Nova geração de cubanos exilados

Os jovens cubano-americanos são mais flexíveis do que seus pais e estão aproximando Cuba dos Estados Unidos

Ana Hebra Flaster, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2012 | 03h01

HAVANA - Menti para o meu pai: disse que estava em Cape Cod, mas fui para Havana. Nada a respeito de Cuba é fácil. Nem a política, nem o câmbio tresloucado do peso conversível e muito menos chegar lá. Mas, como cubano-americana, desejosa de estabelecer os laços com a família em Havana, o maior obstáculo que enfrentei foi a desaprovação do meu pai.

No início, meus pais apoiaram a revolução. Minha mãe até vendeu títulos e procurou remédios para os rebeldes. Depois que o movimento triunfou, porém, os políticos se tornaram o centro da vida e a nova sociedade exigia um trabalho diário de vigilância, denúncias e repressão. Meus pais colocaram uma mordaça na boca, solicitaram autorização para deixar o país, esperaram anos até recebê-la e, finalmente, em 1967, fugiram para os EUA. Agora, meu pai tem 80 anos. Como muitos exilados mais velhos, critica os cubano-americanos que regressam. Papai acha que cada dólar, barra de sabão e impressora a laser que levamos para as nossas famílias é um pouco de poder que vai para as mãos dos Castros. Quando contei para ele que pretendia viajar para Cuba, brigou muito para me dissuadir. "Não vê que está contribuindo para manter esses canalhas no poder? Os cubano-americanos injetaram US$ 4 bilhões naquela economia no ano passado! Você está legitimando a repressão! Depois de tudo o que passamos, você quer voltar?" Eu queria. Desde que parti, aos 6 anos, só voltei uma vez, em 1999.

Queria conhecer meus primos. Agora que o governo de Barack Obama afrouxou algumas restrições de viagens, queria que meu marido e meu filho vissem meu país. Durante meses, meu pai e eu discutimos por telefone, sentados à mesa da cozinha ou lado a lado no carro. Quando o visto para Cuba chegou, arrumei uma mentira para poupá-lo. Se ele perguntar, pedi que os 27 membros da família dissessem que estaríamos em Cape Cod, fora da cobertura de celulares.

Fomos para Havana num voo charter. Imediatamente, minha prima Patricia e eu entabulamos uma daquelas conversas de cinco dias, como na minha última viagem. Meu marido judeu e meu filho se integraram logo à rotina da casa como nativos. Rapidamente, tiraram as camisas no calor de 35°C e sentaram-se com os outros homens no alpendre da frente para tomar café em xícaras minúsculas e ouvir os gritos dos camelôs.

Fiquei no interior da casa com os filhos de Patricia, na frente do ventilador, construindo um modelo do sistema solar com Diego e costurando um vestido de princesa para a boneca de Verónica. O amor que derrubava o embargo estava no ar.

Na nossa última tarde, fomos de carro até Juanelo, meu antigo bairro, nos arredores de Havana. As vizinhas correram para nos ver e trocamos abraços e beijos. Contaram histórias dos meus avós, tios e tias, sobre meu pai, que jogava beisebol, e minha mãe, que ensinava as crianças a ler. As mulheres mais velhas cheiravam a sabão e usavam "batas de casa" limpas. Segurando a minha mão, Nena, de 90 anos, disse à filha que pegasse as fotografias de nossa família em New Hampshire. "Você não nos esqueceu! Pegue tudo da minha mesa. Presente meu. Sabe, quando as velhas de lá e as velhas daqui morrerem, tudo vai acabar."

Evidentemente, nada compensará a perda daquela geração, mas eu estou mais otimista a respeito do futuro. Quando os mais velhos dos dois lados do Estreito da Flórida morrerem, morrerão as paixões que contribuíram para alimentar mais de 50 anos de impasse entre Cuba e EUA. Os cubano-americanos da minha idade, em geral, são mais flexíveis do ponto de vista político do que nossos pais e nossos contemporâneos em Cuba.

Apesar disso, muitos da geração do meu pai morrerão ainda esperando que o país mude de fato. Nós, seus herdeiros, nos defrontamos com uma escolha: acertar as contas para os nossos pais ou restabelecer os vínculos com Cuba e reconstruir o país que eles amavam.

Quando cheguei a Miami, telefonei para meu pai. Quando ele ouviu onde tinha estado, ouvi um suspiro. "Minha filha", ele disse. "Obrigado. De verdade. Quem você viu?" A surpresa me tranquilizou. Talvez não fosse tarde demais para meu pai ou para Cuba. Agora, eu poderia compartilhar com ele as histórias, as fotos e as mensagens de todos os meus primos e das velhas que não se esquecerão de nós. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* É ESCRITORA

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