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Nova aliança de Macron

Holanda poderia fazer uma boa dupla com a França

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2019 | 05h00

Na quinta-feira haverá eleições para o Parlamento Europeu. Estranhamente, até aqui, a grande ausente nessa campanha era a própria Europa. Os candidatos falavam de tudo, menos da União Europeia. Mas eis que a Europa desperta. Já era tempo.

Uma Europa em plena metamorfose se revela. Até agora, a carruagem europeia era puxada por dois cavalos vigorosos, a França e a Alemanha. Mas esta era talvez esteja terminando. O francês Emmanuel Macron bem que gostaria que a parceria entre França e Alemanha, que dominou toda a história da União Europeia, perdurasse.

Mas o caráter desafiador e vaidoso de Macron não parece ter agradado a Angela Merkel. Além do mais, a chanceler, enfraquecida pelas últimas eleições (mesmo tendo ganhado), vive um fim de festa. Ela se prepara para ceder o trono, em um mês ou em um ano. 

Seus sucessores já trincam as mandíbulas. Eles não consideram a amizade com a França uma prioridade diplomática. Tivemos a prova disso justamente nestas eleições para o Parlamento Europeu. Até hoje, nunca a Alemanha havia criticado a escolha de Estrasburgo como sede do Parlamento. Agora, dois pesos-pesados da política alemã questionam o privilégio. 

“Por que a Europa tem duas capitais, Bruxelas e Estrasburgo?”, questionam. “A cada ano, 50 mil pessoas têm de se deslocar entre as duas cidades. É preciso pôr fim a essa anomalia. Será mantida apenas a sede de Bruxelas.”

Essas propostas iconoclastas foram apresentadas por dois políticos alemães influentes que se aproveitam do declínio de Merkel para mover os seus peões: Manfred Weber, conservador, que briga pela presidência da Comissão Europeia, em Bruxelas, e a temível Annegret Kramp-Karren, do partido de Merkel, a União Democrata-Cristã (CDU), que sonha em suceder à chanceler. Nem é preciso dizer que a ideia de ver a cidade francesa de Estrasburgo privada do Parlamento faz a França bufar de raiva.

Há um segundo indício do distanciamento entre as duas nações. No início do mês, o primeiro-ministro holandês, Mark Rutte, esteve na França. No Palácio do Eliseu, Macron se desmanchou em gentilezas. Os dois assinaram um documento pedindo à UE que fixe como meta ecológica o nível zero de carbono. Sete outros países assinaram o apelo. 

Mas, para estupefação da França, a Alemanha se recusou a assinar. Foi um Deus nos acuda: uma iniciativa francesa para a Europa descartada pela Alemanha! Manchete de primeira página! Os resmungos da França acabaram sendo ouvidos em Berlim – e Merkel finalmente assinou, mas sem muito entusiasmo.

Se analisarmos essa rateada do motor franco-alemão, a conclusão talvez seja de que estejamos às vésperas de uma reviravolta diplomática. Macron, sem dúvida o mais europeu dos líderes europeus, demorou demais para admitir que o crepúsculo havia chegado para Merkel. 

Segundo comentaristas, ele teria avaliado que, na falta da Alemanha, a Holanda poderia fazer uma boa dupla com a França, ainda que sem o grau de proximidade existente entre Paris e Berlim. 

Sob todos os ângulos, a Holanda é um país sedutor, ativo, eficiente, comportado, sólido, apesar de pequeno. Entretanto, mesmo com todo o seu charme, a Holanda não é a Alemanha, o que leva alguns a se perguntar: na ausência do maior, dá para se contentar com um país médio? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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