Notícias que passaram despercebidas em 2013

A disputa para afirmar o direito aos recursos do Ártico continuou durante algum tempo, mas entrou numa fase explicitamente antagônica em 2013, quando Rússia e Canadá reforçaram suas reivindicações territoriais e Moscou prometeu aumentar sua presença militar na região.

TY Mccormick*, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2014 | 02h00

"Peço que vocês prestem uma atenção especial à mobilização de infraestrutura e unidades militares no Ártico", disse o presidente russo Vladimir Putin em encontro com a Junta do Ministério Militar no início do mês. Um porta-voz da chancelaria canadense respondeu, afirmando que Ottawa estava pronta para defender sua soberania "respeitando a lei internacional e por meio de medidas de base científica".

O rápido derretimento das calotas polares abriu vias de navegação e liberou reservas de recursos naturais no Ártico. De acordo com o US Geological Survey, a região deve conter entre 10% a 15% das reservas de petróleo ainda não descobertas do mundo.

E a maior parte em territórios não contestados de Rússia, Canadá, Noruega, Dinamarca e EUA. No entanto, Rússia, Canadá e Dinamarca estão provocando a controvérsia, indicando que seus direitos chegam até o Polo Norte. Em 2007, um submarino russo chegou mesmo a fincar uma bandeira no fundo do mar no Ártico.

A disputa levou também a manobras militares por vários dos países que reivindicam a região. No início de 2013, a Rússia reformou sua base aérea nas New Siberian Islands e anunciou planos para reabrir diversas bases no Ártico que datam dos tempos da Guerra Fria.

Moscou pretende encomendar dois submarinos nucleares para a região. O Canadá, por seu lado, tem realizado exercícios miliares anuais no Ártico e já anunciou que unidades da Canadian Forces Range irão patrulhar a área. "O Canadá lutará para afirmar sua soberania no norte", afirmou o chanceler canadense, John Baird. "Mas seremos bons vizinhos, mesmo assim."

Japão. Em seu primeiro ano no cargo, o premiê japonês, Shinzo Abe, montou uma impressionante ofensiva de charme no Sudeste Asiático, estreitando os vínculos diplomáticos e econômicos com os dez países membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) e tornou-se o primeiro premiê japonês a visitar todos eles.

Além de adquirir títulos e tornar mais fácil para as companhias japonesas levantarem empréstimos em moedas locais, o governo de Abe cancelou dívidas e ampliou pacotes de ajuda generosos para países de toda a região. Após o furacão Haiyan, o Japão ofereceu às Filipinas uma ajuda de US$ 10 milhões, comparada com a oferta inicial da China, de apenas US$ 100 mil.

O que pesou muito na viagem de Abe são as relações cada vez mais estremecidas com a China, o que levou o Japão a ganhar elos mais fortes com países também rivais de Pequim: Brunei, Malásia, Filipinas e Vietnã. Tóquio também ampliou a cooperação na área da segurança com seus vizinhos, realizando exercícios de contraterrorismo com a Indonésia e fornecendo navios para as Filipinas, além de planejar acordos semelhantes com o Vietnã.

Os esforços de Abe estão dando frutos. Não só as empresas japoneses garantiram contratos lucrativos no Sudeste Asiático, mas os países da Asean seguiram orientação do Japão ao criticarem a zona de defesa aérea decretada por Pequim no Mar do Sul da China. Pode não ser um golpe fatal, mas é um novo soco numa superpotência emergente de uma país outrora visto com "um pé no túmulo".

Avanço contra a aids. Em março, médicos revelaram que, pela primeira vez, um bebê foi "funcionalmente curado" de aids depois de um agressivo tratamento antirretroviral (ARV). A paciente, uma menina americana, permaneceu livre da infecção ativa 18 meses após o término do tratamento, segundo estudo publicado no New England Journal of Medicine.

O medicamento administrado dentro de 30 horas após o nascimento, provavelmente, impediu a formação de reservatórios virais nas células imunológicas da criança. O caso tem enormes implicações para os cerca de mil bebês nascidos com HIV em todo o mundo diariamente.

Existem evidências de que o rápido tratamento, no caso de adultos cuja infecção é recente, pode também resultar em remissão a longo prazo.

Em outro estudo publicado na revista médica Plos Pathogens, pesquisadores identificaram 14 de 70 pacientes que controlaram o vírus depois de períodos prolongados sem tratamento. Todos receberam tratamento antirretroviral num prazo de 10 semanas após a infecção.

As conclusões sugerem que o tratamento precoce e prolongado pode ajudar paciente a "controlar a infecção por um longo tempo e tem importantes implicações na busca de uma cura".

Em 2013, a Organização Mundial da Saúde adotou novas diretrizes para o tratamento que tornam mais 9 milhões de pessoas de países de pequena e média renda qualificadas para a terapia. O custo deverá ser de US$ 2,3 bilhões por ano.

As novas diretrizes recomendam que os pacientes comecem o tratamento logo que a contagem do CD4, medida que mede a força do sistema imunológico, caia abaixo de 500 células brancas - por milímetro cúbico de sangue.

Energia renovável. Enquanto a bonanza do gás de xisto e a aparente nova era de "abundância" do petróleo tomaram conta das manchetes nos EUA, as fontes de energia renovável, particularmente a solar e a eólica, silenciosamente vêm ampliando sua fatia de mercado dos dois lados do Atlântico. A mudança, como explica uma recente relatório do banco de investimentos UBS, ameaça as grandes concessionárias de energia elétrica, que vêm se debatendo com os preços em queda da eletricidade e estão temerosas de que a revolução da energia limpa desestabilize completamente a rede.

A capacidade da energia renovável nos EUA mais do que triplicou na primeira década do milênio e, em 2013, o presidente Barack Obama ordenou que as agências federais tripliquem o seu uso até 2020. Na Europa, onde muitos governos têm oferecido generosos subsídios, a tendência é ainda mais pronunciada.

A Alemanha extrai hoje 21% da sua eletricidade de fontes renováveis, ao passo que a Dinamarca retira 40%, sendo que 28% vem do vento. O desastre nuclear de Fukushima provocou uma febre de investimentos nas energias solar e eólica no Japão.

A ascensão da energia renovável teve um profundo impacto sobre as concessionárias de eletricidade. Nos últimos cinco anos, de acordo com a revista The Economist, as 20 maiores concessionárias elétricas da Europa juntas perderam mais da metade do seu valor.

Nos EUA, as concessionárias também lutam para não submergir, com as três maiores provedoras de eletricidade da Califórnia informando um prejuízo de US$ 1,4 bilhão com clientes com painéis solares instalados em suas casas. "Para sobreviver na era da energia renovável, as concessionárias precisarão examinar e mudar seus modelos tradicionais de negócios", diz o relatório do UBS.

América Latina. Enterrados sob as notícias sobre a morte de Hugo Chávez e as espionagens por parte da Agência de Segurança Nacional (NSA), esteve o maremoto de descontentamento popular que tomou conta da América Latina em 2013.

Os protestos foram por múltiplas razões: ira contra a corrupção, aumentos de preços, reformas no setor público e um desempenho econômico medíocre levaram milhares de pessoas às ruas de Brasil, Argentina, Colômbia, México, Peru e Chile.

Na Venezuela, partidários do sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, e do líder da oposição, Henrique Capriles, entraram em confronto na disputada eleição presidencial de abril.

A mais veemente explosão de sentimentos antigovernamentais verificou-se no Brasil. Em junho, um aumento de R$ 0,20 nas passagem de ônibus desencadeou protestos em todo o País contra sistemas de saúde, educação e habitação medíocres, como também o aumento do custo de vida.

A Copa do Mundo de 2014, que deve custar mais de US$ 13 bilhões, tornou-se um símbolo das prioridades equivocadas do governo. Cartazes com inscrições do tipo "FIFA go home" eram elementos permanentes das manifestações.

Por toda a América Latina, os governos não conseguiram atender às expectativas da classe média emergente. Na Argentina, cerca de um milhão de pessoas foi para as ruas para se manifestar contra as políticas econômicas da presidente Cristina Kirchner e milhares de colombianos protestaram contra o livre comércio.

No México, por outro lado, os professores entraram em greve e milhares de mexicanos se manifestaram contra a reforma do setor de energia. Chile e Peru também foram agitados por protestos intermitentes em 2013.

Com toda probabilidade, o ano do protesto chegará a 2014. A Copa do Mundo deve concentrar a atenção nas desigualdades de renda, como também a Olimpíada que será realizada no Rio de Janeiro em 2016. "A ira das expectativas", como qualificou a revista Time, não deve evaporar tão cedo.

*TY Mccormick é jornalista.

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