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Adriana Carranca
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Notícias da Síria

Talvez o mais dramático sobre as cenas de desesperados batendo às portas da Europa seja que essa tragédia é apenas parte pequena de outra, de cuja dimensão o mundo ainda não se deu conta. Desde as primeiras imagens que surgiram de barcos apinhados de gente desesperada, arriscando tudo por uma chance na outra margem do Mediterrâneo, a pergunta que ficou foi o que estaria levando tantos a uma ação tão desesperada. A resposta está na Síria, de onde escrevo.

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2015 | 02h01

Enquanto as atenções se voltam para o drama dos que conseguem atravessar suas fronteiras, nesse território dilacerado pelos conflitos e apartado por grupos armados no controle de cada pedaço de terra, sete pessoas morrem por hora vítimas da violência. Pelo menos 11 milhões estão encurraladas pelos conflitos. Mais de 6,5 milhões tiveram de deixar suas casas.

Do lado iraquiano, a passagem de Faysh Khabur é controlada pelos peshmerga (soldados do governo semi-independente do Curdistão). Atravessa-se numa balsa até a outra margem do Rio Tigre, onde começa o território controlado pelas milícias curdas das Unidades de Proteção Popular (YPG, na sigla curda).

Deste lado do Mediterrâneo, em uma faixa de território controlado por milicianos curdos ao longo da fronteira com o sul da Turquia, fica evidente que não há mais lugares seguros na Síria. Não há mais frente de batalhas.

A guerra continua a se intensificar sem sinal de tréguas. O envolvimento de potências estrangeiras em um dos múltiplos lados do conflito exacerbou o sectarismo. O governo de Bashar Assad continua a bombardear áreas residenciais de forma indiscriminada. Jihadistas do Estado Islâmico matam, torturam, sequestram mulheres e as fazem de escravas sexuais. Eles têm feito ganhos significativos no corredor central do país, enquanto a frente Al-Nusra, filiada à Al-Qaeda, avança no noroeste da Síria.

A violência se tornou endêmica e está se proliferando em escopo e extensão. Nenhum dos lados do conflito parece próximo de perder ou a ganhar. Todos têm garantido canais de apoio suficientes para continuar lutando.

São tantos os mortos que esses grupos já enfrentam a escassez de mão de obra e os recrutamentos forçados se tornaram uma realidade. Eles têm levado mais famílias a fugir, para evitar que seus filhos tenham de ir para a frente de batalha. Os espaços de proteção estão escolhendo.

No início dos conflitos, as pessoas buscavam abrigo na casa de parentes em regiões mais seguras. Mas, cinco anos depois do início dos conflitos, não há mais lugares seguros na Síria.

E é por isso que as pessoas arriscam tudo nas mãos de atravessadores e traficantes de pessoas, lançando-se em travessias arriscadas. Por isso, quem pode tenta sair. Os que ainda estão aqui são os mais vulneráveis, que não podem fugir porque não têm dinheiro para a viagem ou, simplesmente, porque perderam todos os documentos em meio a escombros. Muitos sírios foram forçados a mudar múltiplas vezes. A guerra separou as famílias. Muitos estão vivendo há anos em grandes campos, em barracas improvisadas sem acesso a serviços básicos como água potável ou eletricidade.

As fronteiras dos vizinhos à Síria são cada vez mais controladas pelas autoridades ou perigosas demais. Muitas estradas estão bloqueadas pelos confrontos, deixando populações sitiadas. A maioria das escolas estão fechadas, quando não foram destruídas. Já se fala em uma geração perdida.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 57% dos hospitais da Síria estão agora fora de ação. Os empregos minguaram. A maior parte da produção agrícola não tem como ser escoada, porque as estradas estão interrompidas pelos confrontos.

Vive-se de luto e espera.

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