Notícias dos EUA pelo rádio mudam rotina de paquistaneses

A notícia de que os EUA estavam transmitindo mensagens por rádio para os talebans afegãos mudou hoje a rotina de uma pequena oficina de torno, nos fundos de um posto de gasolina na Cidade Velha de Peshawar - oeste do Paquistão, perto da fronteira com o Afeganistão. Com as máquinas paradas, os funcionários estavam todos reunidos pela manhã em volta de um rádio de ondas curtas, tentando captar a transmissão. Ao contrário dos dias anteriores, quando os primeiros ataques liderados pelos americanos causou muita tensão na cidade, a reunião de hoje era bem-humorada, entre goles de chá preto com leite que, para os paquistaneses equivale ao cafézinho brasileiro. "Estamos todos ansiosos para ouvir americanos falando pashtun", disse um dos funcionários da oficina, que afirmou pertencer à etnia pashtun, maioria tanto no oeste do Paquistão quanto no Taleban. "Queremos saber o que eles estão prometendo para os afegãos." Ante a dificuldade para sintonizar qualquer estação, mais curiosos aumentavam a roda. Pelo menos dez pessoas se revezavam rodando o botão do dial, sem nenhum sucesso. As tentativas eram complementadas por piadas em urdu e pashtun e muitas gargalhadas. "Ei, senhor jornalista, você sabe qual é freqüência que os americanos estão usando?", perguntou um dos operários em inglês dirigindo-se ao repórter da Agência Estado. Ao receber a resposta negativa, ele complementou, rindo: "Se você que é jornalista não sabe, como nós poderíamos saber?" Após algum tempo de tentativa, o grupo conseguiu captar algumas palavras pelo pequeno rádio. Mas não era a mensagem dos EUA para os talebans, mas sim o serviço da BBC de Londres em urdu. Ameaças americanas A transmissão americana, iniciada na manhã de hoje no Afeganistão, não era contínua e consistia basicamente numa advertência para que os talebans se rendessem e não fazia nenhuma promessa, como imaginavam os funcionários da oficina. "Vocês estão condenados", dizia a mensagem. "Nossas forças terrestres estão prontas para entrar em ação, seus campos estão destruídos e podemos dirigir nossos foguetes para as janelas de suas casas. Vocês devem render-se agora." Nos dias anteriores, junto com os pacotes de alimentos da ajuda humanitária para a população afegã, a coalizão liderada pelos EUA lançou receptores de rádio, por pára-quedas, no território do Afeganistão. Por ordem do regime Taleban, os aparelhos de televisão estão proibidos no país desde 1999 e as emissoras de rádio só podem transmitir programas religiosos e mensagens do governo taleban. "A propaganda americana, mesmo que chegue aos soldados do Taleban, não vai dar resultado", comentou Abdul, um dos empregados da oficina de Peshawar. "As notícias que vêm do outro lado da fronteira são de que várias cidades foram destruídas pelos mísseis e bombas dos EUA, mas os líderes do Taleban vêm anunciando que estão vencendo a guerra e avançando contra posições da Aliança do Norte. Eles também sabem fazer propaganda e a população está acostumada a acreditar mais no que o governo anuncia do que naquilo que diz a mensagem dos americanos." A reunião em torno do rádio terminou com Abdul chamando todos para voltarem às suas máquinas. O som da BBC em urdu foi abafado pelo dos motores elétricos das ferramentas pneumáticas. Leia o especial

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