Nova embaixadora dos EUA critica atuação passada de seu país

Diplomata de carreira e primeira mulher a comandar a embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Donna J. Hrinak deu uma demonstração do estilo franco que deve marcar sua atuação em Brasília durante a cerimônia em que fez o juramento constitucional e foi formalmente empossada em sua nova função, nesta quinta-feira, no salão nobre do departamento de Estado. Depois de falar sobre a evolução profissional das mulheres na diplomacia americana, Hrinak deu uma exibição de rara coragem entre funcionários de carreira e ocupantes de altos postos nos EUA ao mencionar a tortuosa relação que seu país teve com a democracia no continente. "Em particular neste hemisfério, tenho orgulho de que os Estados Unidos hoje defendam a democracia", disse ela. "Nosso histórico, em relação a isso, nem sempre foi admirável", afirmou. "Nossas ações atuais são." A declaração foi especialmente significativa porque veio depois de um breve discurso do vice-secretário de Estado, Richard Armitage, centrado mais na guerra que os EUA travam contra o terrorismo do que nas relações entre os EUA e o Brasil. Sobre esse tema, Hrinak lembrou a iniciativa do Brasil de invocar o tratamento interamericano de assistência recíproca na Organização dos Estados Americanos depois dos ataques de 11 de setembro e a visita que o presidente Fernando Henrique Cardoso fez à embaixada americana em Brasília trinta dias depois dos atentados - "um gesto de classe", disse a embaixadora. Outro dado politico que chamou atenção foi a ênfase social, claramente democrata do discurso de Hrinak, que representará uma administração republicana em Brasília. Ela recordou o compromisso que as 34 democracias do continente assumiram na Cúpula de Miami, de 1994, que lançou o projeto da Área de Livre Comércio das Américas, de "tornar a democracia relevante para cada pessoa "na região, fazendo com que "o desenvolvimento seja equitativo". Referindo-se a outro dos objetivos da reunião de Miami, a embaixadora lembrou que "o alívio à pobreza continua ilusório" e disse que os EUA e o Brasil têm um papel especial e devem trabalhar juntos nessa frente. Hrinak, que administrará um período tenso nas relações entre o Brasil e os EUA, por causa do crescente protecionismo em seu país, chega a Brasília no próximo dia 19, acompanhada por seu marido, o mexicano Luis Flores. Ela foi embaixadora dos EUA na Bolívia, República Dominicana e, mais recentemente, na Venezuela de Hugo Chávez. Hrinak é fluente em português, que aprendeu nos anos 80 como oficial política do consulado americano em São Paulo, e nunca escondeu que seu sonho profissional era voltar um dia ao Brasil como embaixadora. Seu único filho, Wyatt Flores, um paulistano de nascimento, de 17 anos, cursa o penúltimo ano num colégio interno na Flórida e não acompanhará seus pais. Hrinak revelou nesta quinta que terá uma agenda secreta como embaixadora dos EUA: convencer os brasileiros a jogar beisebol, o esporte mais popular entre os americanos.

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