Notável ausência de mulheres no governo britânico

Após as recentes eleições, elas agora representam 22% do Parlamento e apenas 4 integram o gabinete da coalizão entre conservadores e liberais

, O Estado de S.Paulo

15 Maio 2010 | 00h00

A imagem constante na recente eleição na Grã-Bretanha foram ternos. A maré de tecidos cinzentos era ocasionalmente quebrada por um cardigã ou um vestido de alça, mas só quando a mídia decidia esquecer assuntos mais importantes para discutir até que ponto as mulheres dos líderes eram convincentes, ou não, paradas estoicamente ao lado dos maridos. As políticas foram marcadas pela invisibilidade. Um vácuo de poder, literalmente.

Então, não foi surpresa quando os resultados da eleição saíram mostrando uma representação feminina em virtual estagnação. Para ser preciso, a porcentagem de mulheres no Parlamento aumentou meros 2,5% - ou 16 parlamentares - para 22% do total. Talvez devêssemos ser aplaudidas por isso. Afinal, antes dos escândalos das despesas e da subsequente saída de 149 parlamentares, esperava-se na verdade uma queda na proporção de mulheres na Câmara dos Comuns. Mas a reação é pequena demais para provocar um sorriso. Só temos chance de aumentar a representação feminina a cada quatro ou cinco anos, quando uma eleição é convocada. Nesse ritmo, serão necessárias mais de duas décadas para as mulheres constituírem um terço dos parlamentares - a massa crítica que estudos julgam necessária para mudar a cultura de qualquer instituição dominada por homens. Pode levar meio século para homens e mulheres igualarem-se em número na Câmara dos Comuns.

Essa escassez de mulheres é refletida no número das que estão agora sentadas em torno da mesa do gabinete - e ainda mais. Na quarta-feira, anunciou-se que haverá quatro mulheres no gabinete, com apenas uma (Theresa May, a nova secretária do Interior), num cargo de destaque. As mulheres estão ainda menos bem representadas no gabinete do que na Câmara dos Comuns - apenas 14% dos membros.

A questão é a seguinte: o que vamos fazer a esse respeito? Em termos do gabinete, esse navio já zarpou. Como diz Nan Sloane, diretora do Centre for Women and Democracy: "Gabinetes são pesadamente dependentes das personalidades individuais das pessoas que os montam, e da política interna de partidos específicos, por isso acho que é um pouco inviável supor que se pode influenciá-lo de alguma forma neste estágio." (Para uma medida da atitude dos conservadores sobre a igualdade feminina, vale notar uma recente pesquisa da Fawcett Society, segundo a qual em questões que incluem a diferença salarial de gêneros e a baixa taxa de condenação por estupro, 23,1% dos candidatos trabalhistas disseram estar comprometidos com o combate dessas questões, 19,9% dos liberal-democratas disseram o mesmo, e apenas 2,6% dos conservadores entraram no coro.)

O que podemos fazer é questionar os argumentos inevitáveis de que as mulheres são proporcionalmente sub-representadas no gabinete porque são inexperientes, ou menos talentosas. "Todos esses argumentos caem imediatamente, pois nenhum dos atuais integrantes do governo tem experiência. (O premiê David) Cameron não tem, e a maioria de seu gabinete tampouco."

Evidentemente, um modo de aumentar o número de mulheres no poder é aumentar o número de mulheres no Parlamento. A Grã-Bretanha ocupa hoje o 52.º lugar na tabela internacional de representação de mulheres - nível aproximado dos Emirados Árabes Unidos e abaixo de Ruanda e Afeganistão.

Mudança. Para Sloane, uma ação dessas exige uma de duas atitudes-chave. Ou uma proporção de assentos no Parlamento é reservada especificamente para mulheres, ou uma proporção de candidatos de qualquer partido deve ser de mulheres. "No Paquistão e na Índia, um terço das cadeiras no Parlamento é reservado para mulheres, e ao menos 40% precisam ser homens", disse Sloane." Não coincidentemente, metade do gabinete da Espanha é feminino, "porque as mulheres estão lá para ser escolhidas".

Sloane acha que alguma versão do sistema espanhol seria mais funcional na Grã-Bretanha, pois suspeita que "as pessoas ficariam desconfortáveis com uma abordagem que dissesse que metade das cadeiras do Parlamento tem de ser preenchida por mulheres".

Há outras áreas em que a mudança é necessária se quisermos tratar da vergonhosa escassez de mulheres na política. A cultura do Parlamento precisa ser alterada para permitir que as mulheres sintam que podem ter licença-maternidade, por exemplo, e ter alguns direitos de trabalho flexíveis que o restante de nós desfruta.

Ceri Goddard, presidente executiva da Fawcett Society, sugere que as pessoas também precisam criticar a mídia. "Foram os jornais que escolherem dedicar mais espaço para as mulheres de líderes do que às políticas."

O momento para tratar de tudo isso "é agora, quando a reforma eleitoral está na agenda", diz Goddard. Ela está animada com o modo como as pessoas têm criticado a mídia em blogs e tweets. Sua organização e outras pretendem lançar uma campanha, pois "esta é a primeira grande oportunidade para uma geração questionar o desequilíbrio de gênero no Parlamento". / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É EDITORA, COLUNISTA DA REVISTA "NEW STATESMEN" E ESCRITORA

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