Baptistão/AE
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Nossa escada rolante quebrada

Os EUA estão gastando muito dinheiro no Afeganistão e cortando gastos importantes em casa, como em educação

Nicholas Kristof, The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2011 | 00h00

Os EUA sustentam escolas no Afeganistão porque sabemos que a educação é a maneira mais eficaz de construir um país. Mas não é que esquecemos essa lição em casa? Nos EUA, os orçamentos escolares estão sendo reduzidos, professores demitidos e programas de educação desmantelados. Meu velho colégio em Yamhill, Oregon, é emblemático dessa tendência. Houve somente 167 dias letivos no último ano escolar (180 era o número típico até a recessão bater) e a equipe foi reduzida em 9% nos últimos cinco anos.

No próximo ano, os alunos terão de pagar US$ 125 para integrar de um time. O jornal da escola foi fechado. As aulas de administração de empresa acabaram. O professor de música foi demitido. O tamanho das turmas aumentou - há mais de 40 alunos de espanhol no primeiro ano. "É como um lento e demorado sangramento, ver as coisas desaparecerem", diz a diretora Michelle Morrison.

A escola ainda tem bons professores, mas será que continuará assim com um salário anual inicial de US$ 33,6 mil? Numa zona rural como Yamhill, dependente da agricultura, a escola sempre foi uma escada rolante de oportunidade. Um de meus melhores amigos era Loren, filho de um pintor, que se tornou advogado. Esse é o papel que a educação desempenhava. Agora, a escada rolante está quebrada.

"A cada ano perguntamos: "O que podemos cortar? O que podemos reduzir?"", disse Steve Chiovaro, superintendente da escola. "Chegamos ao ponto em que começamos a matar a educação." Yamhill não está sozinha. O Centro de Política Educacional diz que 70% dos distritos escolares nacionais sofreram cortes de orçamento no último ano - e 84% já anteciparam cortes para o próximo ano.

Na educação superior, o mesmo drama. O soberbo sistema de universidades públicas da Califórnia sofreu os maiores cortes orçamentários da história. As mensalidades devem subir 20% este ano - colocando o ensino superior fora do alcance de alguns. Os perdedores imediatos são os estudantes. No longo prazo, será o país.

Claudia Goldin e Lawrence Katz, economistas de Harvard, dizem no livro The Race Between Education and Technology ("A corrida da educação contra a tecnologia", em tradução livre) que o principal fator para a ascensão dos EUA foi a educação em massa. A vantagem americana começou a erodir nos anos 70. Hoje, alguns países já nos superam.

Há grandes diferenças entre a pobreza na África e nos EUA, mas existe algo em comum: livrar-se dela é um trabalho difícil, mas o melhor jeito e por meio da educação. É fato que a crise financeira é real, mas os cortes cegos de orçamentos só agravam o problema. Como observou Derek Bock, ex-reitor de Harvard, "se você acha que a educação é cara, tente a ignorância".

Mesmo assim, continuamos gastando no Afeganistão e economizando em casa. Como é possível dobrarmos nosso orçamento militar desde o 11 de Setembro, restituir bilhões de dólares a companhias de petróleo, mas não investirmos no futuro de nossos filhos?

Às vezes, ouço pessoas defendendo os cortes com o argumento de que "a escola não é para todos", ou seja, que "a educação não é para os filhos de outras pessoas". Não consigo pensar em algum ponto de vista menos americano. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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