ROBERTO SIMON / ESTADÃO
ROBERTO SIMON / ESTADÃO

‘Nossa influência fundamental foi a Revolução Cubana’

Sobrinho de Salvador Allende, fundador do MIR e amigo de Fidel, Andrés prevê reformas políticas e econômicas na ilha após a morte do líder

Entrevista com

Andrés Pascal Allende, ex-secretário-geral do MIR

Marcelo Godoy e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S. Paulo

27 de novembro de 2016 | 05h00

Andrés Pascal Allende, de 73 anos, tem o nome ligado à história recente do continente. Sua mãe foi a deputada socialista Laura Allende Gossens, irmã de Salvador Allende, o presidente chileno que, cercado pelos tanques do exército, decidiu se matar no Palácio La Moneda, em 1973. Viveu a infância em Valparaíso, quando a casa do tio era frequentada no verão pelo poeta Pablo Neruda e pelo democrata-cristão Eduardo Frei Montalva, que presidiria o Chile de 1964 a 1970.

Em 1965, durante o governo de Frei, Andrés e outros jovens influenciados pela revolução cubana fundaram uma das mais famosas siglas da esquerda latino-americana: o Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR), que daria apoio crítico ao governo da União Popular de Allende. De 1974 a 1987, os anos mais duros da ditadura de Augusto Pinochet, Andrés foi secretário-geral do MIR e interlocutor de Fidel Castro. Ao Estado, disse crer em mudanças não só econômicas, mas também políticas em Cuba após Fidel.

O sr. respirava política em casa. Qual a influência em sua formação?

Obviamente, no caso de meu tio Salvador Allende, houve influência familiar. Desde criança o escutava em sua casa, sobretudo no verão, para onde íamos e onde conheci Pablo Neruda. Acompanhei-o várias vezes à Isla Nera, a casa de Neruda, e o mesmo se dava com Eduardo Frei Montalva, também amigo de meu tio naquele tempo. A casa de Allende era um lugar onde transitava muita gente ligada à política. Nós, os jovens, escutávamos as conversas. Mas nunca houve da parte dele esforço para nos influenciar. Pertenço a uma geração que começou a se incorporar à atividade política e social nos anos 60. Tínhamos uma visão diferente da de figuras como Allende, Frei e Neruda. Nossa influência fundamental foi a revolução cubana.

Como foi a relação com Cuba?

Os vínculos políticos mais fortes começam em 1969. Em 1971, eu e Miguel Enriquez (secretário-geral do MIR até ser morto em 1974 pelos militares chilenos) fomos convidados à Cuba. Conhecemos Fidel e estivemos vários dias conversando com ele, que nos contou sua experiência. A partir daí, o MIR teve uma relação estreita com Cuba.

Após o golpe Pinochet as relações com Cuba aumentaram?

Eu diria que houve uma mudança durante o governo da União Popular. Fidel mantinha relação política com Allende e seu governo. Mas a relação estreita dele era conosco. Quando veio ao Chile, por exemplo, e ficou quase um mês percorrendo o país, foi o MIR quem organizou grande parte de sua segurança. Havia uma confiança grande e viajamos à Cuba, como membros da direção do MIR. Compartilhávamos com Fidel o temor, o medo de que o processo da União Popular fosse enfrentado pela direita violentamente, com um golpe militar. Depois do golpe, a direção do MIR se manteve clandestina no Chile, começando a resistência. Nesse período, os cubanos nos deram um grande apoio. Muitos companheiros que foram para o exílio e suas famílias, como a minha, foram recebidos em Cuba. A direção exterior do MIR se estabeleceu na ilha e dali operamos. De Cuba também tivemos apoio para preparar o retorno de militantes ao Chile.

E como foi esse apoio? Militar, financeiro, logístico?

Primeiro havia apoio político à luta não só ao MIR, mas à toda esquerda contra a ditadura no Chile. Houve apoio nas relações com governos, como Vietnã, Coreia, RDA, Argélia. E apoio logístico para a construção de nossa rede para introduzir no Chile armamentos e outros recursos para a luta, além de ajuda no desenvolvimento de escolas político-militares para a luta irregular.

Manteve contato com brasileiros no Chile e em Cuba?

Após o golpe militar no Brasil, muitos brasileiros foram para o exílio no Chile. No caso do MIR, favorecemos a incorporação deles, como Ruy Mauro Marini (cientista social), que foi do comitê central do MIR. Eles ajudaram muito nossa formação teórica. Rui foi professor da escola de quadros do MIR. Outros companheiros foram Emir Sader e Marco Aurélio Garcia.

Cuba vai passar por transformações agora? O regime atual sobreviverá à morte de Fidel?

Cuba está num processo importante de transição em assuntos como a economia. Está se formando um mercado interno e se abre espaço para empreendimentos privados. Mas não creio de que morto Fidel, o regime cairá. Sem dúvida vão se produzir transformações. Isso pode levar, quem sabe, a mudanças na forma de governo e dentro do sistema político de governo também.

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