'Nova direção censura jornal', diz artista venezuelana

Cartunista demitida do diário 'El Universal' relata como, de maneira gradual, novos donos mudam linha editorial, anteriormente crítica ao chavismo

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2014 | 02h03

A demissão da cartunista Rayma Suprani do jornal venezuelano El Universal, na quarta-feira, tirou a dúvida dos jornalistas do diário que ainda não estavam certos sobre se o veículo mudou de linha editorial após sua venda, em julho, amainando sua crítica à presidência de Nicolás Maduro. Em entrevista ao 'Estado', Rayma explicou como, gradualmente, a nova direção do Universal tem evitado criticar o governo venezuelano.

A cartunista foi demitida após publicar uma charge que comparava a situação da saúde na Venezuela, que enfrenta grave escassez de medicamentos e insumos médicos, ao eletrocardiograma de um morto - no caso, Hugo Chávez, de cuja assinatura, reproduzida no cartum, parte a linha reta do "exame". Rayma ouviu que sua charge desagradou ao novo diretor do Universal, Jesús Abreu Anselmi, e, por esse motivo, estava demitida.

Em 3 de agosto, Rayma denunciou que tinha sido censurada, quando o jornal não publicou uma de suas charges. "Desde que tive o episódio de censura, imaginei que, em algum momento, não manteriam minha crítica, porque o jornal foi vendido a outros interesses. E foi isso mesmo o que ocorreu."

No dia seguinte, 26 colunistas do Universal - quase todos críticos ao governo - deixaram o diário denunciando que tinham sido censurados e, por esse motivo, não escreveriam mais nas páginas de Opinião do jornal.

"Isso foi o início da desmontagem da antiga linha editorial para impor uma nova - que ainda não se sabe bem qual é. Ainda não sabemos quem é o novo dono do Universal, nem qual é a nova linha editorial. Mas sabemos que o trabalho muito crítico ao governo não é conveniente e os incomoda", relatou a cartunista.

O jornal afirma que foi comprado pelo grupo empresarial espanhol Epalistica, que, segundo El Universal, pertence a Eduardo López de la Osa e José de la Torre, tem base em Madri e investe em petróleo, imóveis e mídia.

"Decidi não aceitar a pressão e, muito menos, mudar meu traço, nem mesmo suavizar meu traço. Sempre mantive uma crítica bastante aguda e a mantive até que ela foi o motivo de minha saída do diário."

Segundo o relato de Rayma, além da saída dos articulistas, outro sintoma da mudança aplicada pela nova direção ficou evidente na capa do jornal. "A primeira página do Universal diminuiu muito o nível de informação. As notícias se tornaram muito mais banais, na direção do entretenimento, dos temas mais leves."

O conteúdo interno, de acordo com a cartunista, também foi alterado. "A mudança tem sido introduzida nos títulos e nas informações. Temos problemas muito graves (na Venezuela) que não estão pautados nas páginas do jornal. Essa mudança tem sido gradual. Isso é lamentável."

"Também introduziram entrevistas com personagens muito lamentáveis. São entrevistas que fazem propaganda do governo. Há como uma pressão tácita para que os profissionais baixem um pouco os níveis de crítica. Há temas que não são tratados."

De acordo com Rayma, porém, para os profissionais que trabalham no Universal, o maior problema é a falta de clareza da nova chefia em relação a seus objetivos editoriais. "As mudanças que foram feitas são muito ambíguas - e isso causa confusão. Na redação há muita angústia, por não se saber, na realidade, qual é o novo manual de redação e estilo do jornal."

Na quinta-feira, os profissionais do Universal publicaram um comunicado no site do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Imprensa da Venezuela (SNTP, na sigla em espanhol) em solidariedade a Rayma, denunciando a situação de "censura" e afirmando que seus novos chefes pretendem "atenuar uma realidade agoniante para os venezuelanos de todos os estratos sociais".

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