranianas mataram pelo menos 608 soldados dos Estados Unidos no Iraque entre 2003 e 2011.

Mais tarde, a guerra civil síria viu uma intervenção maciça da Guarda Revolucionária, ao influenciar a batalha a favor de Bashar al-Assad, líder regional aliado de Teerã. No entanto, apesar de a influência de Suleimani ter sido mais sentida no Oriente Médio, suas ambições práticas não estavam vinculadas apenas ao território.

A Guarda também estava ligada a conspirações na Ásia e na América Latina. Em 2011, o grupo se envolveu em uma tentativa frustrada de assassinar o embaixador da Arábia Saudita nos Estados Unidos, em um restaurante italiano em Georgetown.

Depois que o presidente Donald Trump retirou os Estados Unidos do acordo nuclear feito em 2015 pelo Irã e outras potências mundiais, a Guarda Revolucionária se viu no centro de uma crescente tensão com o país. No Iraque, milícias xiitas usualmente assediavam as tropas americanas no país, disparando foguetes contra as bases utilizadas pelos soldados.

A situação ganhou novos rumos depois que um ataque no final de dezembro matou um empreiteiro americano. Em resposta, os Estados Unidos lançaram ataques aéreos contra bases ao longo da fronteira com a Síria, matando 25 milicianos e ferindo mais de 50. Como consequência, na véspera de ano-novo, milícias xiitas e seus apoiadores invadiram o complexo da Embaixada dos EUA em Bagdá.

Embora ninguém tenha sido morto no caos, Trump alertou que o Irã era o responsável pelo ato. "Eles serão totalmente responsabilizados", tuitou. O ataque aéreo da manhã de sexta-feira, 03, no fuso horário local, matou não apenas Suleimani, mas também Abu Mahdi al-Muhandis, um comandante da milícia iraquiana.

Analistas concordam que Suleimani era uma figura única e provavelmente insubstituível para o regime iraniano. Mas, após as notícias chocantes de sua morte, alguns se perguntaram qual seria a consequência de matar uma figura tão reverenciada na região. "A pressão para retaliar será imensa", observou em sua conta no Twitter Vali Nasr, especialista em Oriente Médio e professora da Universidade Johns Hopkins. Resta apenas esperar.

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Iranianos vão às ruas protestar após assassinato de general Qassem Suleimani

Dezenas de milhares de cidadãos estão ocupando as vias públicas do Teerã contra os "crimes" dos Estados Unidos

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de janeiro de 2020 | 09h41

TEERÃ - Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Teerã nesta sexta-feira, 3, para protestar contra os "crimes" dos Estados Unidos, após o país ter reivindicado a autoria dos bombardeios que mataram o general Qassim Suleimani, em um aeroporto de Bagdá. Nas fotos, é possível ver iranianos queimando as bandeiras dos EUA e de Israel.

Com frases como "Morte aos Estados Unidos" e cartazes com a foto do general, os manifestantes lotaram as ruas ao longo de vários quarteirões no centro da capital iraniana depois das orações desta sexta. Mais cedo, o presidente, o ministro das Relações Exteriores e o Líder Supremo deram declarações de pesar e ameaças contra os EUA. O bombardeio foi classificado como um “ato de terrorismo” e “violação à soberania” do País. 

“Sem dúvida, o Irã e outros países que buscam a liberdade na região, se vingarão”, afirmou o presidente iraniano Hassan Rohani

Enquanto isso, o Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, declarou: “Todos os inimigos devem saber que a resistência jihad continuará com uma motivação dobrada, e uma vitória definitiva dos combatentes na guerra santa ainda é esperada”. 

Na manhã desta sexta, Khamenei anunciou que o brigadeiro-general Esmail Ghaan ocupará o posto deixado por Suleimani e que a Guarda irá permanecer "inalterada". Até o momento, ele era vice-comandante da força Al-Qods, responsável pelas operações estrangeiras do Irã. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

 

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Irã condena ataque que matou general Qassem Suleimani e diz que países vizinhos 'se vingarão'

O presidente, o ministro das Relações Exteriores e o Líder Supremo do país, deram declarações de pesar e ameaça; figuras de alto escalão do governo estão reunidas para decidir os próximos passos

Redação, O Estado de S. Paulo

03 de janeiro de 2020 | 05h46

O ministro das Relações Exteriores do Irã disse nesta sexta-feira, 03, que o ataque dos Estados Unidos perto do aeroporto de Bagdá foi um 'ato de terrorismo'. Entre as vítimas da ação, está o general Qassim Suleimani, comandante da Guarda Revolucionária do Irã. Os principais líderes do país também deram declarações de pesar e ameaças contra a ação, que deixou pelo menos nove mortos e foi classificada pelo governo iraniano como "ato de terrorismo".

Mohammad Javad Zarif, ministro das Relações Exteriores, disse em comunicado que o ataque "sem dúvidas foi um ato de terrorismo de Estado" e uma "violação da soberania do Irã". "Talvez a ação dos Estados Unidos tenha sido uma reposta à dor que esse grande homem lhes infligiu", disse, em menção a um relatório feito pelo FBI anos atrás e que credita ao general Suleimani a morte de ao menos 600 soldados norte-americanos.

Zarif complementou dizendo que "o assassinato deixará o povo do Irã ainda mais unido", ao mesmo tempo em que também "tornará as políticas dos Estados Unidos mais escandalosas e menos eficazes do que antes". Antes, ele já havia demonstrado sua consternação através de sua conta oficial no Twitter, afirmando que o "ato de terrorismo internacional dos Estados Unidos, que visou o assassinato do General Suleimani - o mais eficaz combatente contra o Estado Islâmico, o Al Nusra, a Al Qaeda, entre outros - é extremamente perigoso e uma escalada tola. Os EUA são responsáveis por todas as consequências de sua aventura desonesta".

 

Além dele, o presidente iraniano Hassan Rohani também disse em comunicado que "o martírio de Suleimani deixará o Irã mais decisivo para resistir ao expansionismo americano e defender nossos valores islâmicos. Sem dúvida, o Irã e outros países que buscam a liberdade na região, se vingarão".

Já o Líder Supremo do Irã Ali Khamenei, comentou na rede de televisão estatal do país que o assassinato do general e chefe da Guarda Revolucionária do Irã, não irá desmotivar a resistência jihad. "Todos os inimigos devem saber que a resistência jihad continuará com uma motivação dobrada, e uma vitória definitiva dos combatentes na guerra santa ainda é esperada". Ele também pediu três dias de luto oficial. 

Enquanto isso, o governo da Síria emitiu uma nota em que diz "condenar veementemente" a "traiçoeira agressão criminosa americana". O país também afirmou que vai continuar lutando "pelos líderes martirizados e pela resistência contra a interferência americana, nos assuntos dos países da região".

A decisão oficial sobre como o Irã vai reagir em relação ao ataque devem chegar ao conhecimento do público ainda nesta sexta. Segundo informações, membros da alta cúpula do país estão reunidos e conversando sobre quais medidas devem ser tomadas a partir de agora.

Segundo informações da AFP, o país convocou para a reunião um chefe da embaixada suíça, que representa os interesses dos Estados Unidos em Teerã. Ele somente deve ser acionado, no caso de ausência de relações diplomáticas entre os dois países. 

Suleimani foi morto durante uma ação da força aérea americana em um aeroporto em Bagdá. Ele era um dos militares mais poderosos do grupo, considerado terrorista pelos Estados Unidos e por Israel. O número 2 da milícia, Abu Mehdi Al-Muhandis, também morreu. A informação foi confirmada pelo Pentágono na quinta. O ataque ocorreu sob o comando do presidente americano, Donald Trump. / AP, AFP e EFE

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Análise: Morte de Suleinami é um ataque sísmico no Oriente Médio

Comandante da Guarda Revolucionária do Irã que morreu em ataque dos EUA dava suporte ao Hezbollah no Líbano, Iraque e Síria

Michael Doran, The New York Times

03 de janeiro de 2020 | 08h36

Mais do que qualquer outra operação militar americana desde a invasão do Iraque, o assassinato do general e comandante da Guarda Revolucionária do Irã, Qassim Suleimani, é um evento sísmico. As mortes de Osama bin Laden e Abu Bakr al-Baghdadi, os líderes da Al-Qaeda e do Estado Islâmico, foram certamente significativos e também foram em grande parte simbólicas, porque suas organizações foram destruídas. No entanto, o extermínio do arquiteto da campanha ativa de décadas da República Islâmica da violência contra os Estados Unidos e seus aliados, especialmente Israel, representa uma mudança tectônica na política do Oriente Médio.

Para ver o quão realmente significativa é a morte de Suleimani, ela ajuda a entender o jogo geopolítico ao qual ele se dedicou durante sua vida. No Líbano, ele transformou o Hezbollah em um poderoso estado dentro de um estado. Uma organização terrorista que recebe fundos, armas e ordens de Teerã, o Hezbollah possui hoje um arsenal de mísseis maior que o da maioria dos países da região. O surpreendente "sucesso" do grupo tem ajudado a consolidar a influência do Irã não apenas no Líbano, mas também em todo o mundo árabe.

Com base nessa experiência bem-sucedida, Suleimani passou a última década replicando o modelo do Hezbollah no Iraque, na Síria e no Iêmen, sustentando as milícias locais com armas de precisão e conhecimento tático de guerra. Na Síria, suas forças se aliaram à Rússia para sustentar o   regime de Bashar al-Assad, em um projeto que, na prática, significou expulsar mais de 10 milhões de pessoas de suas casas e matar mais de meio milhão. No Iraque, como vimos nos últimos dias, as milícias de Suleimani passaram por cima das instituições estatais legítimas. Eles chegaram ao poder depois de participar de uma insurgência, da qual ele era o arquiteto, contra as forças americanas e da coalizão. Centenas de soldados americanos perderam a vida com as armas que de Suleimani forneceu aos seus "procuradores" iraquianos.

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Militar morto em ataque a mando dos Estados Unidos era uma das principais lideranças do país asiático

O chefe da Guarda Revolucionária do Irã  construiu esse império de milícias, apostando que os EUA evitariam um confronto direto. Essa aposta certamente valeu a pena sob o presidente Barack Obama e até parecia ser uma aposta segura sob o presidente Trump, apesar de sua política declarada de "pressão máxima". 

Em setembro, Suleimani ordenou o ataque a um campo de petróleo da Arábia Saudita, um verdadeiro ato de guerra, que ficou sem resposta. Ele seguiu  orquestrando ofensivas contra os americanos usando suas milícias. O governo Trump, por sua vez, já havia dito claramente que atacar americanos era uma "linha vermelha". No entanto, Suleimani havia recebido ameaças de líderes americanos no passado. De novo, ele pensou que poderia "apagar" a linha vermelha de Trump.

Sua partida tornará o Irã muito mais fraco. Isso encorajará os rivais regionais do país ­- principalmente Israel e Arábia Saudita - a perseguir seus interesses estratégicos com mais veemência. Também vai instigar os manifestantes no Irã, Líbano e, principalmente, no Iraque, na esperança de que um dia eles tirem o controle de seus governos das garras da República Islâmica.

Em Washington, a decisão de matar Suleimani representa o final de uma estratégia de Obama para o Oriente Médio, que procurou realinhar os interesses americanos com os do Irã. A busca de Obama por um convivência pacífica com Teerã nunca se ajustou à realidade do caráter fundamental da República Islâmica e às ambições regionais. O presidente Trump, por outro lado, percebeu que o objetivo de Teerã era substituir a América como o principal ator no Oriente Médio.

Os Estados Unidos não têm escolha. Se o país quiser permanecer no Oriente Médio, terá de ter controle sobre o poder militar do Irã. Para um presidente eleito em uma plataforma de paz e prosperidade, enfrentar o Irã não foi uma decisão fácil de tomar. Sem dúvida, Trump prefere negociar com o Irã seu programa nuclear do que ordenar o assassinato de seu general mais famoso. Entretanto, o presidente percebeu que garantir a posição regional dos EUA exigia uma resposta forte e visível às escaladas cada vez mais comuns de Suleimani.

Contudo, essa resposta veio atrasada. Soube por meio de um ex-alto funcionário da Casa Branca e do Departamento de Defesa, que os Estados Unidos tiveram várias oportunidades passadas de matar Suleimani, mas sempre relutaram. Ficou provado que a indecisão não tornou o mundo mais seguro e só deu ao general morto mais tempo para construir seu império. 

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Já complicadas, as relações entre Iraque, Irã e EUA agora estão bem mais tensas; saiba o que está em jogo

Os críticos de Trump imediatamente o acusaram de provocar o Irã desnecessariamente, argumentando que o assassinato de Suleimani poderia levar o país à guerra. Esta é uma análise que ignora o fato de general iraniano já travar guerra contra os EUA e seus aliados há anos e estar diretamente envolvido no planejamento de ataques a aliados.

O mundo em que acordamos hoje, livre de seu terrorista mais bem-sucedido e mortal, é um lugar melhor. Em nenhum local esse pensamento é mais evidente do que em todo o Oriente Médio, onde cidadãos comuns têm postado vídeos em mídias sociais comemorando a morte do autor de tanta miséria. Todos devemos - mesmo aqueles entre nós que não se importam particularmente com o Sr. Trump - se juntar a eles e continuar a negar o legado do assassino anti-americano Suleimani.

Michael Doran é membro sênior do Instituto Hudson e autor de "Ike's Gamble: America's Rise to Dominace in the Middle East"

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Ataque dos Estados Unidos mata chefe da Guarda Revolucionária do Irã no Iraque

Pentágono confirmou que o General Qassim Suleimani, considerado terrorista no país e em Israel, foi morto pela força aérea americana; ação ocorre em meio a uma elevação na tensão entre EUA e Irã

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2020 | 23h04
Atualizado 06 de janeiro de 2020 | 10h49

BAGDÁ - O Pentágono confirmou nesta quinta-feira, 02, que um soldado da força aérea americana matou o general iraniano Qassim Suleimani, responsável pelos assuntos iraquianos na Guarda Revolucionária do Irã. Ele foi morto em um bombardeio no aeroporto de Bagdá, conforme anunciou ontem a televisão pública iraquiana. Um dos militares mais poderosos do grupo, ele era considerado terrorista pelos Estados Unidos e Israel.

Na manhã desta sexta, 3, o Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, anunciou que seu posto será ocupado pelo brigadeiro-general Esmail Ghaan e que a Guarda irá permanecer "inalterada". Até o momento, ele era vice-comandante da força Al-Qods, responsável pelas operações estrangeiras do Irã.  Em comunicado, Khamenei prometeu vingança. "Sua partida (de Suleimani) não acaba com a sua missão e uma forte vingança aguarda os criminosos que têm seu sangue e o sangue dos outros mártires em suas mãos", disse o líder supremo em comunicado.

"Esta ação teve como objetivo impedir futuros planos de ataque iranianos", afirmou o Pentágono em comunicado. "Por ordem do presidente, os militares dos Estados Unidos tomaram medidas defensivas decisivas para proteger os americanos que estão no exterior, matando Qassim Suleimani", conclui. Após a nota americana, a Guarda Revolucionária do Irã foi a público confirmar a morte de SuleimaniO anúncio foi feito em uma rede de televisão estatal e, de acordo com as forças de segurança iraquianas, pelo menos nove pessoas foram mortas durante o ataque.

     

Um oficial da Casa Branca que não quis se identificar disse que o ataque teria sido realizado por meio de drones. Já a rede de televisão do Irã afirma que a ação foi feita por meio de helicópteros. O governo dos Estados Unidos ainda não deu detalhes oficiais de como o ataque foi realizado.

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Militar morto em ataque a mando dos Estados Unidos era uma das principais lideranças do país asiático

Depois da ação, a embaixada do país em Bagdá pediu a todos os cidadãos americanos que estão no Iraque para que saiam imediatamente do país.

Logo após o comunicado, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump postou em seu perfil oficial no Twitter, uma imagem da bandeira norte americana, sem nenhum texto.

Minutos após o post de Trump, Mohsen Rezaei, um ex-comandante da Guarda Revolucionária do Irã prometeu vingar o ataque. "O General Qassim Suleimani, nosso mártir, se juntou aos seus outros irmãos mártires. Mas nós ainda iremos ter uma vingança vigorosa contra a América". Atualmente, Rezaei ocupa o cargo de secretário em um importante órgão do país. 

 

O ataque matou ainda outras cinco pessoas. Fontes das Forças de Mobilização Popular, uma coalizão de paramilitares identificados com o Irã, agora integrados ao Estado iraquiano, informaram à televisão estatal iraquiana que no ataque também morreu Abu Mehdi Al-Muhandis, número 2 da milícia. O chefe de relações públicas do grupo, Mohammed Ridha Jabri, também foi morto. Informações preliminares apontavam para um bombardeio localizado sobre dois veículos.

Em um vídeo publicado pelo secretário do Departamento de Estado Mike Pompeo em sua conta oficial no Twitter, é possível ver os soldados comemorando após a realização do ataque. No post, ele disse que eles estão "gratos que o general Suleimani não está mais aqui".

 

O bombardeio ocorre em meio a uma elevação na tensão entre Irã e EUA. No início da semana, a Embaixada americana em Bagdá foi alvo de milícias iraquianas pró-Irã, que chegaram a invadir parte do complexo e colocar fogo na recepção. O grupo recuou na quarta-feira, diante das ameaças do presidente americano, Donald Trump, de atacar o Irã, depois de a multidão atear fogo e quebrar câmeras de vigilância. Durante a ação, eles gritavam 'Morte à América'.

Irã classifica bombardeio como 'ato terrorista'

Em declaração oficial, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, classificou o bombardeio como "um ato de terrorismo de Estado" e uma "violação à soberania" do país. "Talvez a ação dos Estados Unidos tenha sido uma reposta à dor que esse grande homem lhes infligiu", disse, em referência a um relatório feito anos atrás pelo FBI e que credita a Suleimani a morte de ao menos 600 soldados norte-americanos.

O presidente iraniano Hassan Rohani também condenou o ataque coordenado por Trump, afirmando que "o martírio de Suleimani deixará o Irã mais decisivo para resistir ao expansionismo americano e defender nossos valores islâmicos. Sem dúvida, o Irã e outros países que buscam a liberdade na região, se vingarão". 

Ali Khamenei, Líder Supremo do Irã, comentou na rede de televisão estatal do país que o assassinato do general não irá desmotivar a resistência jihad. "Todos os inimigos devem saber que a resistência jihad continuará com uma motivação dobrada, e uma vitória definitiva dos combatentes na guerra santa ainda é esperada". Ele também pediu três dias de luto oficial.  

Escalada da tensão

Autoridades dos EUA afirmaram na sexta-feira passada que mais de 30 foguetes foram lançados contra uma base militar iraquiana perto de Kirkuk, ao norte do Iraque, matando um empreiteiro a serviço dos EUA e ferindo quatro americanos e dois soldados iraquianos.

Os EUA acusaram a milícia Kataib Hezbollah, financiada pelo Irã, de perpetrar o ataque. Um porta-voz da milícia negou envolvimento do grupo. Trump responsabilizou o Irã pelo ataque, e no Twitter disse que “o Irã matou um empreiteiro americano e feriu muitos”. Depois das primeiras ameaças, Trump afirmou que não queria guerra com Irã.

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Entenda os motivos da revolta contra os Estados Unidos no Iraque

Já complicadas, as relações entre Iraque, Irã e EUA agora estão bem mais tensas; saiba o que está em jogo

O Exército americano lançou ataques aéreos contra a milícia durante o fim de semana, matando 25 membros do grupo, no que o secretário de Estado Mike Pompeo qualificou como “uma resposta decisiva”. Ele disse que os EUA “não vão tolerar que a República Islâmica do Irã perpetre ações que colocam homens e mulheres americanos em risco”.

EUA e Irã estão em rota de colisão há anos - por causa da influência iraniana no Iraque, o programa nuclear do país e outros assuntos - e as tensões se intensificaram durante o governo de Donald Trump, que se retirou do acordo nuclear firmado em 2015 e impôs sanções devastadoras contra Teerã.

Mas os ataques aéreos ocorrem num momento particularmente explosivo no Iraque, onde a ira contra a intromissão estrangeira já era intensa. O principal clérigo xiita do país, o Grande Aiatolá al-Husseini al-Sistani, advertiu que o Iraque não deve se tornar “um campo para acertos de contas internacionais”, e o primeiro ministro Adel Abdul-Mahdi qualificou os ataques aéreos de violação da soberania iraquiana.

Muitos dos manifestantes que invadiram a área da embaixada são membros do Kataib Hezbollah e outras milícias apoiadas pelo Irã. Embora o Irã tenha uma forte influência no Iraque, ele também tem sido alvo da ira popular e por vezes da violência por parte dos manifestantes iraquianos. / AFP, AP e NYT

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