Nova face da jihad coloca europeus em alerta

Marginalizados, jovens islâmicos estariam dispostos a cometer atentados em países como França e Bélgica

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Na mesma manhã de terça-feira em que uma carta assinada pela Frente Revolucionária Afegã (FRA) chegou à Agência France Presse fazendo ameaças contra uma loja de departamentos de Paris, agentes dos serviços secretos desmembraram a conexão na França de mais uma suposta célula jihadista na Europa.Em razão de prisões recentes e dos alertas em vídeos feitos por líderes da Al-Qaeda, especialistas em contraterrorismo acreditam que uma nova geração de fanáticos, nascida na União Européia (UE) e treinada no Paquistão e na África, esteja pronta para perpetrar ataques suicidas.O atual risco de atentados em Paris é o segundo mais elevado na escala do sistema de monitoramento de risco do governo francês. Nas principais cidades da França, a vigilância foi reforçada com 400 policiais e 200 militares após a terça-feira. Neste dia, a FRA, uma organização até agora desconhecida, anunciou ter instalado cinco cargas de dinamite num banheiro da loja de departamentos Printemps. A seriedade dessa ameaça e sua origem islâmica são pontos que estão sendo investigados.Ainda na terça-feira, a prisão de supostos membros de uma célula terrorista da Al-Qaeda em Paris e Grenoble aumentou a preocupação das autoridades. Os detidos seriam a "conexão francesa" do grupo de 14 suspeitos presos dez dias atrás na Bélgica e acusados de organizarem um atentado numa reunião de cúpula da UE.Em comum, estes suspeitos têm, de maneira geral, pouca idade - menos de 30 anos -, nacionalidades européias e, o mais importante, treinamento em campos no norte do Paquistão e no norte da África. Eles compõem, segundo especialistas, a nova geração de terroristas prontos para o martírio."Neste momento, pesam sobre a Europa ameaças da Al-Qaeda e do Taleban. A próxima etapa são os atentados", afirmou ao Estado Louis Caprioli, ex-diretor-adjunto da Direção de Monitoramento do Território, um dos serviços secretos franceses. "Temos informações de que voluntários que vivem em países europeus estão treinados. Eles integram novas células terroristas que começaram a ser formadas em 2007 e 2008." Entre os suspeitos capturados em Bruxelas estavam os criadores do site Minbar, que faz apologia da Al-Qaeda. Na página, era possível obter informações sobre como partir ao Afeganistão para combater com o Taleban ou fazer doações para a causa. No mesmo grupo, foi detida a influente ciberjihadista Malika el-Aroud, viúva de um terrorista suicida.A segunda frente de preocupações dos serviços secretos está do outro lado do Mar Mediterrâneo. Grupos como a Al-Qaeda no Magreb Islâmico (AQMI) em ex-colônias francesas do norte da África - Argélia, Marrocos e Tunísia - tiram proveito da integração e da mobilidade em direção à Europa. "O Norte da África é o outro lado da rua para os europeus", diz Claude Moniquet, presidente do Centro Europeu de Inteligência Estratégica e Segurança (Esisc), de Bruxelas. "Não é segredo que a Al-Qaeda se instalou na região entre 2005 e 2006." A vulnerabilidade de países como França, Bélgica, Grã-Bretanha e Alemanha, entendem os especialistas, é a minoria não-integrada de jovens de origem islâmica que, por não terem oportunidades de ascensão social e não se reconhecerem em seus países formam uma reserva de "mártires".

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