Ludovic MARIN /AFP
Ludovic MARIN /AFP

Nova divisão política ocidental opõe o urbano e o rural

Desde 2008, centros urbanos têm monopolizado concentração de renda em detrimento de áreas rurais nos EUA e Europa

Fareed Zakaria*, O Estado de S.Paulo

17 Dezembro 2018 | 05h00

Para Steve Bannon, a maneira de criar uma maioria populista duradoura é combinar forças da esquerda e da direita. É por isso que ele esteve na Itália no início deste ano, onde partidos representando esses dois lados se uniram em uma aliança de governo. É por isso que Bannon espera afastar para longe alguns dos apoiadores de Bernie Sanders do Partido Democrata. Mas o próximo lugar onde podemos estar vendo a ascensão de um novo populismo de esquerda-direita é a França.

Até agora, aos protestos dos “coletes amarelos” na França faltaram partidos, estrutura e lideranças. Mas as listas de demandas estão circulando. Em seu âmago há uma fantasia inviável, como um teto constitucional sobre impostos de 25%, juntamente com um aumento maciço nos gastos sociais. O que chama a atenção nesses manifestos é que eles combinam listas de desejos tradicionais da esquerda e da direita. A revolta dos “coletes amarelos” também se espalhou para a Bélgica, onde a frágil coligação governamental entrou em colapso em virtude da questão da imigração. Mas, novamente, os protestos têm uma sensação de descontentamento generalizado vindo da esquerda e da direita. Assim como na França, Estados Unidos e Reino Unido, parece haver uma reação rural contra as elites urbanas.

A fissura entre os moradores de áreas urbanas com instrução relativamente melhor e as populações rurais menos instruídas parece ter se tornado a nova linha divisória na política ocidental. Em toda parte, os “outsiders” se sentem ignorados ou menosprezados; em todos os lugares eles sentem profundo ressentimento pelas elites metropolitanas. É parte uma questão de classe, parte cultura, mas também há um elemento econômico.

A Brookings Institution demonstrou que, desde a crise financeira de 2008, 72% dos ganhos no emprego se acumularam nas 53 maiores áreas metropolitanas dos EUA. Para compreender a divisão estrutural que isso causa, tenha em mente que todas as cidades americanas contêm 62,7% da população, mas ocupam apenas 3,5% das terras do país. 

O Wall Street Journal lembrou que em 1980, as cidades eram desajustadas, oprimidas pelos crimes e lutavam para impedir que as pessoas saíssem. Hoje elas estão prosperando, crescendo e são relativamente seguras, enquanto a América rural está arruinada com problemas. Esse abismo também é verdadeiro na França, Itália, Grã-Bretanha e outros países ocidentais.

E é provável que fique pior. A pesquisa dos economistas Daron Acemoglu e Pascual Restrepo sugere que o uso de robôs de fato reduz o emprego para cerca de seis trabalhadores para uma máquina. Além disso, Acemoglu e Restrepo constataram que, nos EUA, os robôs foram amplamente implantados no Centro-Oeste e no Sul. Embora as áreas metropolitanas geralmente tenham indústrias criativas e de serviços ricas e em crescimento, é bem menor a probabilidade de que a América rural venha a abrigar centros de tecnologia, entretenimento, leis e finanças. Se você for a uma parte rural do Centro-Oeste, normalmente as principais fontes de emprego são governo e saúde.

As pessoas nessas áreas são em geral definidas como irracionais nas urnas. Nos Estados Unidos, elas votam contra os programas que as ajudariam e em um partido que promete cortes de impostos para os ricos e cortes de benefícios para a classe trabalhadora (ou seja, elas). Thomas Edsall, do The New York Times, ressalta que a lei tributária republicana de 2017 essencialmente subsidia empresas para que elas se automatizem. Na Europa, as pessoas adotam propostas contraditórias da esquerda e da direita. Mas isso pode simplesmente refletir uma ansiedade mais generalizada, uma busca cega por alguém, em algum lugar que prometa a elas um futuro melhor.

O livro de Tom Brokaw, de 1998, A Grande Geração, está repleto de histórias de homens sem diploma no ensino superior que viviam longe das grandes cidades. Essa foi a “verdadeira América”. Regiões semelhantes em toda a França já foram chamadas de “La France profonde” (A França profunda). Hoje são lugares de desespero.

No novo livro de Yuval Harari, 21 lições para o século 21, o historiador israelense afirma que as três mais poderosas ideologias do século 20 - fascismo, comunismo e capitalismo democrático -colocam a pessoa comum no centro, prometendo para ele ou para ela um futuro glorioso. Mas hoje, parece que precisamos de um punhado de “crânios” que, com computadores e robôs, traçarão o rumo para o futuro. Assim, na França, na Grã-Bretanha, nos Estados Unidos, a pessoa comum, que não tem um pomposo diploma, que não participa das palestras TED por vídeo, que não tem capital ou conexões, vai se perguntar - para onde isso me leva? Para essa pergunta, ninguém tem uma boa resposta. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

*É COLUNISTA

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