Nova diretriz militar da Rússia elege avanço da Otan como maior ameaça

A Rússia elegeu a expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) próximo das suas fronteiras como a principal ameaça ao país de acordo com a nova doutrina militar de Moscou assinada ontem pelo presidente Vladimir Putin. O documento deixa em aberto a possibilidade de se usar armas convencionais como "estratégia de dissuasão".

MOSCOU , O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2014 | 02h01

O texto foi divulgado dias depois de a Ucrânia dar novos passos para se juntar à aliança do Atlântico - Washington e Bruxelas não deram sinais de que aceitariam esse ingresso. A doutrina militar anterior, assinada por Putin em 2010, também identificava a expansão da Otan como um perigo alto para a Rússia, mas os riscos, segundo os russos, aumentaram acentuadamente no último ano.

Pela primeira vez, as diretrizes mencionam a possibilidade de se usar armas de precisão como "parte das medidas estratégicas de dissuasão", sem deixar claro quando ou como Moscou poderia recorrer a elas.

A Rússia argumenta que a Otan está levando a Ucrânia a uma "linha de frente de confronto" e ameaçou cortar os laços restantes se a Ucrânia ingressar na Otan.

O fato de o Parlamento de Kiev ter retirado o status de neutralidade da Ucrânia na terça-feira em busca da adesão à Otan irritou Moscou e aprofundou o pior confronto entre a Rússia e potências ocidentais desde o fim da Guerra Fria, após a anexação russa da península ucraniana da Crimeia, em março. Na quinta-feira, o chanceler Serguei Lavrov disse que esse caminho colocaria a Europa "em risco".

A Otan aumentou sua presença militar no leste da Europa em 2014, dizendo que tem provas de que a Rússia articulou e armou uma rebelião pró-russa no leste da Ucrânia depois da derrubada de Viktor Yanukovych, o presidente pró-Kremlin em Kiev. Moscou nega apoiar a rebelião.

Autoridades ucranianas e separatistas pró-Rússia efetuaram ontem uma troca de prisioneiros de guerra, apesar de horas antes terem cancelado a terceira rodada de negociações de paz em Minsk (Bielo-Rússia). Houve acusações mútuas de violação da trégua declarada no dia 9.

Segundo a agência russa Interfax, Kiev trocou em território neutro 150 soldados do governo por 222 milicianos separatistas da autoproclamada República Popular de Donetsk. A troca foi conduzida pelo emissário de Kiev, Victor Medvedchuk, o ministro da Defesa de Donetsk, Vladimir Kononov, e por representantes da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (OSCE). O acordo foi o único alcançado na reunião iniciada por Kiev e separatistas na quarta-feira em Minsk, palco da assinatura dos acordos de paz em setembro.

Isolamento. Em mais um sinal do agravamento da crise, a Ucrânia suspendeu todos os serviços de trem e ônibus de e para a Crimeia. Autoridades citaram a "deterioração" da situação de segurança na península.

Apesar de controlado por Moscou, o território da Crimeia tem ligação por terra apenas com a Ucrânia, tornando-o dependente do país para o fornecimento de vários tipos de suprimentos, incluindo eletricidade e água. Kiev já baniu o tráfego por ar e por mar para o território.

Em mais um ato de isolamento, as duas maiores companhias de cartões de crédito do mundo anunciaram ontem a suspensão dos serviços na Crimeia. Elas argumentaram que as sanções impostas pelos EUA contra a Rússia na semana passada proibiram as companhias de investir ou oferecer serviços na península após sua anexação.

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