EFE/ Juan Ignacio Roncoroni
EFE/ Juan Ignacio Roncoroni

Nova direita ultraliberal desequilibra bipolaridade ideológica na Argentina

Nas eleições primárias de hoje, que definem os candidatos para as legislativas de novembro, a grande novidade é o movimento que se autodefine como libertário e ameaça roubar votos de peronistas e da oposição liderada por Maurício Macri

Daniel Galvalizi, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2021 | 05h00

BUENOS AIRES - Os argentinos votam neste domingo, 12, em eleições primárias para escolher os candidatos de cada partido nas eleições legislativas de 14 de novembro. O país continua dividido, entre o peronismo e a oposição liderada pelo ex-presidente Mauricio Macri. A grande novidade, porém, é o surgimento de uma direita ultraliberal, que se autodefine como “libertária”, que ameaça roubar votos dos dois lados. A cara do fenômeno é o economista Javier Milei, que defende o quase desaparecimento do papel do Estado.

Nas eleições presidenciais de 2019, os “libertários” já haviam dado as caras, mas com sucesso modesto. Nas primárias deste domingo, porém, a nova direita deve ter mais de 10% dos votos na cidade de Buenos Aires e na Província de Buenos Aires (onde se concentra a maior parte da população e das vagas disputadas na eleição de novembro).

 

A peculiaridade desse novo movimento é que ele se vende abertamente como de direita, sem pudor. Mas, ao contrário de seus semelhantes, como o trumpismo, nos EUA, o bolsonarismo, no Brasil, ou o Vox espanhol, os ultraconservadores argentinos não incorporam a religião em seu discurso e não têm relação com os militares.

O exército de Milei também não se assusta com a imigração - um tema que não ganha a mesma tração na Argentina, um país fundado por imigrantes - e procura mostrar um perfil moderno, defendendo a liberdade sexual e individual, mas criticando os discursos coletivistas do feminismo e os grupos LGBT. A obsessão dos libertários argentinos é com a economia e o tamanho do Estado.

Milei é candidato a deputado pela cidade de Buenos Aires pela frente La Libertad Avanza, parente político do partido Avanza Libertad, cuja candidatura é liderada por outro economista, José Luis Espert. Segundo as pesquisas, Milei deve ter 12% dos votos, enquanto Espert pode chegar a 10% - um recorde histórico para a direita antiestabelecimento da Argentina, apoiada em grande parte por jovens com menos de 30 anos.

Milei tem um estilo parecido com Donald Trump. É prolixo, impulsivo, histriônico e às vezes extravagante. Seu jeito de falar, agressivo e provocador, seus cabelos cuidadosamente despenteados e seus olhos azuis tornaram magnéticas suas aparições na TV. Em uma delas, em agosto, ele chamou o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, de “esquedista de merda”. 

Sobre as razões do crescimento dos libertários, Milei cita a participação dos jovens. “Acho que há uma combinação de fatores. Existe um cansaço muito grande do povo com a casta política, algo que piorou com a pandemia. Os políticos têm privilégios e usam o poder para oprimir os cidadãos de bem”, explica Milei, em conversa com Estadão, usando um termo comum ao bolsonarismo. Para ele, os jovens se identificam com ele porque estão em constante rebelião contra o establishment. “Eles acreditam que essa rebelião tem de ser liberal. Eles foram expostos à máquina de lavagem cerebral da educação pública por menos tempo.”

Segundo o candidato, os problemas econômicos da Argentina são “prementes” e “só os políticos conseguem prosperar”. Quando questionado sobre como se define, ele responde: “Sou um liberal libertário, um anarcocapitalista, em termos filosóficos, um minarquista. Acredito na expressão mínima do Estado que deve tratar apenas de segurança pública e justiça. Essa tecnologia vai permitir que essa revolução aconteça em breve” - uma das propostas de Milei é o fim do Banco Central. 

Entre suas queixas está o fato de o kirchnerismo e o macrismo, segundo ele, “votarem sempre da mesma forma em temas importantes no Congresso” e ambos “avançarem sobre os direitos individuais dos cidadãos”. Ele promete respeitar a propriedade privada e não aumentar impostos. “O status quo é de esquerda e a revolução liberal é natural. A forma como me expresso, com dureza, sem eufemismos, pode me causar problemas, mas as pessoas valorizam mais o conteúdo do que a forma”, afirma. 

Quando questionado se deseja ser presidente, Milei pisa no freio. Ele responde que é a candidatura à Casa Rosada é uma “especulação apressada”. Para ele, a Argentina padece de uma instabilidade política e econômica crônica. Por isso, ele prefere esperar sua primeira eleição, em novembro. “Passo a passo. Vamos ver até onde vai esse movimento”, disse.

 

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