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Nossa guerra particular

O Brasil é o país que mais mata no mundo, embora seja o quinto em população, atrás da China, Índia, EUA e Indonésia

Adriana Carranca, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2016 | 05h00

O Brasil é o país que mais mata no mundo, embora seja o quinto em população, atrás da China, Índia, EUA e Indonésia. A violência deixou 278 mil mortos no país entre 2011 e 2015 – em números absolutos, é mais do que a guerra na Síria. Mais de 70% das mortes envolvem armas de fogo. Nós também exportamos violência. Investigações recentes tratam de negócios obscuros de uma empresa brasileira com um dos maiores traficantes de armas do mundo para abastecer os rebeldes nas linhas de combate no Iêmen. 

No encontro dos três Poderes, alardeado ontem pelo governo, para tratar do plano nacional de segurança pública, no entanto, o tema do controle interno de armas e a necessidade de dar maior transparência à fabricação de armamentos pelo Brasil, que abastece o crime organizado no país, além de trincheiras externas, não tiveram destaque (se é que foram discutidos). 

No lugar disso, o presidente Michel Temer anunciou R$ 788 milhões, além de um aporte do fundo de segurança pública, para a construção de mais penitenciárias, em um país que há pelo menos duas décadas está entre os que mais prendem no mundo. A população carcerária no Brasil dobrou nos últimos 15 anos, segundo dados do Ministério da Justiça divulgados em abril, colocando o país em 4.º lugar em número de presos, sem que isso tenha reduzido a violência ou trazido mais segurança.

Temer também garantiu mais armamento para as polícias e para a Força Nacional. As polícias brasileiras, a cargo dos governos estaduais, estão entre as que mais matam e morrem no mundo. 

Com os holofotes voltados para o País em ano de Olimpíadas e crise política, a imagem de um Brasil pacífico, com liberdade, tolerância e miscigenação vai sendo desmascarado. Na política externa, este cenário não condiz com a reputação do país que defende o diálogo e a diplomacia. 

“Mercadores da morte”, publicou o New York Times na segunda-feira. “Enquanto o Brasil atravessa uma das piores crises políticas e econômicas de sua memória viva, os brasileiros não podem ser culpados por estar distraídos. Mas há um assunto que os políticos do país – e os cidadãos – não estão discutindo, mesmo que isso tenha risco de manchar a reputação internacional do Brasil como um defensor da construção da paz e da diplomacia: uma indústria de armas sem controle e seu envolvimento em conflitos mundiais ao redor do globo”, dizia o artigo. 

Trata de uma investigação por promotores brasileiros, revelada em reportagem da agência Reuters, que apontou negócios da fabricante nacional de armas Forjas Taurus, a maior da América Latina, com Fares Mohammed Hassan Mana’a, um notório traficante de armas no Chifre da África. Segundo os promotores, dois executivos da empresa, agora afastados, transferiram um lote de oito mil armas para Mana’a em Djibuti, de onde foi desviado pelo estreito de Babelmândebe para abastecer as linhas de frente da guerra civil entre rebeldes houthis e o governo apoiado pela Arábia Saudita.

O comércio de armas para o Iêmen é alvo de sanções da ONU, assim como negociações com Mana’a, incluído em uma lista de pessoas banidas internacionalmente desde 2010, sob acusação de violar embargo de armas à Somália. Em janeiro do ano passado, Mana’a teria viajado ao Brasil com documentos falsos para uma visita à fábrica da Taurus. A empresa nega transgressões.

É um cenário que mancha a reputação do Brasil no mundo e pode afetar sua posição no cenário global, a começar pela participação em organismos ligados à ONU, como o Conselho de Direitos Humanos e as forças de paz. Se mantivermos essa linha, a próxima capa da britânica Economist pode ser o Cristo Redentor com uma arma na mão. O Brasil deve ratificar o Tratado Internacional de Armas e garantir maior transparência na fabricação, comércio e exportação do setor.

 

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