AP Photo/Ricardo Mazalan
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Nova conjuntura na região

Resultados de recentes eleições e fim do projeto hegemônico de Chávez confirmam tendência

CARLOS MALAMUD - INFOLATAM, O Estado de S. Paulo

09 Abril 2016 | 05h00

Face às mudanças que vêm ocorrendo na América Latina, muitas pessoas falam de um novo ciclo político na região, consequência direta das transformações econômicas provocadas pela queda do preço das commodities. Mas, se no campo da economia é relativamente simples determinar a mudança do ciclo com base no comportamento das variáveis econômicas, no âmbito político a questão é mais complicada.

Por isso prefiro falar de uma nova conjuntura política em vez de um novo ciclo político. É evidente que a conjuntura está mudando na América Latina. Os resultados das eleições presidenciais na Argentina, das eleições parlamentares na Venezuela e do referendo na Bolívia confirmam isso. Mas é preciso ressaltar um fato evidente que às vezes o entusiasmo de alguns nos faz esquecer: no momento, apesar das expectativas em outros países, somente na Argentina o governo mudou.

Neste caso, é necessário avaliar os resultados do segundo turno das eleições presidenciais em El Salvador (março de 2014) e no Brasil (outubro de 2014). Isso nos leva a alguns escrutínios bastante disputados em um ambiente dominado pela costumeira falta de alternância. No caso brasileiro é preciso acrescentar os protestos no início de 2014 depois do aumento dos preços do transporte público.

A morte de Hugo Chávez marcou o início da queda do projeto hegemônico cubano/venezuelano promovido pela Aliança Bolivariana (Alba). Para agravar a situação, ninguém conseguiu assumir sua liderança, além do crescente descrédito da própria Alba, cada vez mais sem recursos diante das dificuldades da Venezuela.

Dois exemplos reforçam esta ideia. Rafael Correa foi incapaz de impor suas ideias à Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre o financiamento e a instalação da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Recentemente, Evo Morales fracassou em sua tentativa de convocar uma reunião de cúpula extraordinária da Unasul para condenar o “golpe em marcha” no Brasil. A aproximação entre Cuba e Estados Unidos, deixando de fora as reflexões de Fidel Castro, e o restabelecimento das relações bilaterais devem ser vistos nesse contexto e no da crise terminal venezuelana.

Paradoxalmente, os primeiros que se empenham em falar de um novo ciclo político na América Latina são os teóricos prejudicados, aqueles que na nova conjuntura se veem forçados a abandonar o governo e perdem posições de poder por uma razão ou outra. No Brasil, o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) e as organizações e movimentos sociais afins insistem em falar de golpe.

Fora do Brasil fala-se também de uma conspiração internacional tramada pela direita regional mais reacionária e os Estados Unidos contra os governos populares (Venezuela, Bolívia, Argentina e Brasil). Aqui e ali também prevalece um esforço constante para comparar o governo de Mauricio Macri com a ditadura militar de 1976. Na mesma linha maniqueísta encontramos constantes alusões ao golpe de 1964 no Brasil e a um julgamento político contra Dilma Rousseff. 

Uma das últimas agressões contra Macri foi a denúncia de Nicolás Maduro depois da decisão argentina de abandonar a Telesul, principal instrumento da propaganda chavista no continente. Suas palavras se desqualificam por si próprias. “Estão procurando acabar com a Telesul, são os mesmos que desapareceram com 30 mil jovens entre 1973 e 1983.”

Mais além das teorias de conspiração, há três fatores que devem ser levadas em conta para se falar de uma nova conjuntura política. Em primeiro lugar, as mudanças econômicas que afetam os diversos países latino-americanos e atingem de forma desigual cada um deles. Em segundo lugar estão os efeitos sobre a opinião pública causados pelos governos que se mantêm muito tempo no poder. E esses governos se multiplicaram da Venezuela ao Brasil, e da Argentina à Nicarágua, sem esquecer Bolívia, Chile, Equador e Uruguai. Em alguns casos, esta tendência tem dado lugar à possibilidade de reeleições ilimitadas.

Finalmente, há as novas demandas das classes médias que surgiram na última década, com uma lista de reivindicações segundo sua nova situação: participação política, acesso à educação e a outros serviços públicos e o repúdio da corrupção.

Dependendo do desenlace da crise brasileira e do futuro político de Dilma Rousseff, com suas repercussões regionais, a maior parte das perguntas gira em todo do futuro eleitoral latino-americano. Haverá um efeito dominó depois do afastamento do kirchnerismo na Argentina? A resposta é complicada, pois os tempos estão condicionados ao calendário eleitoral, começando com as eleições que ainda serão realizadas em 2016.

As eleições presidenciais no Peru e na República Dominicana não contribuirão muito para a resposta à pergunta fundamental, uma vez que, segundo as pesquisas, prevalecerá a continuidade. A difícil vitória no Peru de Verónika Mendoza, da Frente Ampla, seria uma exceção, embora neste caso a mudança seria para a esquerda. Diferente é o caso das eleições municipais chilenas, onde poderemos observar a capacidade da coligação Nova Maioria de prorrogar seu projeto quando terminar o mandato de Michelle Bachelet.

Não existe nada escrito com relação à nova conjuntura política na América Latina. O que tem sido abordado são as crescentes dificuldades dos governos populistas diante das restrições impostas pela queda das receitas fiscais que, com maior ou menor rapidez, são transferidas para as políticas públicas. 

Mas isso não significa o fim do populismo, fenômeno que não é patrimônio da esquerda ou da direita latino-americanas e, pelo que vimos até esta data, está profundamente miscigenado. Independente do resultado dessa confluência, seus efeitos sobre a população são sempre nefastos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CATEDRÁTICO DE HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA DA UNIVERSIDADE NACIONAL DE EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA, DE MADRI. PUBLICADO SOB LICENÇA DA INFOLATAM

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