'Nosso problema não é a Venezuela, mas Chávez dentro do Mercosul'

Presidente do Paraguai diz estar 'livre de qualquer compromisso com o bloco' após decisões 'ilegais' tomadas no último mês

Entrevista com

ROBERTO SIMON , ENVIADO ESPECIAL / ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2012 | 03h07

Federico Franco diz não se importar em ficar de fora "dos coquetéis em Brasília, Buenos Aires e Montevidéu". O Mercosul, justifica o médico que há pouco mais de um mês governa o Paraguai, deixou de ser um bloco comercial para virar "um clube ideológico, de amigos". Mas Franco se ajeita na cadeira e sobe o tom ao falar do mais novo convidado aos coquetéis sul-americanos, o presidente Hugo Chávez, a quem acusa de ser antidemocrático e de apoiar "terroristas" na Colômbia e, indiretamente, no Paraguai.

Na semana em que a Venezuela entrou no Mercosul, à revelia do Paraguai, Franco recebeu o Estado em Mburuvicha Roga - "casa do chefe", em guarani, residência oficial do presidente. A seguir, a entrevista.

Em entrevista ao 'Estado' dois dias após a posse, o sr. disse que a prioridade era "arrumar a casa" e não a política externa. Após um mês, com o Paraguai suspenso do Mercosul e a Venezuela dentro do bloco, isso mudou?

Reafirmo o que disse antes, em nome da coerência e da lógica. Um país pequeno como o nosso, que não tem o reconhecimento de seus vizinhos, não pode perder tempo tentando reverter essa situação. A questão aqui é política e não se tratou do Paraguai, mas de permitir a entrada da Venezuela no Mercosul. Vamos continuar o trabalho em nome do desenvolvimento. Em um mês, conseguimos, por exemplo, ampliar a arrecadação, algo fundamental para resolver o desafio social que temos. Isso demonstra nossa credibilidade e o fato de que o governo efetivamente se ocupou das questões internas mais urgentes. Lamento não poder participar de alguns coquetéis em Brasília, Buenos Aires ou Montevidéu. Mas nossa prioridade é outra.

E como o sr. vê a adesão venezuelana ao Mercosul?

Foi uma decisão totalmente política - e não jurídica -, aproveitando-se da suspensão do Paraguai. Essa adesão, portanto, é absolutamente ilegal e ilegítima. Quanto a nós, não temos nada contra a Venezuela. Nosso problema é o presidente Chávez, o EPP e a relação desse grupo terrorista que temos aqui com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que são apoiadas por Caracas. Esses grupos irregulares, deploráveis e terroristas, fizeram do medo um negócio, sequestrando e matando. Nessas condições, não podemos aceitar a Venezuela e ninguém no Paraguai quer ter relações com EPP, Farc ou Chávez.

Com a Venezuela no Mercosul, há um risco de o Paraguai unilateralmente deixar o bloco?

Não. Tenho pela frente 12 meses de governo e não vou tomar uma decisão que pode ser retificada por um novo presidente. Não seria justo nem ético fazer algo tão drástico. A partir de 15 de agosto, teremos um novo governo e ele decidirá o que fazer.

Por quê o sr. decidiu submeter a adesão venezuelana ao Congresso, onde deve ser rejeitada, no dia da cúpula em Brasília?

Em primeiro lugar, há um mandato do Congresso, que instou o Executivo a colocar isso em votação. Em segundo, você acha que é legítimo um governo protelar e esconder coisas do Legislativo? Agora, estamos abertos e respondemos ao Congresso como devemos. Tomara que o Congresso não tome nenhuma decisão apressada e analise o tema com o cuidado que ele merece. É importante dizer que, por ser um tratado internacional e não um projeto de lei, dificilmente poderá haver qualquer tipo de retificação se ele for rechaçado pelo Legislativo.

O sr. foi vice-presidente de um governo que apoiava fortemente a entrada da Venezuela...

Posso lhe confessar algo? Perguntei uma vez ao presidente Lugo: "O que fazemos com o caso da Venezuela?" Ele respondeu: "Não tenho posição sobre isso, vamos mandar para o Congresso". Digo publicamente: Lugo não tinha opinião formada sobre a entrada da Venezuela.

E por que o Paraguai foi o único país do Mercosul onde Executivo e Legislativo discordaram sobre a adesão de Caracas?

No Paraguai, quase ninguém acredita que Chávez tenha credenciais democráticas. Um país onde se governa por decreto e sem Congresso, onde a opinião popular só conta nas urnas, onde se apoia as Farc.

Há rumores de que o Paraguai quer fazer acordos bilaterais com países de fora da região, algo contrário às regras do Mercosul. Seria uma saída do bloco pela porta dos fundos. Isso existe?

Não posso lhe responder agora porque na política as coisas mudam muito. E, quando alguém afirma uma coisa, deve se manter coerente, como você me cobrou no início. Digo hoje que, ao ver o Mercosul tomar decisões injustas contra o meu país, o Paraguai, sendo livre e soberano, está isento de qualquer tipo de compromisso com o bloco. Ainda é preciso ver o que ocorrerá. Pode haver uma mudança de posição por parte do Paraguai caso sanções econômicas nos sejam impostas - e os presidentes do bloco disseram várias vezes que essas punições não seriam adotadas. Sanções somente políticas significam que o Paraguai só deixa de ser convidado para as reuniões.

O sr. concorda com as vozes na imprensa paraguaia dizendo que o Mercosul está 'mortalmente ferido', pois o aspecto político-ideológico se sobrepôs ao técnico-econômico?

Concordo não só com a imprensa paraguaia, mas com muitos artigos que apareceram na imprensa brasileira. Lembro-me de um intitulado Réquiem para o Mercosul, por exemplo. Li coisas parecidas vindas de Buenos Aires e Montevidéu. Está claro que a suspensão do Paraguai foi desculpa perfeita para puxar a Venezuela para dentro em tempo recorde e de forma ilegal e ilegítima.

E como o sr. vê o futuro do bloco sul-americano?

O Mercosul deixou de ser uma instituição comercial. Estamos falando agora de um clube ideológico, de amigos. As decisões dos Congressos não servem mais. O que conta são as vontades dos presidentes.

O governo do sr. apresentou um vídeo do chanceler venezuelano, Nicolás Maduro, supostamente entrando em uma reunião com generais paraguaios no dia da destituição de Lugo. Por que divulgar essas imagens?

As Forças Armadas do Brasil podem se reunir publicamente com atores políticos? O comandante do Exército falar com o chanceler? Imagine então se reunir com um chanceler de outro país? Isso foi ultrajante, ordinário, grosseiro. É mais um sinal da patética intromissão de Chávez no Paraguai, algo que nunca toleraremos.

O sr. sustenta que Maduro tentou provocar um golpe no Paraguai. É isso?

Pergunte aos ministros de Lugo. Foi isso que disseram.

Lugo diz que isso não ocorreu.

Pergunte aos ministros dele, que falaram publicamente. Maduro quis impor aos militares uma declaração recusando uma decisão constitucional de um outro país. É uma hipocrisia. Porque um país é pobre e pequeno, um chanceler pode descer e se intrometer desse jeito?

Além de Maduro, os demais chanceleres da Unasul, incluindo o brasileiro Antonio Patriota, estavam em Assunção naquele dia para dissuadir os parlamentares de destituir Lugo. Como o sr. viu essa viagem?

Foi uma ingerência, sem dúvida. Mas nós não tínhamos nada a esconder - eu, pessoalmente, falei com o chanceler Patriota. Disse a ele que era como o que ocorreu com o ex-presidente brasileiro Fernando Collor de Mello, embora nossa Constituição o faça em forma de julgamento político.

O Brasil, e todos os países da região, questionam o fato de isso ter sido feito em um dia.

Eu entendo. Mas o que o Brasil não pode entender é a morte de paraguaios, que ocorreria se o processo durasse mais tempo. Oito dias antes morreram 17 pessoas em Curuguaty (perto da fronteira com o Brasil) porque o governo foi negligente. Essa tragédia levou a uma decisão drástica do Congresso. Você acha justo que, para agradar a alguns setores estrangeiros, mais paraguaios devessem morrer? Os advogados do presidente Lugo o defenderam e ele reconheceu a destituição momentos depois. De 125 parlamentares, apenas 5 foram contra.

O que o sr. espera do governo brasileiro?

Espero da presidente Dilma Rousseff que escute a voz do povo soberano do Paraguai, dos 500 mil brasiguaios e de milhões de brasileiros que vivem na região de fronteira. Espero que ela possa entender que houve uma decisão constitucional e absolutamente legítima aqui.

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