Esteban Felix/AP
Esteban Felix/AP

Nova Constituição chilena é a esperança de muitos e a decepção de poucos

Na prática, processo para elaboração de Carta Magna será longo, passará por várias etapas e representará um desafio para a população

Rafael Carneiro, especial para o Estadão

27 de outubro de 2020 | 04h00

SANTIAGO - Divulgados os resultados do plebiscito realizado no domingo, 25, muitos se questionam sobre qual será o futuro do Chile, país que por muitos anos foi uma referência na economia latino-americana, mas que assim como seus vizinhos, também tem grandes abismos sociais.

Na prática, o processo para a elaboração de uma nova Constituição será longo, passará por várias etapas e será um desafio para os chilenos. Em abril de 2021, os constituintes serão eleitos e terão um período de nove meses a um ano para redigir a nova Carta Magna. Após 60 dias do fim dos trabalhos, será realizado um novo plebiscito para aprovar ou rejeitar o novo texto. Caso ele seja recusado, a Constituição atual continuará vigente.

Para José Daniel Nieto, o Chile “ganhou um problema desnecessário”. “Nenhum país no mundo se dá o luxo de mudar a Constituição a cada 30 anos. Outro ponto que acho errado é que se fala que essa é a Constituição de Pinochet, mas isso não é verdade. Ela foi modificada muitas vezes e o ex-presidente Ricardo Lagos mudou a sua assinatura em 2005. Então, o correto seria dizer que é a Carta Magna de Lagos”, afirma o militar aposentado de 66 anos, que não participou do plebiscito por questões de saúde e porque mora longe de seu local de votação.

Nieto também diz que se sente decepcionado com o presidente Sebastián Piñera, uma vez que esse plebiscito e a possibilidade de uma nova Constituição não estavam em seu programa de governo. “Sinto-me enganado e o setor militar também. Piñera prometeu justiça, reparar perseguições contra nós e ele não fez absolutamente nada. Até o dia de hoje, há processos, gente exigindo reparações. Eu mesmo fui processado por supostos crimes que teria cometido anos atrás”, conta. Nieto formou-se em setembro de 1973, o mesmo mês em que o ex-presidente Salvador Allende foi assassinado e teve início a ditadura militar no país.

Quarenta e cinco anos mais nova, Javiera Redlich tem uma visão completamente oposta. A jovem de 21 anos votou pelas opções “aprovo” e “Assembleia Constituinte” e, após o triunfo de suas escolhas, dirigiu-se para a Praça Itália, palco principal das manifestações em Santiago, para celebrar. “Foi emocionante. Era uma sensação coletiva de vitória que nunca havia visto e o resultado desse plebiscito deixou muito claro que para melhorar as nossas vidas, as decisões têm de ser feitas em conjunto e não a portas fechadas”, ressalta.

Javiera é estudante de sociologia da Universidade Alberto Hurtado e deseja que a nova Constituição represente a população na sua totalidade, principalmente as mulheres. “Vamos começar a viver uma nova era no nosso país, tanto política quanto social, e tenho esperança de que teremos uma Carta Magna digna, justa e igual para todos”, diz.

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