Zoubeir Souissi/Reuters
Zoubeir Souissi/Reuters

'Nosso filho morreu para libertar o povo'

Família de vendedor que ateou fogo ao corpo, mistura luto e orgulho ao lembrar a tragédia

Lourival Sant'Anna, enviado especial

16 de dezembro de 2011 | 22h00

TÚNIS - A família de Mohamed Bouazizi, o vendedor de frutas que se imolou há um ano, sonha com ele constantemente. Na noite do dia 30, sua meia-irmã Basma, de 16 anos, sonhou que ele estava vestido de branco e trazia um Alcorão. O livro estava iluminado e as letras saíam dele.

 

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Mohamed lhe disse: "Irmã Basma, fale para a mãe não se preocupar comigo. Eu estava na Líbia, nós esperamos e esperamos, e agora vou para a Síria. Eu não estou sozinho. Diga à mãe para rezar por mim e todos vocês rezem por nós". Na mão dele, conta Basma, estava escrito: "Allah-u-Akbar (Deus é grande). Não há outro Deus a não ser Alá e Maomé é seu mensageiro".

 

O verdadeiro nome de Bouazizi era Tarek bin Tayeb. Mohamed, como ficou conhecido mundialmente, era seu apelido. Ao contrário do que foi noticiado, ele não cursou universidade. Concluiu apenas o ensino médio. Seu pai morreu quando ele tinha 3 anos. A mãe, Mannubia, casou-se, então, com o irmão do pai dele, Amr. O casal teve mais três filhas e quatro filhos.

 

Mannubia, de 53 anos, sua filha mais velha, Leila, de 24, e Basma conversaram com o Estado numa casa no bairro de classe média de Busalsla La Marsa, periferia de Túnis. Elas contaram que Mohamed tinha 27 anos e era vendedor havia 7 anos. "Ele estava muito alegre naqueles dias", recordou Leila. Era sexta-feira. Ao sair para o trabalho, Mohamed combinou com seu padrasto que fosse buscá-lo às 11 horas para irem juntos rezar.

 

"Mohamed ficou furioso porque confiscaram a mercadoria dele", justificou Leila. "Ele foi três vezes à prefeitura reclamar, chorou, mas ninguém o ouviu, ninguém quis ajudá-lo. Ele não sabia o que fazer", continuou. "A única coisa que ele queria era que lhe devolvessem as frutas, mas a fiscal disse que as tinha dado a uma entidade de caridade e não podia fazer nada por ele."

 

O repórter mencionou a versão da fiscal Fayda Hamdi, de que não deu um tapa no rosto de Mohamed. "Juramos por Deus que ela deu", disseram as mulheres. "Ele era feliz com a família, estava trabalhando", ponderou Mannubia. "Como ele colocaria fogo em si mesmo se a mulher não tivesse feito isso?"

 

Elas contaram que um amigo de Mohamed, chamado Fawzi, tentou contê-lo, mas ele disse: "Não se envolva. Respeite-me." Fawzi disse que ele estava muito alterado, mas não imaginou que fosse se imolar. Mohamed subiu no seu carro de frutas com um líquido nas mãos, provavelmente gasolina, derramou-o na cabeça e acendeu o fogo. Quando começou a queimar, pediu socorro. Uma mulher jogou água na cabeça dele. Só a cabeça e o rosto queimaram. O corpo ficou intacto.

 

Não havia oxigênio no hospital de Sidi Bouzid quando Bouazizi chegou. Deram-lhe choque para tentar fazer o coração voltar a bater. Na falta de recursos, ele foi levado de ambulância para Sfax, uma cidade maior da região central da Tunísia, e, no dia seguinte, para Túnis. Ficou no hospital 19 dias. O médico disse a Mannubia que, se ele sobrevivesse 21 dias, o nível da queimadura diminuiria do terceiro para o segundo grau, e ele teria mais chance de sobreviver.

 

O então presidente Zine el-Abidine Ben Ali foi visitar a família em Sidi Bouzid, na tentativa de aplacar os protestos que o acabariam derrubando. Segundo Mannubia, Ben Ali prometeu que mandaria Bouazizi para a França para fazer cirurgia plástica no rosto. Mas, às voltas com a própria sobrevivência, não cumpriu a palavra. Mannubia diz que, quando falou a Ben Ali que Fayda tinha dado um tapa no rosto de Bouazizi, o presidente lhe perguntou se seu filho era traficante de drogas.

 

No hospital em Túnis, Mannubia não pôde ver o filho. "Deus sabe o que fizeram", disse a mãe. Ela conta que mesmo no funeral não pôde se aproximar do corpo do filho, protegido por um forte esquema de segurança. O corpo foi transportado em sigilo e a população não pôde participar do enterro.

 

"As pessoas ficavam indo na nossa casa, faziam protestos lá, brigavam, jornalistas vinham, não tínhamos nem um instante de privacidade", recorda Leila. "Abordavam-nos na rua, começaram a espalhar rumores sobre nós. Minha mãe chorava o tempo todo. Minha irmã não pôde voltar para a escola porque as pessoas nos assediavam muito. Cansamos. Minha irmã veio estudar em Túnis, então todos viemos. Meu irmão era quem sustentava a família."

 

Questionadas se considerava Mohamed um mártir da revolução, Mannubia responde: "Deus o mandou para livrar as pessoas dos ditadores". "Graças a Deus estamos orgulhosos porque nosso filho morreu dessa forma para libertar as pessoas." 

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