Pete Marovich/The New York Times
Pete Marovich/The New York Times

Nova disputa entre Pequim e Washington envolve o avanço nuclear da China

O governo Trump vem retratando o pequeno, mas cada vez mais potente, arsenal nuclear chinês como a grande nova ameaça; arsenal ainda representa um quinto dos da Rússia ou Estados Unidos

David E. Sanger e William J. Broad, The New York Times, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 03h00

WASHINGTON - Quando os negociadores dos Estados Unidos e Rússia se reuniram em Viena na semana passada para discutir a renovação do último grande tratado sobre o controle de armas nucleares entre os países, autoridades americanas surpreenderam seus parceiros com um briefing secreto sobre uma nova e ameaçadora capacidade nuclear - não da Rússia, mas da China.

As informações de inteligência ainda não haviam sido reveladas nos Estados Unidos, nem informadas ao Congresso. Mas foram parte de uma tentativa de trazer a Rússia para o lado americano, com o presidente Trump determinado a forçar a participar do New START, tratado do qual ela não faz parte.

Por outro lado, o governo vem retratando o pequeno, mas cada vez mais potente, arsenal nuclear chinês - que ainda representa um quinto dos mantidos pela Rússia ou Estados Unidos - como uma nova ameaça que Trump e Putin devem enfrentar juntos.

Marshall Billingslea, novo chefe da delegação de Trump, iniciou seu briefing descrevendo o programa chinês como uma expansão nuclear acelerada “um esforço muito alarmante para chegar ao mesmo nível dos arsenais muito maiores mantidos há décadas por Rússia e Estados Unidos".

A mensagem americana foi clara: Trump não renovará nenhum tratado que a China não assine, acenando com a possibilidade de que ele pode abandonar o New START completamente se os chineses não aderirem. O tratado expira em fevereiro, algumas semanas depois da posse do próximo presidente americano.

Muitos especialistas questionam se o incremento do arsenal nuclear da China - que propiciaria mais capacidade do que um maior número de armas - é tão rápido ou ameaçador como insiste o presidente americano.

As informações de inteligência sobre os esforços de Pequim continuam secretas, afirmou um membro do alto escalão do governo, observando que o compartilhamento desse tipo de dados não é incomum entre os maiores Estados detentores de armas nucleares. Mas eles foram passados para um adversário com o qual os Estados Unidos têm mantido um conflito cotidiano, num nível mais inferior - incluindo ataques cibernéticos, sondagens realizadas por aviões de guerra do Exército e a agressão russa na Ucrânia. E isto antes de notícias que vieram à tona de que uma unidade de inteligência militar russa pagou membros do Taleban para matarem soldados americanos e tropas aliadas no Afeganistão.

Segundo a autoridade americana, o governo tentará levantar o sigilo e tornar públicas algumas das análises sobre a China.

Novo embate

As armas nucleares repentinamente se tornaram uma nova área de atrito entre Trump e o presidente chinês Xi Jinping, e existem muitas razões para se acreditar que mesmo se as três superpotências ainda não entraram numa disputa armamentista em grande escala, o que vem ocorrendo nas salas de negociação em todo o mundo poderá em breve desencadear uma.

Os russos propuseram publicamente uma extensão de cinco anos do tratado New START, o que não exigiria aprovação do Congresso americano. Mas Trump claramente aposta em chegar a um consenso com Putin no sentido de confrontar os chineses.

Existe uma real possibilidade de que, em qualquer negociação, Pequim insistirá em quintuplicar sua força nuclear antes de concordar com qualquer outra restrição. Até agora a China tem declarado que não está interessada em discutir qualquer limitação das suas atividades.

“A ideia de trazer os chineses para o tratado em teoria é boa. Mas na prática é impossível”, disse o ex-secretário da Defesa Robert M. Gates, este mês, No Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

“Os chineses não têm nenhum incentivo para participar”, afirmou Gates, que, quando diretor da CIA, confrontou a China quando da sua venda para o Irã de mísseis projetados para transportar ogivas nucleares. E se Trump continuar nesse mesmo percurso, disse Gates, acabará basicamente convidando “os chineses a produzirem muito mais armas nucleares do que achamos que eles mantêm atualmente, para chegarem ao mesmo nível dos Estados Unidos”.

O problema das armas nucleares vem se juntar a uma panóplia de outras questões - que abrangem acordos comerciais, a proibição de entrada de estudantes chineses e as redes 5G - que Trump colocou no centro de uma série de impasses dos Estados Unidos com a China.

“Se as preocupações com relação a Pequim não tiverem uma solução, isto levará os chineses a se esforçarem mais para modernizar suas forças nucleares e outras capacidades estratégicas”, escreveu Tong Zhao, membro do Carnegie-Tsinghua Center for Global Policy, em Pequim.

As raízes do ressurgimento de interesse no incremento dos arsenais nucleares remontam à aprovação do New START há dez anos, no início do governo Obama. Para conseguir aprovação do Tratado no Congresso, Obama concordou com um upgrade do complexo nuclear americano que implicou um gasto multibilionário em dólares e incluiu a restauração de locais de produção abandonados por décadas. Ao mesmo tempo, o vice-presidente Joe Biden, que será o concorrente de Trump na próxima eleição, afirmou que o governo pediria ao Senado para ratificar o Tratado de Interdição Completa dos Testes Nucleares que Bill Clinton assinou, mas foi rejeitado pelos senadores.

Diante dessa história, muitos especialistas nucleares afirmam agora que, se Trump iniciar uma nova onda de testes globais, isto irá beneficiar mais os rivais americanos do que os Estados Unidos.

“Perdemos mais do que ganhamos”, declarou Siegfried S. Hecker, ex-diretor do laboratório de Los Alamos, no Novo México, e hoje é professor em Stanford. Pequim realizou 45 testes, ele observou, e receberia bem uma “retomada dos testes” para “aumentar a sofisticação ou talvez a diversificação” do seu arsenal, e “isto voltará a ser um risco de segurança nacional para os Estados Unidos.

Mas para Billingslea Trump conseguiu fazer com que os russos reflitam sobre o que vem ocorrendo na China, não no deserto de Nevada.

Durante sua reunião na semana passada, os russos tomaram notas sobre o desenvolvimento nuclear da China enquanto examinavam slides secretos. Billingslea insiste que eles querem conversar mais a respeito logo mais. E o farão sem os chineses. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.