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Nostalgia de Saddam povoa imaginário sunita

Em desvantagem na política desde 2003, seita de ex-ditador divide-se entre o 'passado glorioso' e um futuro não sectário

Lourival Sant´Ana, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2010 | 00h00

TIKRIT, IRAQUE

Há muitas formas de medir o poder de um xeque árabe. Uma delas é o número de poltronas em sua sala de estar, destinadas às reuniões com líderes tribais. A do xeque Munaf al-Nida possui 100 poltronas ao redor do recinto retangular, a cada duas uma mesinha de madeira e um cinzeiro de cristal, tapetes marrons e beges, quatro lustres grandes no teto e seis janelas amplas.

"Soube que vocês foram ao túmulo de Saddam. Gostaram?", pergunta na entrada o xeque, cujo avô era primo do pai de Saddam Hussein. Não há segredos na vila de Oja, a terra natal do ex-ditador iraquiano, na periferia de Tikrit, 140 quilômetros ao norte de Bagdá. "É lá que realizamos casamentos e velórios." O salão de festas e reuniões de Oja tornou-se o mausoléu de Saddam, com seu túmulo, os dos filhos Uday e Qusay e do tio Hassan al-Majid.

Ali se encontra também um curioso relicário dos tempos do ditador, com presentes de admiradores, como um painel de 67 fotos de Saddam e um poema. Na rua que dá acesso ao mausoléu, a fachada da Escola Secundária Feminina Al-Intisar (A Vitória) exibe um retrato oficial de Saddam, onipresente no Iraque na época de seu regime. "Toda vez que olhamos para esse retrato, lembramos como tudo era bom naquela época", explica uma professora da escola.

O tempo parece ter parado em Tikrit, mas não é bem assim. "Allawi teve muito mais votos que eu aqui, mesmo sendo xiita", sorri Nida, candidato a deputado pelo pequeno partido sunita Movimento Nacional de Patriotas e Poderes Nacionais.

O ex-primeiro-ministro xiita Ayad Allawi lidera uma aliança de 11 partidos xiitas e 10 sunitas, todos seculares, que atraiu maciçamente o voto dos sunitas, numa rejeição ao sectarismo.

Abu Ghraib. Nida está agora sem aliados. Em 2004, o coronel americano James Hickey, comandante da Operação Aurora Vermelha, que capturou Saddam perto de Tikrit, prendeu o xeque, seu pai e seu irmão. Eles passaram 3 meses e 27 dias na famosa prisão de Abu Ghraib, cenário de torturas que levaram a um escândalo e ao julgamento de militares americanos.

"Era inverno e ficamos em tendas", recorda o xeque. "Passamos muito frio e humilhações." Ele diz que foi interrogado muitas vezes: "Queriam saber se eu conhecia Osama Bin Laden."

Nida diz que teve uma filial local do grupo Despertar, que combate a presença da Al-Qaeda, mas a desfez quando líderes do movimento lhe pediram para fazer a segurança da rodovia Bagdá-Mosul, que passa na frente de sua casa. Nida recusou-se, porque a rodovia é usada pelos comboios americanos, e ele não deseja colaborar com a ocupação.

Os moradores de Tikrit, assim como o restante dos iraquianos, sabem que Saddam não vai voltar. A esperança de muitos deles está num Iraque não sectário, que crie prosperidade para todos. Assim quem sabe poderão deixar para trás Saddam, a Al-Qaeda, iranianos e americanos, e olhar para o futuro.

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